31/03/11

há livarias que ficam bem mais especiais só porque têm mulheres bonitas

há mulheres que, quando estão nas livrarias, têm um não sei quê de especial
seja na forma como pegam nos livros seja na forma como páram, a escolhê-los.
há mulheres que têm um ar solene quando estão em livrarias
seja pela importância que os livros têm para elas
seja pelo seu próprio ar que já é solene.
há mulheres que se serpenteiam pelas livrarias
se perfumam e se encontram
se esquecem e se conformam.
há mulheres, que nas livriarias encontram a companhia dos livros
seja nas palavras que eles contêm seja nas imagens que deles brotam, ao ser folheados.
há mulheres que se apaixonam em livrarias
que lancham e se abrigam da chuva
que escrevem sms's em posições elegantes
que namoram com livros só para não ficarem sós.
há mulheres, como eu, que adoram ir a livrarias só para olhar os livros
e sentir o seu pó, o rosto, o toque
o perfume do papel e as histórias a borbulhar por baixo das capas duras.
há mulheres que eu gosto de ver nas livrarias.
mulheres bonitas e elegantes saídas de capas de revistas
ou de filmes franceses.
mulheres literárias que como eu amam os livros.

há livarias que ficam bem mais especiais
só porque têm mulheres bonitas.
by Alberto Seveso

sou feita de qualquer coisa que se move mesmo quando estou parada
mudo de côr conforme os dias e mudo os dias conforme a côr
só não consegui ainda parar o tempo
mas já consigo
reter-me em determinado minuto
(como se de facto o tempo parasse e tudo à minha volta fosse câmara lenta
filme a preto e branco, polaroid)
e como me quedo nesse minuto...
como tudo à minha volta abranda e se suaviza
como se aquele minuto fosse feito de tecido ou nevoeiro
com a côr que eu quero que ele tenha
e com braços disformes e amigos
que me abraçam até ao ultimo centésimo
de tempo. e de mim.

Marton Perlaki

phot. Marton Perlaki

john sloan

by john sloan

gostava de experimentar em minha casa...

ceal warnants

by ceal warnants

30/03/11

pensei agora numa coisa que me fez estremecer.
a quem deixarei o meu blog, quando já for velhinha
e estiver preparada para morrer?

iac....

só para que conste: hoje mandei fazer os meus primeiros óculos progressivos.
óculos progressivos é coisa de avós com óculos na ponta do nariz.
pelo menos não mais farei figuretas no supermercado
a tentar ler a composição dos iogurtes,
acabando por ter de colocar a embalagem quase no chão para conseguir ler de cima;
poderei ler à noite na caminha no meu quarto com tecto de estrelas,
poderei ler pertinho as embalagens de comida que trazem instruções no verso
poderei ver as pontinhas do espigado no cabelo
poderei ler as bulas e as letras mais que miúdas
e poderei dizer que já vejo mal ao perto mas...ah pois é...tenho óculos progressivos.
não é particularmente interessante.
com isto dos óculos sinto que entrei definitivamente na idade adulta.

shall we dance?

quero dançar na minha sala
em cima de um banco
muito, tanto...

 
em cima da cama
sem música
quero dançar sem música
com a música do silêncio que me embala

 
quero dançar e dançar-me
até cair de cansaço
até ter decorado esta coreografia


 
e depois de ter dançado tudo
e ter aprendido a dançar sozinha
poderei esperar calma e serenamente
que um príncipe encantado me estenda a mão para dançar com ele.
e nesse momento
vou querer dançar acompanhada para o resto da minha vida.

(Phot. by Heidi Lender)
(Sya Groosman)

já gostei mais de dar nas vistas.
hoje em dia gosto de me confundir na multidão
e que me confundam.
já me senti muito sozinha mesmo quando estava entre muita gente.
hoje em dia sinto-me sempre acompanhada mesmo quando estou sozinha.
arrisco-me a dizer que hoje em dia
sou mesmo a minha mellhor companhia.

