30/11/10

Barbies



está, no shopping "cidade do porto" uma exposição de Barbies "fashion".
ontem, no shopping "cidade do porto", estavam meia dúzia de meninas pequenas, de olhos brilhantes e gulosos, com o narizinho colado ao vidro.
e estava eu, a babar-me às escondias, com vontade de as roubar
para as por todas no meu quarto, junto com as que já tenho.
up's.

poema para todas as amigas

quando for menos jovem
quero ir no inverno para o Vidago Palace Hotel
com as minhas amigas menos jovens
levar um robe quentinho
e ir com ele tomar o pequeno-almoço
e ainda de chinelinho e turbante na cabeça
e rir muito como se ainda fôssemos miúdas.
e aperaltar-nos à tardinha para um jantar gourmet
à luz das velas
com perdiz gratinada e chocolate à vontade
porque naquela idade
queremos cá saber se engordamos ou não.
"Tens que ter os pés bem assentes na terra." - Diziam-lhe, frequentemente.
Mas, como quase sempre na sua vida, quando se via perante uma situação séria para resolver, dedicava-se a coisas sem qualquer interesse, "estupidezes", pensava ela.
E desatava a pintar, a colar, a cortar e a desenhar.
Para enganar o cérebro? Para fintar a razão?
Certo é que aquelas épocas de desbunda e alarvidade criativas
davam frrutos, passado uns tempos.
E ela dizia, orgulhosa:
"Estás a ver? Eu tenho os pés assentes na terra e ainda por cima consigo criar coisas".

dois





ainda hei-de ter uns!

26/11/10

amar de maneira esquisita

Tinham a mania de tirar retratos com coisas na cara.
A brincadeira saiu-lhes cara pois, como nunca tiveram filhos, acabaram por cair no esquecimento.
Ele morreu primeiro do que ela.
Ela morreu uns anos depois dele.
Foram enterrados em sítios distintos.
E na lápide de cada um podia ler-se:
“marido (do casal sem rosto)”
“mulher (do casal sem rosto)”
Muitos correram ao cemitério para fotografar aquela bizarrice. Fizeram-se filas e houve até quem tivesse levado farnel.
Os artistas pintaram-nos, escreveram-nos e musicaram-nos.
E passou a ser moda fazer lápides sem nomes. Fotografias sem rostos.
E passou a ser possível amar de maneira esquisita.

rir é o melhor remédio

(fot. Tim Walker)

De tanto chorar cresceram-lhe as pestanas e fecharam-se-lhe os olhos com o peso delas.
Foi assim que deixou de chorar.
Foi assim que começou a rir.

"Et maintenant"

"Tu m'as laissé la terre entière
Mais la terre sans toi c'est petit"

Gilbert Bécaud

decisões importantes que tomei hoje

Quando for velha vou usar um anel lindo no mindinho; todas as senhoras velhas que tenho visto e que têm “pinta”, usam um anel lindo no mindinho.
Quando for grande quero transmitir o meu conhecimento da prática da encenação teatral a quem me quiser ouvir.
Quero fazer um filme, escrever um livro e não deixar morrer as plantas.
Quero que as minhas gatas só morram comigo.
Quero fazer um casaquinho de malha e umas caneleiras, em lã, já este fim-de-semana.
Quero emagrecer mais 2 kilos.
Quero que nunca mais, nenhuma das minhas mulheres, tenha de rapar o cabelo.
Acham que posso pedir isto a Deus?

"garota de ipanema"

