30/06/10

miss

"- Anda cá. Deita-te aqui. Queres que te conte uma história? No meu quintal também há japoneiras. E aquele insecto que parece gritar com o calor. Lembras-te da última vez que estivemos aqui? Há uns anos? Julgava eu que já conhecia tudo de ti. Porque sou tua mãe e as mães conhecem as filhas. Mas não. Conheci o bocado que talvez mais ninguém conheça, E consegui-o porque sou tua mãe. As mães conhecem para lá das palavras ou do toque. E tu conheceste-me a mim. No meio do calor, da água da piscina morna, da brisa de Agosto que queima a pele.
Anda cá. Deita-te aqui no meu colo. Vou contar-te a história da Rapunzel, aquela princesa que vivia no cimo de uma torre, enclausurada. Tinha uma longa trança que chegava ao chão mas à qual ninguém conseguia trepar. Anos se passaram e ela, a princesa, continuava presa na torre. Até que um dia um príncipe passou a cavalo como todos os príncipes. E conseguiu chegar lá acima.
Alguém um dia há-de conseguir trepar à tua torre. Prometo-te.
Já dormes?
Só te deixo dormir um bocadinho ao sol. Faz mal à pele.
Quero que tenhas uma pele como a minha, quando fores velha."
Palavras da minha mãe que hoje pús a escorrerem-me dos dedos.

n e g r o

Tinha cores para todos os dias.

Para vários de espírito, dependendo da capacidade se entregar às coisas ou os picos de ansiedade.
Para dias molengões ou fins de semana aventureiros.
As cores eram uma espécie de epiderme e ela usava-as como se na realidade fizessem parte dela.
Incorporava-as como um soro, respeitava-as como uma lei e temia-as como uma tempestade.
Nunca, porém, deixava que uma cor tomasse conta de si.
A não ser o negro.
Que em certos dias se entranhava, como uma tatuagem, pintado de preto, à passagem,
células, veias, sangue, órgãos, ossos.
Melhor dizendo – todos os recônditos cantos do seu ser.

um

28/06/10

irmãos & irmãs

por entre estações, imagens, natais,
viagens, compras, cafés, sonos,
silêncios, festas e tardes de praia,
horas difíceis e amanheceres,
cachorros quentes, batons, cigarros e avé marias
por entre dias, meses, anos
por enquanto e sempre, enquanto dure
somos assim, irmãos e irmãs de sangue, alma, à distância 
para o bem e para o mal.
amén.

para os meus irmãos e irmãs: tó, bé, kiki, zinha, rui, rosi, pedro, marisa, sandra.

22/06/10

ai ai ai ai

fot. Cig Harvey

Tudo serve. Para fugir ao estudo.
É o grilo que canta lá fora. É a tosse do vizinho de cima que tem piorado.
Agora tenho de pôr creme nos braços.
Agora tenho de comer um iogurte com cereais.
As cadeiras estão a fazer muito barulho.
Tenho que por roupa a lavar. Ui. Que barulho é este?
Preciso de uma caneta para sublinhar os conceitos a laranja.
Não fui ao correio!...
Se eu pintasse as unhas de roxo?
É o raio de um mosquito que entrou porque a janela estava aberta.
Agora um cigarrinho na varanda.
"Anda cá pequenina para o meu colinho..."
Agora um texto pequenino. Pequenino, para não perder muito tempo.
Se calhar nem o ponho no blog por ser tão pequeno.
Mas se continuo a escrever passa a ser grande.
Bullshit. Estou farta de estudar.
Quero escrever peças de teatro.

Ter um blog é quase como ter um relacionamento.


Quando começamos nunca sabemos muito bem o que vai dar.
Andamos ali nos primeiros tempos a provar a coisa; esticamos a corda para ver até onde podemos ir, fazemos umas birras e amuamos aos bocadinhos. Ousamos, criamos, enfeitamos, pomos florinhas e retratos pomposos, citamos frases imortais e damo-nos ao trabalho de transcrever coisas que tínhamos em gavetas arrumadas há séculos.
Até que chega o momento de se decidir se queremos continuar e assim definir melhor o caminho…
É preciso ter um “jogo de cintura” relativamente jeitoso para com ele desenvolvermos uma relação espontânea e tolerante. Em suma, para não nos cansarmos dele.
Há dias em que sim, há dias em que sopas.
Há dias em que o cor-de-rosa é tão estupidamente rosa que até dói e há dias em que o negro é tão profundo como o grande buraco do mar.
Há dias em que o que sentimos não cabe na boca e tem que escorrer por via das palavras.
Há dias que nem uma palavra nos arrancam e há dias em que urge partilhar e memoriar.
E depois há dias em que falamos com alguém que nos fala dos filhos e nós, como não temos filhos, dizemos “eu tenho 2 gatas e um blog”.
E dizemo-lo com igual brilho nos olhos e a voz completamente embargada.
Pois é. Um blog é como um animal. Um filho. um relacionamento.
E a partilha e a ligação que estabelecemos com ele é tão forte que se pode tornar num caso sério.
Porque é que eu estou a escrever na 1ª pessoa do plural?...
Se calhar porque penso que há mais gente a pensar como eu.

