31/08/10

bossa nova and MPB set

bossa nova set

o coleccionador de selos

Passara a vida a coleccionar selos.
A observá-los, depurada e atentamente, com uma atenção que aos olhos dos outros parecia desmesurada.
Dispensara as amenas cavaqueiras com os amigos, ao sol, e as tertúlias de cerveja com sueca; as tardes ociosas de Domingo, em que se encostavam às paredes quentes do café, para ver passar as raparigas com flores na cabeça e os seus andares de Verão.
Deu pouca atenção à 1ª comunhão do neto e ao dia de formatura do filho mais velho. Esquecera aniversários de casamento, entregas de IRS e compras de supermercado.
A Internet passara-lhe à margem e nunca ouviu, sequer, falar do Sudoku.
Mas quando, no leito de morte, alguém perguntou se tinha sido feliz, ele apertou com as ultimas forças, o seu primeiro álbum de selos, a cheirar a antigo, e os olhos brilharam como duas estrelas.
E a Maria do Carmo, que estivera ao seu lado a vida inteira e entendia aquele seu amor pelos selos e acreditava, hoje, que ele era quase tão grande como o amor que tinha por ela e pelos filhos, respondeu, numa voz calma e resignada.
- Nunca deixou de fazer o que lhe proporcionava felicidade e bem-estar. Talvez por isso tenha sido feliz e nos tenha feito a nós, também, felizes.
Deu-lhe um beijo na testa enrugada, colocou a sua mão sobre a mão dele e sobre o álbum dos selos e deixou-o partir em paz, como tantas vezes o deixara, abandonado, à luz ténue do candeeiro sobre a mesinha onde, feliz como uma criança se dedicava à tarefa minuciosa de se apaixonar por cada um daqueles minúsculos pedaços de papel.

Não gosto mesmo nada

De açorda seja ela do que for
De pensar que a série Millennium, do Stieg Larsson só tem 3 livros
De bronzeadores que ficam empastados, nabos cozidos e aterragens de avião
De gente vestida com camisolinhas cujo tamanho corresponde a 3 números abaixo
Cheiro a “Verão” quando estou a trabalhar
De despedidas, injustiças, Licor Beirão e enguias
De meias com um buraco no dedão (que depois magoa nos sapatos)
Traições, mentiras, ultrapassagens perigosas e notícias sensacionalistas
Picadas de mosquito e novelas da TVI
Que me deitem areia para os olhos e para a toalha da praia
Porem-me um papel à frente e dizerem-me “escreve imediatamente”
Dos meus olhos quando acordo e do meu pensamento quando me deito
De silêncio obrigado e fazer dieta
De botas abertas à frente, condutores pintarolas, perguntas impertinentes e fanecas.

"Vespa"

Sentara-se com pouca certeza na cadeira de plástico meia bamba da esplanada que dava pelo nome de… “Vespa”. Detivera-se, por momentos, a pensar quem se lembraria de ter dado um nome daqueles a um local que supostamente se destinava a pura descontracção e relaxe, ao ar puro, quase de fronte para o mar.

Pediu um fino e tremoços.
Os homens de meia-idade, castanhos do sol e suados, com as suas imensas barrigas de cerveja, viram a mulher sozinha a pedir um fino e fizeram aquela expressão característica que vem escrita no ADN de todos os homens, e que se traduz num misto de cumplicidade em relação à bebida propriamente dita e uma pitada de incredulidade e irritação face ao à vontade com que o gesto é levado a cabo.
Com algum alívio, a rapariga comprovou que o nome “Vespa” poderia ter sido apenas um delírio do proprietário, porque na verdade os únicos seres vivos que por ali se vislumbravam eram as gaivotas, que descreviam círculos tontos sobre o areal, atordoadas pelo calor.
O empregado pousou na mesa o fino e o pratinho dos tremoços.
Ela deu gole pequenino e mordeu um tremoço cheio de sal.
Arrepiou-se com o sabor a sal e ao mesmo tempo com o sol e suspirou de satisfação.
Mergulhou na leitura enquanto os homens a olhavam, coçando as suíças e as carecas suadas.
Foi quando, de repente, o chão da pequena esplanada sobranceira ao areal, pareceu ganhar vida e pareceu querer engolir todos aqueles que lá se encontravam sentados, começando ao mesmo tempo a movimentar-se, ondulante, e rugindo como uma fera.
Tudo começou a abanar.
“Tremor de terra?”. A rapariga engoliu em seco e apanhou o copo do fino no ar.
Duas senhoras, mais à frente, partilharam a mesma preocupação e devolveram-lhe um olhar assustado. Um casal levantou-se, com um bebé corado a chorar, muito assustado.
Três adolescentes deixaram escapar uma asneirola e só voltaram as cabeças para onde vinha o rugido, naquela atitude típica dos adolescentes que não querem, nunca, ter muito trabalho.
Apenas os homens das barrigas permaneceram impávidos e serenos, alheios a perigos, vendavais e tremores de terra, continuando a mascar os palitos ao canto da boca e a fumar cigarros quase até às priscas.
Foi quando, vinda da cozinha do “Vespa”, uma empregada atravessou o bar de uma ponta à outra, em pé, nos seus cento e muitos kilos, descontraída e confiante, abanando tudo à sua passagem, provocando nos clientes assustados, um ruído surdo de admiração e alivio.
Não era um tremor de terra, graças a Deus.

10/08/10

1 desejo para o génio da lâmpada

não perder nunca, esta minha capacidade
de ver "luzinhas" e "pequenas flores de papel"
e "notas de música em forma de pó" e "neve morna"
em tantos momentos da minha vida,
como acontece naquele filme do ridley scott, "a floresta encantada".

cenas de gajas

juntavam-se sempre que podiam.
para falar de filhos ou de saldos.
de homens ou séries de televisão.
juntavam-se em esplanadas ou ali mesmo no café Piolho, no meio dos filhos e dos sobrinhos.
juntavam-se aos pares ou aos magotes.
de copo de fino na mão, cigarro fino no canto da boca.
de sapatinhos rasos por causa dos paralelos
de calças de ganga largas por serem mais confortáveis
caracóis soltos. conversa solta.
juntavam-se e riam e riam e juntavam-se.
numa cantiga inaudível aos ouvidos de todos
numa cantiga conhecida
tácita
que brotava, em silêncio,
do coração de cada uma.

08/08/10

miss

Às vezes apetece-me escrever-te em todos os sítios que estão à minha volta.
Corpo, paredes, estradas, mar, tecidos, livros, ruas, céu.
E vou guardando as palavras, seguidinhas, na cabeça.
Quem sabe um dia não faço uma estrada de palavras até ti.

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