31/05/11


“Quando vires os teus olhos a verem-te, quando não souberes se tu és tu
ou se o teu reflexo no espelho és tu, quando não conseguires distinguir-te de ti,
olha para o fundo dessa pessoa que és
e imagina o que aconteceria se todos soubessem aquilo que só tu sabes sobre ti.“

(José Luís Peixoto in “Antídoto” )

sons

phot. by ANNI LEPPÄLÄ

gosto de ouvir certos sons de olhos fechados.
gosto dos sons que desenho em pensamento, às escuras.
sons da natureza, vozes, risos, passos,
ruídos pequenos que só uma atenção desmesurada torna Inteligíveis.
gosto dos sons que se vão tornando familiares.
e por familiares que são têm a sua própria cantiga carinhosa.
gosto de aprender a gostar de sons.
gosto de descobrir a musicalidade no que à partida é mudo.
gosto da cadência da voz humana, quando fala ou ri.
e gosto, gosto demais,
dos sons que nos últimos dias tenho ouvido.

30/05/11

e no coração tatuou a lembrança daquele dia e de outros que estariam para vir.
e a tatuagem foi mais forte no coração do que no corpo.
e adivivnhou, no horizonte a perder de vista,
dias com sol mesmo chovendo plenos em calor e tranquilidade.
e desejou ter aquela sua tatuagem bem visível
para a poder mostrar a toda a gente.

apenas uma chama que dance a cantiga do vento

apenas a luz de um fim-de-tarde.
e depois, estender as mãos,
e deixar ir.

27/05/11

ao contrário

é bom quando a noite nos faz "baralhar" o cérebro como se fosse um baralho de cartas
e quando acordamos de manhã a cabeça está arrumadinha
tudo separadinho por cores, figuras a um lado, trunfos ao outro.
 e na mão, temos um jogo que é o nosso, que sabemos bem como jogá-lo
e só nos resta... disfrutar.

McDermott and McGough

26/05/11



Porque há coisas que simplesmente encaixam.
Objectos, músicas, ideias, imagens, conversas.
Encontrar uma boca que encaixe noutra é difícil.
E quando digo “encaixe” refiro-me à peculiaridade de um simples beijo.
À forma como duas bocas, quando se beijam
se embalam na sintonia própria das coisas inevitáveis
e respiram como se fossem uma só.
E quando digo “encaixe” refiro-me à certeza que aquele beijo
quer simplesmente dizer:
"passei a minha vida à procura da tua boca".

25/05/11

phot. by willy vanderperre

não devemos voltar às costas àquilo que se nos oferece.

24/05/11



As palavras dele, as últimas, tocaram-na no âmago.
E devem ter percorrido um caminho diferente dessa vez porque à passagem fizeram estragos;
destruíram alicerces e questionaram paradigmas.
As palavras dele, as ultimas, vieram de um sítio que ela arrumara no seu íntimo, como tantas outras coisas.
E chegaram a ela com força de natureza e com a inevitabilidade da existência.
As palavras dele, as últimas, fizeram-na chorar e ela chorou porque chorar se tornou o único curativo possível.
E as lágrimas molharam-lhe a face, as mãos, a boca e as palavras que não disse.
E depois de ter chorado e ter ficado com cara de velha voltou a erguer-se.
Para voltar a arrumar tudo que havia ficado em desordem.
Peça por peça, palavra por palavra, emoção por emoção, imagem por imagem.
Desta vez fecharia todas as gavetas a sete chaves.

20/05/11

mudar faz bem


adoro mudar a roupa de estação; guardar a quente e arrumar a fresca, direitinha.
cansa mas é bom. redescobrir peças que já não nos lembramos.
adorei pegar na minha roupa de primavera-verão e constatar que este ano lhe darei muitíssimo mais uso.

LAURA GUARIE

19/05/11

mim

 gosto do rosa, de papel de parede,
de doces caseiros em frascos de pickles
do "mariquinhas" e do romântico
do antigo e do dramático
gosto de fruta, de surpresas
de camisas de dormir acriançadas
e de posters de cinema.
gosto de velas pela casa
e gosto do meu quarto cheio de histórias.
gosto que me levem e gosto de maçãs.
gosto de portas lacadas e gosto de candeeiros esquisitos.
gosto de pele bronzeada e gosto de camélias.
gosto de vestidos de princesa e de contos de fadas
e também gosto da "agent provocateur".
gosto de mim assim.
menina-mulher.

