29/04/11

a bela adormecida

phot. Willy Vanderperre

gosto de acreditar que ainda vale a pena cair no chão
e lá ficar em pose melodramática
à espera que alguém com ar de filme nos levante.
é bom acreditar nestas coisas.
hoje estou assim por causa do casamento dos príncipes.
pronto, assumo. sou muito gaja nestas coisas.
e raios me partam se eu não gostava de os ter visto a sair da igreja
e atirar-lhes uma mão cheia de arroz!

LAURENCE DEMAISON

a rapariga que se esqueceu de se pintar

 e foi assim que algum tempo depois
encontrou o amor, imagine-se,
 quando bebia uma chávena de café
e não estava maquilhada
e foi bom saber
que mesmo sem pinturas ou roupas engraçadas
o amor chega mesmo quando tem de chegar.

SONIA ROY

27/04/11

David Vogin

 
das melhores coisas de morar sozinha:
podermos vestir o que nos apetece.

25/04/11

de volta ao Porto, depois de uns dias muito bem passados.
é muito bom estar junto.

19/04/11

sim, vou fazer uma mala pequena
pegar na Joana, na Beti e nos meus pais e rumar à praia da Falésia durante uns dias.
vou ter saudades da minha escrita.
mas guardarei as palavras nos dedos e na voz da minha cabeça
para que nada fique por dizer assim que voltar.

bunny mazhari

18/04/11

esta noite dei voltas e mais voltas
e quando acordei
tinha as imagens na minha cabeça a preto e branco.
metade de mim sim.
metade de mim não.

erika khun

15/04/11

era mesmo isso

é bom quando nos dizem "é pá, era mesmo isso que eu ia dizer."
não me dizem muito isso.
talvez porque eu passe a vida a antecipar coisas pela mania que tenho de pensar muito e observar e tal.
ainda por cima ando e ler nos intervalos do outro livro um livro que se chama "linguagem corporal" e  já dei comigo a estudar colegas e transeuntes e basicamente toda a gente que me aparece à frente.
é que eu leio, estudo e depois aplico. é uma grande chatice. às vezes sinto que perco a inocência do primeiro olhar, aquele que não vê logo tudo.
gostava muito que alguém um dia me dissesse muitas vezes "é pá, era mesmo isso que eu ia dizer."

e que me dissesse mesmo "és um bocado distraída ou é impressão minha?".
ela não era grande espingarda nas coisas de cozinha; a imaginação que empregava em tantas outras áreas da sua vida consumia-se rapidamente e quando chegava às lides culinárias era apenas uma sombra longínqua de uma vontade que por si só já não era muita.
de maneira que apreciava quase todas as pessoas que se mexiam bem na cozinha e às vezes encostava-se à banca a conversar e a aprender coisas tão básicas como preparar espargos para saltear ou demolhar feijão vermelho.
seria por isso que também gostava de cozinhas para fazer quase tudo: conversar, confessar, brincar, amar.
ele tinha um jeito particular para cozinhar. tinha queda, pensava ela, e tudo o que fazia era como se fosse uma obra única, com os pormenores minuciosamente observados e até com um certo charme na forma como manipulava os utensílios e lançava de longe os temperos.
não gostava de coisas básicas; um jantar era um jantar e tinha de ser com todos os matadores: entrada, prato, sobremesa. já ela procurava o mais simples e rápido de preferência que não sujasse muita louça e não implicasse medições.
em tempos contara-lhe a mãe que as mulheres também  “levavam” os homens pela boca caso fossem boas cozinheiras.
no caso dela nunca seria assim.
havia dias em que se chateava com isso. imprimia umas receitas e jurava a si própria que uma vez por semana iria cozinhar coisas “especiais”.
mas a vontade de cozinhar era rapidamente substituída por um livro ou por um programa no Mezzo.
havia outros em que se borrifava para a comida e para as receitas e fazia coisas extraordinárias e bizarras para o jantar, quer pela combinação dos sabores quer pela combinação das cores.
e outros dias havia em que tinha muitas saudades dos cozinhados que ele lhe fazia.

phot. gordon ball

"Pareceu-me conveniente alugar dois quartos de hotel. Isto é, um quarto em dois hotéis diferentes, propositadamente afastados um do outro. Num tirava as fotografias, no outro procurava o sono, o esquecimento. Não queria confundir as coisas e era de longe mais seguro. "

Pedro Paixão, Polaróides

Erwin Blumenfeld.

 
 

vincent peters

14/04/11

o meu romance

Já é oficial. Estou a escrever um romance. Que começa assim:


"Entrou atabalhoadamente na sala, abrindo a porta num supetão, fazendo saltar a criada, que passava a ferro. Estava com as bochechas vermelhas e toda ela parecia estar em ebulição.
- Ganhei – exclamou, sôfrega e com voz fina – Ganhei o concurso nacional de textos de amor.
A criada olhou para a criança, que tinha um ar terrivelmente adulto, e pousou o ferro.
- Ganhou o quê?
- O concurso nacional de textos de amor.
- Mas a menina é uma criança, como é que vai ganhar um concurso de textos e ainda por cima de amor…
- Concorri e ganhei… - passou por ela, deu-lhe uma palmada no rabo e lançou a pasta para cima do sofá. Tirou a bata e descalçou os sapatos e as meias numa velocidade tal que a criada até ficou tonta.
- E… ganhou o quê, afinal?
- Uma viagem a Barcelona. – De faces mais calmas, a criança olhou-a com olhos de adulta. – 2 Pessoas – Fez com a mão. – Podes vir comigo. Vamos ver o estádio e Sagrada Família... Hotel de 4 estrelas. Tudo pago. Pequeno-almoço incluído. – Saltou para cima da mesa da sala, mesmo ao lado da tábua de passar a ferro e antecipou as palavras da criada. – Hoje posso sentar-me em cima da mesa. E tu não me ralhas. Ganhei um concurso."

enquanto é tempo

Não vou ter tempo para tudo o que quero fazer na minha vida.
Por isso decidi colocar, numa folha de Excel, as coisas todas que quero fazer e ao lado, noutra coluna,
a respectiva prioridade.
Quando dei conta já ia em perto de 50.
Mas não são coisas tipo “quero ir à Índia”. Não senhor.
São mais “Quero escrever um livro” ou “Quero ter aulas de canto”.
Há dias, pensava nisso à noite, quando fumava o ultimo cigarro do dia na varanda.
Quando fumo, à noite, o ultimo cigarro na varanda,
dá-me para pensar em coisas absurdo-abstracto-sensíveis.
E depois deito-me e sonho e é o diabo feito vaca.
Como há dias pensava nisso à noite, fui sonhar que cantava numa Ópera.
E cantava em pontas, como as bailarinas.
Não vou ter tempo para tudo o que quero fazer na minha vida.
Mas acho melhor despachar-me e ir tratando de algumas. Enquanto é tempo.

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