Quem sabe ela não seria assim se em miúda as coisas não lhe tivessem acontecido daquela maneira.
A música entrara-lhe na vida pela porta da frente, sem lhe dar qualquer hipótese de recusar a entrada, mesmo que fosse educadamente.
Entrara e conservara-se na sua vida como uma planta de raiz profunda e imortal.
E penetrara, de facto, em todas as profundezas físicas e emocionais do seu ser, sem dó nem piedade.
Na altura, a música já era grande. E ela era muito pequena. Portanto, a música era muito maior do que ela. Envolvia-a frequentemente num estado de letargia que lhe provocava um prazer transcendental e, na época, assustador.
Consumira tudo. As Melodias de Sempre dos anos 30 da música Portuguesa, o jazz que lhe chegava às mãos em discos pesados e importados, com capas brilhantes, os sons rock-sinfónico, os grupos de rock pesado, os musicais que já corriam mundo e os eternos temas que ainda hoje tocam nas rádios e nos corações de todos: Gilbert O’Sullivan, Nilsson, Shirley Bassey, Petula Clark, Barry White, Camel, Spartacus Triunwirat e por aí fora, um rol sem fim de long-plays e 5 rotações.
Mas a música possuíra-a de facto e nela gerara o filho que nunca lhe saiu do corpo quando um dia pegou num disco do António Carlos Jobim e do Stan Getz e pousou, delicadamente, a agulha na superfície brilhante do longa duração. A 1ª música.
E aos seus ouvidos soaram os primeiros acordes de um estilo que até aí nunca tinha escutado.
A guitarra gingou, a voz masculina entrou, madura e doce, e ecoaram as primeiras palavras, materializadas num sotaque cheio de bossa e calor

“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça
É ela, menina que vem e que passa
Num doce balanço a caminho do mar…”

A criança pequena apanhou um murro no estômago.
E depois sentiu um calor cheio de arrepios a subir-lhe, pelos pezinhos pequenos, até à ponta dos cabelos.
E depois começou a chorar.
Sem perceber muito bem porquê.
Apenas percebendo que aquilo que acabara de sentir tinha que ser especial. E foi.
Porque, grávida daquele som, carregou essa música e tantas outras, desse estilo, no ventre, até aos dias de hoje.
E ainda hoje guarda esses filhos no ventre como sendo eternamente seus.

21/11/10

as marés traziam coisas, haviam-lhe dito.
talvez por isso ela esperasse, todas as tardes, junto à praia.
esperava até que a água arrefecesse, até o frio lhe penetrar os ossos e lhe adormecer as pernas.
tinha ouvido que as pessoas falavam com as plantas.
da mesma maneira, ela fazia-o com o mar.
e fazia-o até que a água arrefecesse, até o fio lhe secar a garganta e lhe adormecer as palavras.
era uma rapariga confiante. sabia-o desde criança.
confiava nas pessoas, nos dias felizes
e acreditava com todas as forças do seu ser
que aquele mar um dia lhe traria a mensagem que ela queria ouvir.

just the way you are


I never take anything for granted

Only a fool maybe takes things for granted
Just because it's here today, it can be gone tomorrow
And i guess that's why
Why i "chewd" you so much because you
You haven't changed
Baby you're still the same
You're just as sweet, you're just as beautiful as ever
You know i'm a little old-fashioned
I guees you can call me a little traditional because
I love things
To stay like they are between you and me
And that's one thing that you never in your life
Will ever have to worry about me
I'll ever changer to oust you because,
Baby i love you
Girl, i love you
Just the way you are
Don't go changing, trying to please me
You never let me down before
I don't imagine you're too familiar
And I don't see you anymore
I wouldn't leave you in times of trouble
We never could have come this far
I took the good times, I'll take the bad times
I'll take you just the way you are
on't go trying some new fashion
Don't change the color of your hair
You always have my unspoken passion
Although I might not seem to care
I don't want clever conversation
don't want to work that hard
I just want some someone to talk to
I want you just the way you are.
I need to know that you will always be
The same old someone that I knew
What will it take till you believe in me
The way that I believe in you.
I said I love you and that's forever
And this I promise from my heart
I could not love you any better
I love you just the way you are.

20/11/10

19/11/10

Be-Dom (ou a arte da entrega)

Chamar-lhes-ia, antes de tudo, “amigos” e só depois “ musicais”.

