29/10/10

escrever

E que é isto de escrever?
Exercício? Necessidade? Prazer? Busca?
No meu caso é uma terapia. Individual. Uma necessidade orgânica. 
Escrevo todas as noites, pelo menos no papel.
E se não o faço, adormeço a desenhar palavras nas paredes do meu quarto até os olhos se fecharem.
Gostava de ter tempo para escrever mais.
Gostava de ganhar a vida a escrever.
Para que depois, quando me perguntassem “O que fazes na vida?”
Eu pudesse, orgulhosa, responder:
Escrevo(me).

27/10/10

mai nada

Acordava todos os dias à espera de uma metamorfose. Da escrita.

Que a providência divina baixasse sobre si uma aura literária diferente.
Que no seu cérebro se embaraçassem as palavras e os verbos, os sujeitos e os predicados, os adjectivos e as metáforas.
Que as coisas cor-de-rosa e comezinhas fossem substituídas por construções sofisticadas e consistentes.
Que não mais houvesse estrelinhas, velas, bonecada e perfumes.
Que não mais conseguisse chorar através dos vocábulos e das vírgulas e não mais se apaixonasse pelos verbos.
Que acabassem as reticências, as frases curtas e ofegantes, o lirismo adocicado de quem redige do coração para os dedos.
Pediu. Pediu às santas de Fátima, aos Expeditos sem cabeça, pediu a Jesus, a Buda e a Alá, pediu às estrelas do tecto e pediu aos velhinhos com poderes mediúnicos.
Andou nisto uma data de dias.
E desistiu, certo dia.
Em que percebeu que isto da escrita não se aprende, não se estuda, não se compra.
E faz-se com o que cada um tem dentro de si. Melhor ou pior.
A escrita… é.

poça para o polvo


Há já vários dias que me sento, depois de comer a tigela de sopa sem batata e a salada rotineira, representativas de uma dieta equilibrada compostinha, no sofá, onde me aquieto com o cerebelo cheio de batatas fritas e muito pão, cestos de pão, de todos os tipos de pães
e espero, melancólica, que surja uma, só uma notícia que seja boa, só peço uma, não é pedir muito… que me retire desta míngua de comidinha boa e dos agoiros constantes de uma recessão que já se pressente.
E eis que até a morte de um polvo é notícia de Telejornal de horário Nobre. O polvo adivinho.
Já se construiu uma estátua para o polvo. A Rússia queria comprar o polvo.
E o polvo morreu. Morreu, coitadinho. Será que o comeram?
(….)
Bem-feita. Quem me manda ver o noticiário?
Ainda por cima, sonhei que um polvo gigante, azul bebé, com olhos de desenho animado, andava perdido no meu quarto, a voar, a atazanar-me a alma.
A mim e às minhas gatas.
Tenho conseguido responder à maioria das perguntas que me faço
E desde que me conheço a fazer perguntas a mim própria.
Apenas para uma continuo, desde sempre, sem resposta.
É assim tão difícil?

23/10/10

Músicas da minha vida

"Hello Big Man" de Carly Simon 

http://www.youtube.com/watch?v=7OUtdqd4jXs

Porque me faz lembrar a minha irmã Kiki e um dos meus maiores (e querido) amigos, o João.
É uma parede cheia de retratos, ou um álbum de fotografias.
Uma casa acolhedora, a cheirar a gente, a sopa e a amor.
São noites a ouvi-la muito alto, muito, até os vizinhos virem ralhar.
E continuar a ouvi-la, com a minha irmã, de mãos dadas, a olhar para o mais fundo dos nossos olhos; eu a pensar na minha "Piedade" e ela na sua "Alexandra"; pelo que nos ensinaram a mergulhar em nós e a sobreviver.
E dedicá-la, ao João, com o carinho e a amizade que se instalaram no meu coração.
Tenho a certeza que estás muito próximo de ter, com o Paulo, a tua parede forrada de retratos.

canasta, King, inchaço & vinho novo

Que bom que é jogar cartas em casa da Rosi e do Pedro.
A bebericar um chá verde de menta do BB Gourmet, a petiscar uns tremoços com vinho novo e um pacotinho de bolachas Tuc.
Que bom que é haver em todas as nossas casas um bloco onde se apontam os jogos e que bom que é desfolhar esse bloco e ver tantos jogos com tantos de nós: Marisa, Thomas, Sandra, João, Nicolau, Carlos.
Que bom são os cigarros fumados entre jogadas e enquanto se fazem as contas.
Que bom apanhar os montes gordos das canastas e não fazer vazas com as pequerruchas.
Que bom que é conversar entre as jogadas e rir muito.
Que bom que é ver a Rosi a perder-se nas contas, o Pedro a contar as cartas, a Kiki a olhar por cima dos óculos.
E melhor ainda, voltar a casa, tarde, com nevoeiro na estrada e muito frio, mas com o calor instalado no coração.

21/10/10

"porto"


esta é a imagem que se tem de uma das janelas dos corredores do Hotel Infante de Sagres


Há sonhos que nascem pequeninos.
Eu e o Tiago partilhámos um sonho, certa vez. Fazer cinema. Há anos que dividíamos esta ambição.
Procurei a história em tantas das minhas histórias.
Nas minhas caixas de textos inacabados repousam personagens que ficaram só pelo perfil.
Nas minhas caixas de textos inacabados repousam inícios de argumentos que não foram fortes para me guiar as mãos pela estrada da escrita.
Fui erguendo peças, enchendo salas, desfiando histórias de mulheres que vou beber às minhas mulheres da minha vida.
Mas o sonho, meu e do Tiago, estava lá. Esteve sempre lá. A incubar.
Certa tarde pus um disco do Kheit Jarrett a tocar.
E dos meus dedos saíu o genérico.
E da minha alma saíram as duas mulheres de "Porto".
O sonho, que esteve tanto tempo adormecido, acordou.
E demos, hoje, o primeiro passo importante. No Hotel Infante Sagres.
Quando saímos, as folhas caíam das árvores e eu caí-lhe nos braços.
"Conseguimos. A partir de agora não há volta atrás."
Foi uma espécie de promessa que fizemos ali à porta daquele que será talvez o cenário mais emblemático do nosso filme.
Sim, porque desta vez, nós vamos fazer um filme.

Obrigada, Tio Quim, pelas vezes que me lá levou para brincar nos corredores. Por me ter ajudado a descobrir um dos Hoteis mais bonitos onde já estive.

20/10/10

black


já li 3 livros, escrevi uma curta,
comecei 2 peças,
enchi 2 cadernos de capa preta com o que sonho de noite,
iniciei um romace,
mas
continuo incessantemente à procura, nos meus dias, destas cores.

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