26/07/10

à descoberta de novos mundos

descobri recentemente uma data de coisas que muito me aprouveram.
as pinturas de "santa rita pintor", as "anitas" da ana vidigal e as sandálias "à senhora".
o que custa às vezes não é descobrir.
o que custa às vezes é, em certos casos, dar o braço a torcer.

09/07/10

só para dizer: saudade

Em criança, quando me perguntaram o que eu queria ser quando fosse grande, respondi: piloteira, viúva e muitíssimo culta.
Felizmente nada fiz para ser as duas primeiras.
Quanto à ultima, acho que contínuo a fazer. Mas não para ser muitíssimo.
O “muitíssimo” é uma medida que me assusta aliás como tudo que se me afigura copioso: a chuva, a idiotice, a preguiça que vejo à minha volta…
As pessoas que conheço e que SÃO EFECTIVAMENTE muitíssimo cultas contam-se por (3) dedos de uma mão.
As que se armam ao zingarelho encontram-se aos pacotes e ainda por cima imbuídas de uma certeza de que são capazes de proferir um discurso coerente e recto sobre qualquer assunto mais de 5 minutos seguidos e depois vamos a ver e é uma desgraça porque na realidade confundem

“Vamos há horta” com "Vamos á horta"
e

"Bauhaus? Bauhaus é uma banda musical, pá! É uma escola o quê? Tás-te mas é a passar...."

Nada me irrita mais do que acentos mal empregues.
Seria incapaz de me apaixonar por alguém que me escrevesse um recado assim:

“vamos á praia? Està um calor fántastico.”

Adoro as pessoas a quem eu pergunto, por exemplo, “sabes quem foi Michel Foucault” e, além de me responderem que sim, ainda me citam a obra completa na 1ª década de 70.
Ou então “o que é um granizado”? E vem uma resposta inteligente, curta e suficientemente elucidativa para que no dia seguinte eu não pergunte o mesmo.
Portanto eu ando a trabalhar para ser um bocadinho culta.
Não aquele culto para responder às perguntas do “Quem quer ser milionário” mas sim para, por exemplo, me deliciar uma tarde a olhar para o zimbório monumental e os panos murários da uma certa Igreja ou muito simplesmente, sentar-me à beira mar numa tarde de verão e rever, mentalmente , a passagem de um qualquer romance dos grandes do século xx.
Conheço uma pessoa assim. Muitíssimo culta.
Junto de quem é um verdadeiro prazer estar e aprender.
Que não erra nos acentos; que sabe quem é o Foucault e os da sua escola (e se calhar algum tio que teve uma influência mesmo sendo pequena numa dada matéria relacionada com a produção de azeite); que além de explicar, faz um granizado absolutamente fantástico e, para meu espanto contínuo até sabe (porque leu algures com um olho enquanto o outro via um filme pala 30ª vez) que a Igreja que falo acima é a do modelo mafrense e tem na sua estante, muito provavelmente, o romance que eu vou recordar e sublinhar até ao fim da vida.

01/07/10

Os santinhos que viviam dentro do bolsinho interior de uma carteira cor-de-rosa

A minha irmã deu-me uma carteira cor-de-rosa que já não usava.

Quando hoje peguei nela, para a encher com as minhas coisas, deparei-me com duas imagens de santos minúsculos (um maior que o outro), meio enferrujados e estragados mas com um não sei quê de obscuro que lhes conferia uma qualquer peculiaridade e esbocei um sorriso mental.
Fiquei ali cinco minutos a pensar com uma só sobrancelha levantada que a minha irmã é uma rapariga peculiar que gosta de carteiras da Furla, sapatinhos pequenos a parecer antigos, quadros da Paula Rego, desenhos a tinta Nankim, filet mignon, brancas nos caracóis, artigos científicos de patologia clínica, cremes para a cara, fazer malha e rendas, AC DC, camisolões largos, sacar músicas e fazer discos, castanhas piladas, creme corporal Angel, pintar quadros a óleo, armazenar comida nas bochechas, bolachas ararutas, batôns fortes, canetas de gel de muitas cores, ovos verdes e... afinal,
também gosta de santinhos que parece terem sido apanhadas do chão depois de um carro lhes ter passado em cima.
Fiquei contente por encontrar aqueles santos gastos e com ar sério, ainda inteiros, dentro daquele bolsinho interior, porque agora passaram a ser meus e vão ter de andar de carteira em carteira.

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