Os Be-dom encheram ontem, para gáudio de uma grande massa de gente, o Fórum Cultural de Ermesinde, para mais um espectáculo integrado no 13º MIT - Mostra Internacional de Valongo, organizado pelo EntreTanto Teatro e a Câmara Municipal de Valongo.
Ora eu sou suspeita para falar deles; além de tia e amiga, sinto-me uma espécie de “mãe pequenina”, já que os Be-Dom nasceram de uma produção, em 2000, do Palavras Loucas Orelhas Moucas; espectáculo de rua com música, teatro e dança com a designação“Be”.
Depois disso nunca mais pararam. E ainda bem que não pararam. E todos nós queremos que eles não parem nunca.
O percurso dos Be-Dom é cheio de trabalho árduo e sacrifício mas, porém, muito sucesso.
Já muitos falaram deles e agora chegou a minha vez; mas quero fazê-lo à minha maneira.
Tenho o coração apertado, desde ontem, porque  nele mal cabem o orgulho, a emoção e o encanto que senti por ver aqueles 6 sobrinhos/amigos, com vidas tão distintas e profissões tão díspares, porém, com uma paixão comum, que é maior do que o imenso e maravilhoso pano de fundo do espectáculo: estarem juntos a fazer aquilo que mais gostam.
E aquilo que mais gostam de fazer é: ser Be-Dom’s.
Porque ser um Be-Dom não é só ser músico ou actor. É ser amigo e companheiro. É levar para o palco e para os ensaios uma vontade e uma realização que se materializam, depois, nos diversos números que vão desfiando, nos espectáculos.
Porque está tudo lá, nos espectáculos:
está a perseverança, uma inocência mágica que não se perdeu, o empenho, as longas noites de trabalho, as gargalhadas em contratempo, o surf em terras distantes, os ritmos constantemente aludidos, os aniversários e as férias, as conversas e as sms’s, a comida vegetariana e os trocadilhos entre todos,
está a amizade que perdura há anos e que aparece, sob a forma de acordes, nos temas musicais,
está a cumplicidade que flui por entre cortinas de luzes e a parafernália do material de cena;
está também a “máquina” familiar que cose, opina, vibra e trabalha arduamente com eles.
Os Be-Dom, ontem, mostraram-nos que se pode fazer arte porque se ama, só.
E, de uma forma descontraída e humilde mas sobretudo muito profissional, entregaram-se à sua arte, lavaram-nos a alma e deram-nos música.
No coração.
 

(Crítica do espectáculo dos Be-Dom por ocasião da sua participação no Festival Fringe, em Edimburgo, Agosto de 2010).
http://www.theskinny.co.uk/article/100263-be-dom-udderbellys-pasture

scut's, arrumadores e nervoso miudinho

Dois infortúnios deparam-se-me diariamente e são particularmente parecidos: estão onde menos espero, querem mesmo é extorquir-me dinheiro e quando os vejo abro o rosário dos palavrões especiais que são ditos em silêncio.

Ora bem, acordo e passada uma hora já estou a gastar dinheiro; feitas as contas, é assim:
Saio de casa, ando uns Km’s e tunga, pago os primeiros cêntimos do dia, na portagem. 30.
Ando mais uns metros e tenho duas hipóteses:
Se for pela direita, arrisco-me a enfrentar uma fila de km’s, graças aos pintarolas que têm a mania que são Fangios e se enfiam descaradamente à frente de todos aqueles que querem cumprir as regras do trânsito; ora, as guinadas perpetradas por tais criaturas contribuem para que as filas intermináveis de estendam, às vezes, mais do que se revelaria necessário; se for por esta via, gasto, portanto, mais gasóleo por causa da fila pára-arranca e gasto nervos, pois vou coladinha ao carro da frente, a controlar aos azeitonas de carros comerciais que querem comer-me por lorpa e espreitam qualquer nesga para se enfiarem, com o corpo todo de lado e os óculos comprados nas áreas de serviço literalmente colados aos olhos.
Se for pela esquerda, avizinha-se-me uma via ampla, quase sem trânsito. Convidativa, claro, mas e porquê? Porque tem nada mais nada menos que 2 pórticos até Matosinhos. Feitas as contas: 30 cêntimos de portagem, 25 cêntimos da scut e mais 25 cêntimos da mesma scut, um bocadichinho mais à frente.
Somando tudo, temos então:
Direita (Fila pára-arranca e azeiteiros) = 30 cêntimos + nervos em franja + gasóleo extra.
Esquerda (via rápida com scut) = 30 + 25 + 25 cêntimos.
Finalmente, quando chego ao trabalho, chateada por causa desta escolha que tenho de fazer diariamente, ainda me aparecem os arrumadores ganzados com a mania que eu não sei estacionar e se põem, no meio da rua, a debitar um vocabulário que a mim me faz alguma comichão:
“Benha, benha, benha, destroça! Ánde, ande, benha, bire tudo, bire tudo. Oupa. Tábom tábom”.
Saio do carro com ar de pouquíssimos amigos e lanço-lhes o meu olhar mais desprezível.
Hoje um arrumador com rabo-de-cavalo disse-me com uma pronúncia inarrável:
- Oriente-me aí uma moedinha…
Nem respondi; fechei o carro e pus-me ao caminho.
- És feia! – Atirou-me ele, de longe.
Fiquei furiosa.
Pago portagens, scuts, enfrento gringos azeitolas, filas e arrumadores inconvenientes e ainda por cima de chamam feia!

