22/12/11

my funny valentine


phot. by Pedro Tudela at  http://instagrid.me/pedrotudela/


Esperou por ela todos os dias. Enquanto esperava o copo enchia-se e esvaziava-se.
Ele assemelhava esses dois estados aos estados da esperança que lhe residia no peito.
Havia dias em que a esperança corria como a bebida.
E ele, engalanado, sentava-se na mesa junto ao contrabaixista porque era a mesa que tinha a melhor vista da entrada.
E ele queria vê-la entrar uma vez mais, nem que fosse a ultima vez.
Quando ela entrava alguma coisa saía dele e de todas as outras pessoas; era como se a presença dela arrancasse de todos – animais, humanos, plantas e coisas inanimadas – tudo o que eles tinham de melhor: cor, alma, memórias, brilho, história.
Esperou por ela todos os dias. Enquanto esperava o copo enchia-se e esvaziava-se.
Nos dias em que lhe faltava a esperança secava a garganta e os olhos numa mesa do meio do bar, de costas voltadas para a entrada. O piano corria triste, ao longe e ele, aturdido com a saudade e a angústia, sentia o coração a amarfanhar-se.
Andava assim. De mesa em mesa. De bebida em bebida. O coração a dilatar e a encolher.
Até que um dia chegou à última mesa.
E, engalanado, bebeu o último copo, tamborilou na mesa e pela última vez o choro contido do “My funny Valentine”, pagou a ultima conta, deu o ultimo suspiro por ela e saiu para a rua como se fosse a primeira vez, desde há muito tempo.

1 comentário:

ricardo alves / são paulo,brasil disse...

ótimo post!!!
bacana e suave este espaço!
namastê!

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