29/03/11

(peter lippmann)

houve tempos em que tive medo de perder as palavras.
aqui há uns anos achava que tinha facilidade em escrever quando estava triste.
mas agora não.
descobri que as palavras existem mesmo quando durmo ou pinto as unhas
e existem porque eu respiro ar e palavras.
houve tempos em que só escrevia quando estava triste.
mas agora não.
faço-o como um exercício para a mente.
faço-e num caderno gordo, como eu gosto,
à noite quando me sento para o serão.
faço-o enlevada pelo sono, por mais um dia em que cumpri todas as minhas obrigações
faço-o soxinha, serena e feliz.
(peter lippmann, amber gray)

cuidar dos sentidos e cuidar do corpo.
ler, ler este fantástico livro "está tudo na cabeça"
caminhar muito e comer pouco
e esperar com ansiedade a Páscoa
que me trará as minhas férias.

Tarik Mikou

 

28/03/11

phot. max wanger

sim, faz-me falta um companheiro.
para me ligar o DVD novo.

 
 
artist, mia cabana

tempo de descansar do teatro
mergulhar nos livros
na curta
e em mim.

McDermott and McGough

  
 
 

Alvaro Sanchez Montañes

phot.. peter lippmann

24/03/11

"11 personagens à procura de um encenador"


Autoria, encenação e selecção musical: Laura Ferreira
Assistência de Encenação: Elizabeth Trindade
Desenho e Operação de Som: Flávio Oliveira
Coreografias: Pés-de-Chumbo
Cenografia: João Paulo Pereira e Filipe Vicente
Desenho de luz: Flávio Oliveira / Luis Ribeiro
Operação de Luz: João Octávio
Figurinos: o grupo, com a participação de Isabel Ferreira
Maquilhagem: Paula Galante
 Design gráfico / fotografia: Flávio Oliveira
Produção: Grupo Dramático e Recreativo de Retorta (2011)

25 de março, forum cultural de ermesinde, 21h45.

23/03/11

(phot. amber gray)

às vezes sinto-me tão leve que até tenho medo de levantar voo...
phot. wang chien-yang

volta e meia apetece-me voltar à agua.
será porque de lá saí um dia.
mas sim, apetece-me.
voltar ao morno, ao silêncio, à protecção.

Federico Cabrera

 
gosto do velho e do novo
do pó e do imaculado
do gasto e do leve
do acastanhado do tempo
do tenro cinza que reluz
gosto do velho sábio
e do novo inexperiente.

22/03/11

Arian Behzadi

   
 


(lara fairie)

o rosto dela adquirira com o passar do tempo uma película fina e pegadiça
aos olhos dos outros invisível.
quando finalmente decidiu que arrancaria do rosto
a segunda pele
fê-lo com entusiasmo contido
com o ar solene dos grandes acontecimentos
mas fê-lo em definitivo
e jurou, com a membrana morta na sua mão,
que não mais precisaria de uma segunda epiderme 
e rejuvenescida
olhou-se no espelho e olhou-se nos olhos dos outros
e viu-se como se fosse a primeira vez.

voar

voar é coisa de bichos ou máquinas
mas eu voo em sonhos
em terra
no mar
e voo até parada de olhos fixos.
porque o importante é saber voar
mesmo não tendo asas.

Nick Gentry

 
 

21/03/11

chegou a primavera.
chegaram os cigarros fumados na varanda, antes de dormir.
os pesseios na foz, ao fim da tarde, entre surfistas e reformados,
as noites cálidas de pijama leve
as noites de sono a sonhar devagar
em que se adivinha um verão quente e feliz.
está marcada a viagem a itália
a minha peça está pronta a estrear
as minhas gatas ronronam entre os meus pés
a minha casa tem uma luz diferente
e todas as noites, quando me desmaquilho e me preparo,
vejo, no reflexo do espelho,
uma mulher feliz.

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