chuva

Já vi várias formas de chuva.
Já apanhei muita chuva e praguejei.
Já tomei um banho de mar de água morna com chuva e relâmpagos e, embora estivesse assustada, adorei.
Já vi chover atrás de um vidro e vi gotas a chorar a janela.
Já vi chover beijos e maldições.
Já senti, na pele, a chuva de um dia feliz e a chuva de um dia amargurado.
Já vi chover palmas, presentes e gente.
Já chorei com o beijo à chuva, da Audrey Hepburn e do George Peppard.
Já vi chuva furiosa, “molha-tolos” e miudinha.
Mas há pouco vi folhas, a chover das árvores a dançar com o vento numa oscilação bem ensaiada.
E fiquei com o coração apertado de puro deleite e dos olhos choveram-me palavras.

18/11/10

Quando Deus fecha uma porta, abre sempre uma janela.

17/11/10

O olhar da “familiaridade”

É porventura o olhar maior de todos.
Deixa-nos ver através dos olhos e em uníssono com o coração.
É um olhar com raízes, com camadas ininterruptas de coisas.
É a segunda camada dos nossos olhos.
Traz-nos à boca o sabor de outra boca,
Faz-nos perdurar gestos, manias, intenções.
É um olhar serenamente instalado: de sabedoria e ciência. De outro olhar.
E, porque se instalou, permite-nos “ver” mesmo de costas e permite-nos ver mesmo quando não “vemos”.
O olhar da familiaridade é um olhar atento, com laivos de amor e vestígios duradouros de amizade, verdade, entendimento, cumplicidade e respeito.
É o todo num momento. É uma escrita ávida cuja história já se encontra escrita.
É um universo de 360 graus de palavras, sons, viagens, champanhe, Primavera, silêncio, estrelas e flores.
É um alongamento da alma e aquece-nos os pés.
É uma ruga porque marca e é uma lágrima porque nos escorre dos olhos.
É vivo porque tem ligação directa ao coração; é cego porque o vemos de olhos fechados.
É um riso de anos; é maduro, recto, intemporal.
É um olhar que se vê entre mil e é um olhar que adivinha, pressente e invade.
Nunca tinha conseguido descrever assim, este olhar, como hoje o senti.
Mas repito, é porventura o olhar maior.
E o meu maior olhar.

um

Dada a minha "paranóia" por sapatos, decidi criar um "tag" para lá por as obras de arte que se vão deparando no meu caminho. escusado será dizer "quem me dera ter os sapatos que tem a sempre nossa Carrie Bradshaw ..
Milan_Fashion_Week_Spring_2010_Versace
 
e não é que a Marilyn também tinha caderninhos de capa preta?

Excerpted from Fragments: Poems, Intimate Notes, Letters by Marilyn Monroe, edited by Stanley Buchthal and Bernard Comment, to be published October 12th by Farrar, Straus and Giroux, LLC (US), HarperCollins (Canada and UK); © 2010 by LSAS International, Inc.

16/11/10

 
 
 
 
 
decididamente, eu devia ter vivido nos 50's.
pela roupa, sapatos e make-up.

15/11/10

apetecia-me voltar uns anos atrás, mais ou menos vinte anos.
nessa época eu tinha coragem de curtar o cabelo curto,
usar xailes indescritítveis e sapatos de autor.
não sei o que me aconteceu entretanto,
mas perdi a coragem de cortar o cabelo
descobri que dei todos os meus xailes
e sapatos de autor, nem vê-los.
será isto o crescer?
ou será antes
o (de)crescer?