o meu solstício de verão

o maior dia do ano
nele tem de caber esta minha sede de verão:
blusas de alça, sandálias, grilos, gelo nos copos, vento de leste,
poentes vermelhos, pele vermelha,
areia nos dedos dos pés, lençóis na cama, crianças a brincar nas ruas até tarde,
vermelhos, muita fruta,
janelas do carro abertas,
poemas e livros com areia,
mar sem carneiros, noites com estrelas,
saladas frescas, ioga com janelas abertas,
vestidos sem meias, concertos ao ar livre
snorkelng sem frio, pouco trânsito.
e dias e noites no teu terraço,
sem frio, a fio.



21/06/10

considerações sobre o beijo

 
Não gosto muito de cumprimentar com beijos na face.

Porque alguém se lembrou de inventar que dar um só beijo é mais “in” e aconteceu-me algumas vezes dar a face para dar um beijo e dar a outra e ficar a ver navios com cara de parva.
Ainda tentei fazer uma lista das pessoas que dão só um e das pessoas que dão dois. Mas fiz tremenda confusão que nem sei.
Não gosto muito de cumprimentar com beijos na face porque há pessoas que nos dão a face – e só a face – e nós é que temos que dar o beijo e isso irrita-me um bocado.
Depois há as que dão a face energicamente, ou seja, dão-mos uma trancada com o maxilar. Havia uma rapariga que dava beijos assim. Ou não dava. Encostava a face energicamente e não fazia mais nada. Um dia apanhou-me irritada e decidi fazer o mesmo. Foi ridículo. As duas encostamos a face e não fizemos mais nada.
Acho que esta coisa com os beijos me ficou de miúda.
Primeiro com as amigas de café da minha avó materna que me achavam um piadão por falar pelos cotovelos de modo que me sentavam em cima da mesa de café como se fosse uma jarra e passavam a tarde a dar-me beijos "molhados" com as boquinhas cor-de-rosa bebé.
E depois no dia de Páscoa, quando me ajoelhava para beijar o Senhor. Senhor Jesus, no crucifixo.
Magoava-me sempre no dente da frente que era mais saliente.
E ainda por cima não confiava nada naquele pano com que limpavam a imagem de umas bocas para as outras. De maneira que depois de dar o beijo ficava a pensar “que porcaria que nojeira a quantidade de pessoas que já beijaram isto o” e na verdade não adiantava nada dar o beijo porque não me sentia mais purificada, muito pelo contrário.
Entretanto também me ensinaram que depois de me benzer devia dar um beijo nos dedos “mas porque carga d’água”, perguntei eu e ninguém me soube responder.
De modo que tirando os beijos na boca apaixonados com o nosso amor, os beijos na costa da mão reverenciais, os beijos nas minhas gatas e os beijinhos à distância "até logo gostei imenso de te ver", sou pouco amiga de beijos.
C’est la vie.
Também há que não goste do amarelo.

18/06/10

love song

mesmo quando o nosso amor for só
aquela cantiga que se varreu dos lábios dos nossos
mesmo que sequem os batons e desmaiem as cores
que morram de solidão os livros
e o próprio silencio tiver sido já enterrado
e que nada mais haja de essência ou material,
morará na memoria das minhas palavras
a cor do amor que me ensinaste a vestir
e que tantas vezes despi
para me entregar
(a ti).

b r a n c o

Gosto do som do branco dos meus lençóis.
que aprenderam a guardar a música do teu corpo
para me brindar, todas as manhãs,
com a cantiga de um beijo teu.
 

