21/12/11

Cresci com o cinema na minha vida.


Cresci com o cinema na minha vida.
Com revistas e filmes na televisão. Postais e historias dos mais velhos.
Com as músicas que a minha mãe cantava e as musicas que o meu pai tocava nos cartuchos.
Com o glamour das estrelas de cinema a despertar-me precocemente, afinando o sentido estético de tudo na minha vida, desde as paredes da minha casa ao risco preto que ainda hoje faço nos olhos.
Cresci com musicais, canções imortais, vestidos esvoaçantes e coreografias da Broadway.
Lembro-me de ser muito miúda e de querer ter o cabelo como a Gilda.
Um vestido como o da Marylin e um corpete como a Jane Russell.
A tez branca da Jean Harlow e a elegância da Audrey Hepburn.
Os vestidos da Scarlett o’Hara. O corpo da Cyd Charisse e a irreverencia da Natalie Wood.
E fumava palitos para imitar a Lauren Bacall e cantava para espanadores do pó para imitar a Maria da “Música no Coração”.
E deitava-me na alcatifa do chão da sala e imaginava conversas com o Warren Beatty.
E via-me dentro do Vertigo ou a fugir dos Pássaros e via-me dentro de um filme noir a fugir da sombra de um assassino.
E beijava apaixonadamente as paredes à procura da boca do Cary Grant e do Montgomery Clift.
E via-me agarrada à cintura do Charlton Heston numa corrida desenfreada ou debaixo do guarda-chuva do Gene Kelly.
Ainda hoje forro as paredes do meu quarto com a beleza desses tempos e me emociono sempre que vejo um desses filmes.
Já não ponho toalhas na cabeça para fazer de conta que tenho o cabelo comprido ou fumo palitos a imaginar que são cigarros.
Mas, muitas vezes, me imagino a correr na erva verde de uma montanha da Áustria e, ao olhar para o espelho, levanto a sobrancelha como fazia a Vivien Leigh.
Cresci com o cinema na minha vida.
E tenho, na privacidade da minha vida, um bocadinho de todas estas mulheres.



4 comentários:

Luis Eme disse...

pois tens, Laura. :)

é giro que também cresci com o cinema, mas numa outra dimensão, mais envolvido com as histórias e os lugares, sem me preocupar com imitações.

se bem que fosse impossível não imitar o jeito rebelde por exemplo do Steve McQueen ou a cara de mau do Bogart.

Luis Eme disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mar Arável disse...

Tudo pelo melhor

neste Inverno descontente
Quanto ao seu texto partilhado
ainda bem que vive apaixonadada
por memórias vivas

Alexandre Azevedo Pinto disse...

Muito bom.

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