13/11/10

dream a litlle dream of me

estou a retomá-los.
um de cada vez.
porque nunca sonhei pequeno;
e às vezes, os meus sonhos,
são maiores que eu.

espelho meu, espelho meu

disse-me: ainda não.
e eu, encolhida, cedi.
disse-me: certas coisas levam tempo.
quis fugir ou transformar-me em vento
para adejar-me de rosto em rosto
à procura de um rosto parecido com este meu, de desencanto, para me sentir acompanhada.
eu, que me tinha visto já ao espelho
e devolvera-me, esse meu espelho, o reflexo
de uma menina crescida
sem medo sem freio sem erro.
zanguei-me com ela. zanguei-me com o espelho.
mas dormi sobre o assunto e de manhã já tinha feito as pazes.
comigo.  

let it be

Certos dias, agarro-os com uma garra desgarrada.
Outros há, que não. Deixo-os ir.
E perduro: pacífica, pequena e pachorrenta
A vê-los ir, velozes contra o vento.

true colors


Acordo sempre com uma “cor”.
Gosto de acordar azul. Em tons mornos. Avermelhados ou laranja.
Não gosto de acordar a preto e branco.
Se o faço é mau sinal.
É então quando pinto os lábios de vermelho
e passo o dia a fingir que sou uma rapariga/palete de cores vivas e variadas
que se passeia pelas horas ondulante como um pincel.

07/11/10

05/11/10

"Pollock & Glee"

- É do Pollock. Um dos meus preferidos.
- Ha-ha.
- Sabes o que é que ele dizia a respeito da pintura?
- Não…
- “Quando estou dentro da minha pintura, não sei o que estou a fazer. Somente após o período em que de certa forma ‘travo conhecimento’ é que vejo sobre o que é a pintura. Não tenho medo de fazer alterações, destruir a imagem, etc, porque a pintura tem a sua própria vida. Eu tento que ela surja por si própria.
Só quando perco o contacto com a pintura o resultado é uma confusão. De outra forma é pura harmonia, é dar e receber com facilidade; a pintura nasce naturalmente” .
- Decoraste isso tudo assim?
- Sim. Li tantas vezes que acabei por decorar.
- E porque leste tantas vezes?
- Porque queria perceber o sentido da pintura dele. De onde vinha. Tenho um livro em casa que fala disso. Posso mostrar-to. E tenho, numa colectânea de pintura, um breve resumo da obra dele. Queres ver?
- Sim. Mas também queria ver o “Glee”.
- Podes ver o “Glee” e depois vês o filme.
- Ok.




"as cadeiras estão sentadas"


As cadeiras serviam-lhe como fatos de saia e casaco.

E serviam-lhe para tudo.
Para se esconder, para subir a um armário alto.
Para se debruçar nelas enquanto ouvia uma conversa, para fazer “cu-cu” a um bebé.
Já escrevera um conto de amor sobre cadeiras.
Já fizera não sei quantas peças de teatro em que a cadeira era “o” elemento cénico primordial.
Já cenografara cadeiras e até já as pontapeara.
Já se zangara vezes sem conta com a cor delas, as da sua sala.
Mas as cadeiras continuavam, pela vida fora, a servir-lhe para quase tudo.
Já lhes atribuíra uma vida própria e imaginara, vezes sem conta, o Sr. Bordalo sentado nelas, imponente, a comer as iguarias Portuguesas que a família que mandava pelo transatlântico.
Ainda lhe serviam para descansar e para jogar cartas.
Para comer, sozinha na sala, enquanto ouvia as noticias.
Para a terapia, para as jogatinas até às tantas, para as consoadas cheias de gente.
Também lhe serviam para pendurar roupa. E para ter conversas importantes.
Ela gostava substancialmente de cadeiras. E de imagens com cadeiras.
Gostava de cadeiras vintage, de cadeiras de madeira já velhotas e cadeiras com design arrojado.
Mas a cadeira que ela gostava mais era aquela que sabia que um dia lhe seria estendida para ela se sentar ao lado de alguém. Para sempre.

04/11/10

"No, nothing I ever do is good enough. Not beautiful enough, it's not funny enough, it's not deep enough, it's not anything enough.
Now, when I see a rose, that's perfect. I mean, that's perfect.
I want to look up to God and say, "How the hell did you do that? And why the hell can't I do that?"