15/06/10

os joelhos impecáveis

É sabido que com a idade ganhamos umas coisas e perdemos outras.
Ganhamos experiência e maturidade.
Mas perdemos firmeza na pele.
Ganhamos quilos a mais no abdómen.
Perdemos a vontade de dormir até às 5 da tarde.
Tenho pensado nisto algumas vezes. Não porque não tenha nada mais interessante em que pensar.
Há uns dias ia no comboio e decidi contar o número de mulheres com pernas à mostra que apresentava joelhos impecáveis.
E contei cerca de 12 mulheres com pernas à mostra.
Ora isso faz exactamente 24 joelhos. Desses 24, contei 6 joelhos impecáveis.
E quando me refiro a “impecáveis” significa que os ditos joelhos não apresentam aquelas almofadinhas laterais que os fazem ficar assim com um ar balofo mas riquinho. Não, nada disso. Eram uns senhores joelhos, com ar sadio, morenos e musculados.
Ora depois de reparar nele encostei-me para dormir, com as mãos pousadas nos meus joelhos escondidos
e sonhei.
Sonhei que entrava num desfile da Victoria Secret com umas asas brancas descomunais, usando um conjunto de lingerie estupidamente lindo, exibindo com orgulho os meus joelhos impecáveis, morenos, musculados e sem almofadinhas balofas, com um ar riquinho para deleite de uma plateia
onde estavam com um ar ainda mais riquinho
o Drogba e a Manuela Ferreira Leite com as netinhas.

que lhe visto eu?

Escolher o novo rosto do meu “photomaton” está a ser quase tão difícil como decidir o que vou vestir, em certas manhãs.

poetar

Quando aos 11 anos de idade descobri que ser-se “poeta” era escrever em verso, fiquei tristíssima porque nunca seria capaz de me tornar uma.
Passei, portanto, uns anos a achar que aquelas frases bestialmente curtas e sem sentido, que me jorravam aos solavancos da língua e dos dedos, eram uma espécie de materialização da faceta obscura do meu cérebro que a ninguém dava a conhecer, sequer a mim própria.
Hoje, aos 41 anos, continuo a perguntar-me “o que é ser-se poeta”.
Tenho lido umas coisas sobre isso. Teorias.
Mas gosto de ouvir as respostas pela boca deles. Dos poetas.
Ainda não me considero uma.
Voltarei, aos 73 anos, para vos dizer se entretanto descobri.

Pais Natais trepadores e Vuvuzelas infernais

Pronto, consegui encontrar um objecto que me irrita quase tanto como os pais natais magrinhos que as pessoas teimam em colocar nos prédios, em altura do Natal, a entrar pelas janelas numa pose a querer rondar o atlético-desportivo, pose essa que não entra no imaginário colectivo daquilo que é o Pai Natal.
Depois há zonas do país mais ventosas e os pais natais, coitados, ficam de pernas para o ar, a dar a entender que querem é pisgar-se o mais rapidamente possível. Isto para não falar daqueles que ficam sem chapéu ou sem óculos.
Quem terá inventado esta moda dos pais natais trepadores?
Quem terá inventado esta moda das Vuvuzelas infernais?
Quando a esta última, li que foi inventada na África do Sul e que foi a Galp Energia teve a feliz ideia de importar a ideia e lançar esta moda inacreditável de pôr o pessoal a bufar quase até ficar roxo nas cornetas insuportáveis cujo uso devia ser proibido quando utilizadas, no mínimo, aos pares.
Mas enquanto os pais natais não chateiam muito (limitando-se a sujar a paisagem) as vuvuzelas chateiam imenso.
Há dias no supermercado estava uma criancinha com a boca suja de iogurte com uma na mão e estava na fila “menos de 10 unidades” e eu na verdade tinha ido comprar 4 iogurtes e ainda pensei duas vezes se ia para aquela fila.
E eis que quando eu decido sem grande determinação pôr-me na tal fila das “menos de 10 unidades”, pensando que a mãe tinha proibido a criancinha de fazer poluição sonora em sítios fechados, a criancinha “com olhos de Jack Nicholson no Shining” cola a boquinha à vuvuzela e começa a tocar. A sorte é que o som não saiu lá muito potente, mas foi o suficiente para me doer o cérebro e engolir uma data de asneiras.
E o resto das pessoas, estranhamente, em vez de franzirem o sobrolho e reprovar tal acto, ainda se puseram com punhos cerrados no ar e a gritar com voz gutural “viva Portugal!”.
Eu decidi então abandonar a fila e lancei à criancinha o meu olhar mais perverso e lá me fui a arrastar, com o nariz a comichar-me e as pernas bambas de nervoso.
Mas Portugal joga hoje. E eu quero muito que ganhe.
Mas sem vuvuzelas.

12/06/10

pois...

gostava que me tivessem dito em criança "estuda-te",
o mesmo número de vezes que me disseram "estuda".

(autor desconhecido)

11/06/10

for sure

passaste uma vida a dizer-me "vai correr tudo bem, vais ver".
hoje sou eu que te digo isso.
for sure.

08/06/10

cara lavada

às vezes sabe bem lavar a cara
arranjar o cabelo
pintar os olhos
e olharmo-nos ao espelho e vermo-nos "novos".

this is the sea


levaste-me.
deixei-me ir.
ainda bem que fui.
porque agora me apetece lá voltar.
sempre.

(8 de Junho, dia do Oceano.)

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