22/12/11

blue note


Fechou os olhos e transportou-se para o Theater District.

Fim de tarde, frio de quase neve.
O trânsito em Nova Iorque, àquela hora, e as filas de carros e táxis amarelos assemelhavam-se a longos formigueiros.
Nos passeios acotovelavam-se turistas, mulheres elegantes, homens apressados, adolescentes agasalhados e velhotas curvadas.
A cidade parecia ter despertado outra vez de um sono profundo e fervilhava em cada esquina, rua, entrada de prédio, semáforo.
Absorveu os ruídos: buzinas, vozes com e sem sotaque, as várias línguas, tosses, os saltos dos sapatos nas calçadas, pigarrear, fungar, o ronco do metro debaixo dos pés, cantigas e beijos na boca.
Deteve-se nas imagens: néons, publicidade, gorros, fumo a sair do chão, mãos enluvadas, os prédios colossais, as decorações de Natal, as cabeças dos turistas a olhar de espanto, milhares de pessoas que se cruzavam na cidade que não dorme nunca, flashes de fotografias, fumo de cigarro.
Apertou as mãos nos bolsos e inspirou o cheiro dela, de Nova Iorque: o perfume caro das mulheres, o cheiro de pobreza de algumas pessoas, o escape dos automóveis e as lojas de conveniência, o café do Starbucks, o cheiro entranhado de arte, música, teatro, cinema, fama, o cheiro de uma mulher madura, vivida.
Voltou a abrir os olhos e viu-se no Porto, na sala da sua casa.
Na cara a marca de uma lágrima negra de eye-liner que lambeu a face enquanto a memória dela viajou até Nova Iorque para se abastecer de reminiscências a fim de conseguir sobreviver enquanto lá não voltasse.




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