03/11/10

arruma-me que eu gosto

Tenho a casa estupidamente arrumada. Estupidamente, mesmo.
Cheguei ao ponto de ter a roupa arrumada por cores, nas gavetas: a gaveta dos “pretos”, a gaveta dos “verdes”, a dos “castanhos” e por aí além.
Depois há a gaveta dos soutiens: um carrossel de cores e géneros: os soutiens velhos e rafados, os soutiens mais ou menos apresentáveis e os soutiens “Tchanan!!!”.
Logo a seguir, bem lampeiras, chegam as calcinhas; aqui é um verdadeiro frenesi: as calcinhas velhotas, as dos lacinhos ao lado, as dos dias difíceis, as pretas e as brancas, as pequeninas e as moderadas, as indescritíveis e as incontáveis;
Depois passamos aos lenços. Também dispostos, em igual tamanho, por cores.
Depois o calçado; as caixas dos sapatos e botas com post-its que facilmente os identificam.
Depois as pulseiras; as pulseiras de elástico separadas das de massa e das de madeira; as da fase “Pucca” e as da fase “Carrie”.
Depois, em cestinhas riquinhas: as meias, os collantes, as leggings.
Na cozinha? Pfff. Tanta arrumação até enjoa.
Papeis? Um alinho desmesurado.
Casas de banho? Sabonetes a condizer com as toalhas. (a próxima vez que for às compras comprarei papel higiénico da mesma cor.)
As minhas gatas passeiam-se lambuzadamente pela ordem ordenada da minha casa de cara lavada.
Às vezes ficam com ar de parvas a olhar para tudo.
Não estão habituadas a tanta organização. Nem eu!
Um dia destes precisei muito de desarrumar. Alguma coisa.
Para a seguir arrumar.
E ter a certeza que não mais na minha vida deixarei o que quer que seja ao acaso.

02/11/10

almost

às vezes acho que estou quase a chegar lá...

the big deal

ao acordar hoje
o problema maior que tinha na cabeça para resolver era
"quais os sapatos que vou usar".

01/11/10

"dream a little dream of me"

Todas as semanas levava uma flor ao marido. Uma flor diferente.


Certo é que comprava uma dúzia de flores, à entrada, na banca da D. Zulmira.
Depois de colocar a flor no pequeno solitário de vidro fosco, detinha¬-se a olhar à sua volta.
O abandono estendia-se além do que lhe era permitido ver. A falta de cor e o silêncio amarguravam-lhe os olhos e calavam-lhe as preces.
Daí que tinha decidido, muitos anos antes, que à volta dele, do seu marido, ela queria flores. Queria cor. Não o queria ali, naquele sítio sozinho, sem flores.
É que ele gostava de flores. E a casa deles sempre tivera flores. Na sala, na cozinha, no quarto.
Foi então que decidiu, certo dia, passar a comprar uma dúzia de flores.
Pouparia noutra coisa, pensou na altura.
E passou, a partir desse dia, a colocar a flor na campa dele e espalhar as restantes, nas campas circundantes.
Quando olhou à sua volta o cenário pareceu-lhe diferente.
As flores emprestavam vida ao mármore silencioso e o branco alvo ficava mais alegre.
E a flor, aquela flor que ela colocava todos os dias na campa do marido, era uma extensão das suas mãos, que ela acreditava furarem a terra para encontrar as mãos dele.

(depois de ver na televisão, a respeito do 1 de Novembro, uma reportagem de uma senhora que enfeitava a campa do marido e as circundantes)

"listen to the music"

apanhar a roupa a ouvir "There's a kind of hush"
fazer a sopa a ouvir "Eu só quero"
arrumar o quarto com "explode coração"
e o Adamo a cantar enquanto tiro nódoas de uma camisola branca
a pentear as gatas com Gilbert O'Sullivan
e o "you're so vain" enquanto tomo o café e o cigarro.
quem me disse foi a minha irmã.
"sabes que agora quando estou em casa só ouço o 105.8"?
pois é.
eu experimentei hoje e o meu domingo teve uma banda sonora diferente.
rádio clube de valongo. relíquias non-stop.
canto sozinha sem vergonha, canto alto e as gatas vão-me seguindo de divisão em divisão.
só não cantam porque não podem.
quem diria que valongo tem, afinal, alguma coisa de jeito?

se já escrevi a história da "cinderella" para os outros porque é que não a consigo escrever para mim?

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