boris ovini

18/05/11

a famelga e o futebol

Tudo é motivo para uma jantarada em família. E o futebol não deixa de ser.
Assim é a minha família. E ainda bem que é.
Porque nem mesmo as grandes partidas de futebol são capazes de fazer com que se fale baixo.
A algazarra é geral: se o Falcão faz um remate à baliza ou se alguém mostra um verniz novo que tem a capacidade de hidratar as unhas e fazê-las crescer 3 vezes mais fortes.
Na mesa amontoam-se petiscos, minis, Monte Velho e conversas cruzadas.
De quando em vez os olhos concentram-se na televisão. Um remate falhado. Uma asneirola aqui, um apupo acolá.
Se o Braga se aproximar da baliza será um Deus nos acuda. As senhoras simulam chiliques e os homens levantam-se.
Mostram-se tatuagens novas, comentam-se filmes e mostram-se gorduras perdidas.
Fuma-se na cozinha e conversa-se em qualquer lado.
Tilintam os copos e gravitam os mais novos à volta da mesa porque ainda têm fome.
Não há pessimismo nem se fala da crise. Nem a chuva é motivo de descontentamento.
Esquecem-se, por 90 minutos, doenças, problemas sérios e desgostos de amor.
Vivem-se momentos próximos, mornos e os laços apertam-se ante o desejo comum de ver o nosso “Porto” ser campeão.
Assim é a minha família. E ainda bem que é.
ilustração de alberto seveso

gosto de pessoas que se adaptam a diferentes ambientes e situações.
gosto de pessoas que tanto jantam em restaurantes com estrelas Michelan 
como jantam em botecos que servem bifanas em pão.
gosto da capacidade de certas pessoas em se metamorfosear em tantas outras.
gosto de pensar que este processo é uma aprendizagem e que, eu própria,
ainda tenho muito que aprender.

considerações sobre os meus sapatos

quando for grande quero ter um armário só para os meus sapatos.
para não me esquecer que os tenho, porque me esqueço.
para os ordenar por cores e géneros e feitios;
para pôr, no lugar de cada um, uma etiqueta com o sítio onde o comprei;
para pôr os especiais à direita;
para pôr os andadeiros à esquerda;
e para depois ficar babada, a olhar para eles.

Peggy Wolf

Jasper Goodall

17/05/11

o improvável às vezes acontece

Ainda hoje ela adormecia da mesma maneira.
Deitava-se, aninhava-se em posição fetal e sossegava o espírito pensando na roupa que ia vestir no dia seguinte.
E depois com a mente apaziguada e o sono a cobrir-lhe o corpo…. sentia.
Sentia a memória da saudade do corpo dele a deitar-se ao seu lado,
colando o corpo ao dela até que não mais espaço sobrasse em cada palmo de carne do corpo de ambos.
E depois o braço dele a enlaçá-la pela cintura e depois o respirar dos dois que aos poucos se ia tornando um.
E então ela adormecia. Saciada, serena e acompanhada.
Com a memória dele que, à noite, era sempre mais forte.

16/05/11

warmy weather

phot. justin ridler

já vos disso o quanto gosto do tempo quente?
de acordar morno,
andar descalça em casa e sentir o frio do chão
beber água fresca e refrescar-me na nuca com água gelada
escolher roupa para vestir no dia seguinte
(e a roupa que se veste no dia seguinte será fresca)
ver as minhas gatas meias tontas com o murmúrio do calor
ter a pele húmida, suada, quente e cansada
e, finalmente, ao fim da tarde
enquanto fumo um cigarro
 olhar para o céu e contar o rasto dos aviões
e olhar para o horizonte e sentir um não sei quê que me deixa feliz.
porque para mim a felicidade
é feita destas pequenas coisas.
 
Pois é. Encontrar um bikini que nos fique mesmo bem é obra.
A oferta é grande, a originalidade também.
Mas devemos manter a cabeça no lugar e escolher mesmo aquilo que nos fica bem.

sonia roy

 

12/05/11

mummy

a minha mãe disse-me “filha tem calma” e eu estranhamente tive, as palavras da minha mãe devem entrar em mim por um acesso diferente, um atalho… e já muita gente me tinha dito “laura tem calma” mas a voz da minha mãe tem a dose de calma que eu preciso e ao telefone ela contou-me o seu dia como se me contasse uma história e sim fiquei mais calma.
e no fim
apeteceu-me chorar de tristeza por saber que não a terei por muitos mais longos anos para me acalmar
e apeteceu-me chorar de alegria por ser assim abençoada e ter a possibilidade de sentir estas coisas por outro ser humano
e fui chorar 5 min às escondidas à casa de banho porque não se deve chorar num local de trabalho.

MERT AND MARCUS

christina ricci  / pop fallwinter

11/05/11

observar

phot. rowan mersh

gosto de (algumas) coisas que à partida nao saiba bem o que são.
de imagens, por exemplo.
porque me obrigam a pensar e a observar.
adoro observar.
sou capaz de passar horas a observar.
mas não gosto muito de ser observada.
tenho dias em que os meus ouvidos estão tão sensíveis
que até o silêncio me incomoda.

Damien Blottiere

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