15/10/11

embraceable you

Fazia-o desde miúda. Dançava sozinha. Isto porque lhe tinham dito “se não tiveres ninguém com quem dançar não quer dizer que não dances, podes sempre dançar sozinha”. E assim foi. Desde miúda que o fazia. Dançava sozinha. Vestia-se para dançar sozinha. Pintava-se para dançar sozinha. A preparação do ritual ia ficando mais rebuscada à medida que o tempo passava. Porque ela ficava mais exigente à medida que o tempo passava. À medida que dançava. Sozinha.

E preparava-se cada vez mais. Pintura, cabelo, roupa, sapatos. Enquadramento, décor, luz na sala, até musica. Perdia muito tempo a escolher a música. É que a musica tinha que combinar com tudo o resto. Com a pintura. E o cabelo. E a roupa. E os sapatos.
Tivera já oportunidades de dançar acompanhada. Muitas. Mas o impulso de um primeiro momento, a vontade de partilha de uma actividade que para ela era semelhante ao acto de tomar banho ou pagar as contas no multibanco, esmorecia assim que pensava no iminente encontro, assim que antecipava a figura, a roupa, o cabelo, os sapatos, a música. Habituara-se demais a fazê-lo sozinha. Habituara-se demais a partilhar esse prazer consigo. A ver a figura à meia-luz, no espelho da sala, a rir de si própria, quando os pés resvalavam ou o inglês lhe fugia da boca. Habituara-se demais àquele momento tão seu, tão íntimo, tão insólito.
Ultimamente rendia-se aos acordes de John Coltrane.. À lassidão de Melody Gardot. Ao copo que nunca ficava vazio, de Tom Waits. Ao nervosismo do Sweetest Embrace de Nick Cave e ao arrepio eterno de Sinatra.
E dançava. Sozinha. Com um copo de vinho na mão. Como se dançasse com alguém que amasse acima de qualquer coisa. Com o corpo a responder a um corpo que não existia, a sentir no pescoço a respiração de alguém que não estava, a sentir nas costas os dedos de uma mão que tantas vezes quis conhecer.
E a boca abria-se num meio sorriso lânguido de vinho, os olhos estreitavam-se, as palavras em inglês saíam-lhe roucas da boca entreaberta e ela dançava. Dançava. Sozinha.
Até ao dia em que dançaria com alguém.

4 comentários:

Luis Eme disse...

fatalmente, haverá alguém que lhe pega na mão e a fará "voar" na pista de dança. :)

(as miúdas são tão diferentes de nós rapazes. a minha filha, com os sete anos, adora desfilar por casa, com os sapatos e sandálias de tacão alto da mãe...)

Laura Ferreira disse...

Podes crer, Luís. As raparigas têm um não sei quê de especial. Por isso eu gosto tanto de escrever sobre e para elas. :)

Alexandre Azevedo Pinto disse...

...bonito Lau.

Laura Ferreira disse...

Obrigada, Xano. Gosto de te "ver" por aqui.

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