30/06/11

casórios

Gosto de casórios. Ao contrário de muita gente.
Gosto do cerimonial da preparação para ir ao casório ainda que não goste de ir a um casório como se fosse vestida para um casório.
Portanto, gosto de ir a casamentos.
É que eu adoro apreciar pessoas e os casamentos têm pessoas
e pessoas que se aprumam em demasia
que se aperaltam escaganifobeticamente
ou que simplesmente chegam com a roupinha andadeira habitual.
É que eu adoro apreciar os cabelos esticados-alisados-brilhosos-escalados-à-moda
ou então os cabelos com presos-típicos-de-cabeleireiro-que-penteia-as-freguesas-às-8-da-matina-para-o-casório
ou então os cabelos acabadinhos de pintar com restinhos de tinta nas têmporas
e os cabelos-com-kilos-de-laca-puxados-levemente-só-para-dizer-que-não-é-de-cabeleireirom-mas-é….
e é muito.
É que eu adoro ver os pés arranjados das senhoras e das meninas
encarcerados em saltos vertiginosos
coitados, à rasca, porque não estão habituados
e com cara de sofrimento a querer torcer e a obrigar
a que elas se esborrachem no chão.
Pezinhos com unhas de manicure à francesa
ou vernizinho igual às unhas da mão.
É que eu adoro ver os vestidos Maria-Marcelino-Augusto-Ana Sousa
ou os vestidos de modista de família ajustadinhos ao corpo
a condizer com as pochettes “que se usam”.
E gosto, adoro, ver o dançar dos pratos a serem postos e levantados,
os empregados a andar em filinha ao som da música com calças demasiado apertadas
e bochechas vermelhuscas,
o vilho a tilintar nos copos
os olhos brilhantes dos convivas que vão ficando cada vez mais pequenos à medida que a cerimonia avança.
e gosto, gosto sociológica e artisticamente,
do ar de enfado dos noivos a tirar fotografias de catálogo
para depois figurar num álbum que toda a gente se esquece de ver.
E gosto gosto gosto do bailarico dos casórios:
da abertura do baile com os noivos a acharem que sabem dançar valsa
e dos pares que se lhe seguem:
pais do noivo, pais da noiva, tios do noivo, tios da noiva
amigos dos pais do noivo
chefe de serviço da noiva e respectiva senhora
irmãos e cunhados do noivo e irmãos e cunhados da noiva
amigas casadas com os respectivos maridos
solteirões e solteironas
mulheres com mulheres quando não têm par
e as crianças com as crianças num desatino de ritmo que nunca ninguém percebe.
E depois de acabar a valsa,
dos comboios das manas e das primas e das cunhadas
das coreografias das amigas do grupo da igreja e dos escuteiros
do dançar embriagado de alguns comensais que se torcem mais que o habitual
e daqueles que nunca dançam e permanecem encostadinhos à parede
como se fossem treinadores de uma equipa da liga dos últimos.
e também gosto, oh se gosto, dos convívios dos casórios:
das conversas sobre filhos pequenos das casadas com filhos pequenos
das rodas apertadas das divorciadas muito morenas com uma CH no braço e com copos na mão e cigarro slim
das rodas dos homens de fralda de fora que fumam charuto
das conversas polidas das mães do noivo e da noiva
dos olhos gulosos das mulheres a comentar as toilettes
e dos olhos gulosos dos homens a comentar as mulheres.
Gosto. Gosto de apreciar tudo
Com um copo na mão, a fumar o meu cigarro
com os olhos bem abertos, para não perder pitada.
Para depois poder fazer o que sempre faço. Escrever.
“Declaro-vos marido e mulher”. Nesta parte eu fico sempre emocionada.

o meu azul

 conjugo flores, poemas e ameixas
velas, cabelos esquecidos e bilhetes de concertos.
junto-lhes um cigarro fumado na varanda pequena
no morno da madrugada
e polvilho com conversas ao ouvido e risos abafados.
envolvo qual dança do amor
junto paixão, água e mãos dadas
e obtenho a receita perfeita de uma noite em que esqueço quase tudo.
menos nós.

