25/01/11

aquele bocadinho que era só seu

Phot.Pedro Tudela  /  30 Dezembro 2010

Alugou aquela casa por causa da ombreira da porta para o quarto e fez questão de manter aquele bocadinho de papel de outros tempos que parecia respirar passado, através da cor,
ainda que o resto da casa tivesse um rosto lavado e contemporâneo.
E sim, o resto da casa era tão reparada que houve até quem lhe dissesse “a tua casa merecia estar numa revista” e muita gente também quedava-se ao pé daquela ombreira e ficava com um ar estarrecido
e os mais íntimos até lhe tinham dito “bolas, quando é que tu mandas deitar isso abaixo”?
Ela disponibilizara-se a explicar, pelo menos a esses, a razão que a levara a deixar ficar ali aquele bocado de papel e de madeira que, juntos, lhe traziam a infância e a memória das casas que povoaram a sua juventude mas ainda assim as pessoas não entenderam.
E sentiu-se ligeiramente afectada com a agudeza das tantas palavras proferidas àquele seu bocadinho
porque ele era, em conjunto com tantas outras coisas, a materialização da saudade de outros tempos
e da felicidade, consumada, de uma vida cheia de reminiscências e sentidos.
Talvez por isso nunca tenha saído daquele espaço.
Enriqueceu, viveu anos gloriosos e conheceu o mundo.
Amou derradeiramente e foi amada como poucas.
Re-decorou a casa dezenas de vezes mas nunca deixou que ninguém tocasse naquele seu bocadinho.
E um dia, quando se permitiu parar para envelhecer, sentou-se numa cadeira de baloiço,
defronte para a sua parede e deixou-se ficar ali, invernos após verão,
a sumir-se em sintonia com a vida daquele papel.
E morreu, feliz, quando o verde desapareceu das pétalas das flores.
E quando no seu coração já não cabia mais nada.

6 comentários:

Graça Pires disse...

Verdadeiramente fabuloso este texto, Laura! Há pormenores assim que se nos abrigam no coração...
Um beijo.

Anónimo disse...

lindo :)
gu

Teresa disse...

Escrevo para ti de agora em diante. :) Ia acabar com ele mas... continuo. Um beijinho e obrigada *

Foxy Ni** disse...

que lindo Laura :)

Mar Arável disse...

Texto saboroso em torno de um pó
que tantas vezes é a razão de ser
dos belos desertos povoados de sonhos

Anónimo disse...

Gosto, gosto, gosto!
beijos
marisa

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