29/06/11

meu deus, o que é que eu faço com tantas palavras?

fly me to the moon

phot. Nadia Moro

quero dizer-te apenas que sim
que voo parada
flutuo enquanto durmo
e que o meu corpo se tornou mais leve
que um fragmento de ar.
quero dizer-te apenas que sim
que julgava ter perdido a capacidade de voar
e que neste momento
sou mais feliz que qualquer pássaro livre.

28/06/11

toucas de plástico com flores, batatas fritas e Stevie Wonder

óleos de Nina Nolte.

O meu fascínio pelo universo feminino está povoado de reminiscências da infância que guardo cautelosamente nos confins do meu cérebro às quais volto sempre que posso ou, como foi o caso de hoje, volto porque uma imagem me despertou.

E lembrei-me, com estas obras, das toucas de borracha com flores coloridas, incrustadas, nas cabeças das senhoras gordinhas com baton cor-de-rosa e a cheirar a madeiras do oriente, com os netos pela mão, na piscina de Espinho.
E lembrei-me do cheiro das batatas fritas que lá vendiam, da frieza da água salgada da piscina e dos acordes do “Superstition” do Stevie Wonder a tocar nos altifalantes espalhados pela piscina.
E lembrei-me do toque dos pés no chão, um toque de frio e areia, e do arrepiar do corpo na sombra depois de sair da água.
E lembrei-me de nós, primas e irmãos, pequenos e contentes, de braçadeiras e felizes, a tremer de frio com o corpo salgado, a trincar as batatas estaladiças e a embrulhar-nos nas toalhas grandes e mornas depois do banho.
E lembrei-me do Tio Zé a mergulhar com vontade e depois parado a ver-nos nadar para nos corrigir os movimentos.
E lembrei-me que certos momentos que passamos na vida não passam, mesmo quando algumas pessoas já não estão entre nós e fiquei feliz porque são essas memórias que continuam a fazer-me escrever mesmo quando vejo numa tela pintada a óleo as toucas que enfiava na cabeça, a custo e me arrepelavam os cabelos de criança até sentir água nos olhos.
A água que tenho agora nos olhos é de saudade desses tempos. E de felicidade por poder senti-los tão mas tão próximos.
É que, ia jurar que acabei de ouvir a guitarra do Stevie Wonder a começar a soar e o barulho do pacote de papel das batatas fritas ainda mornas…

27/06/11

samba de verão

este ano deixei:
que o verão chegasse sem que eu desse conta
que me surpreendesse estando eu num sítio esquisito
e que ficasse a rir-se para mim mais tempo que o habitual.
tudo isto porque a minha disponibilidade para coisas mornas e pequenas
está no auge.

"Someone to cling to me
Stay with me right or wrong
Someone to sing to me
Some little samba song
Someone to take my heart
And give his heart to me
Someone who's ready to
Give love a start with me

Oh yes, that would be so nice
Shouldn't we, you and me?
I can see it will be nice..."
de volta a este meu canto. feliz por voltar.
feliz por estar outra vez feliz.
feliz por ter estado no sítio certo à hora certa.
feliz porque desta vez vou ser feliz.

22/06/11

A felicidade é feita de momentos.

08/06/11

You're nearer than my head is to my pillow

Phot. by Guy Aroch 

apetecia-me guardar-te num qualquer recatado recanto de mim:
um sitio rente à pele para que o nosso cheiro namorasse
e se perdesse em íntimas conversas de desejo;
um sitio de luz envergonhada
para dar palco a afagos e a promessas sem palavras.
e depois do justo namoro
com perfume, bocejos e locuções,
pegaria em ti com o cuidado de uma porcelana fina
e guardava-te ao pé do coração.
eu sei, é um lugar comum
é uma coisa pouco original.
mas que outro sitio poderia eu escolher?
é que o coração – o meu coração
é o sitio onde te tenho mais.

a bonita rapariga feia

A rapariga tinha os dois olhos vesgos, um nariz demasiado pequeno e arrebitado, uma boca de lábios bastante finos e o rosto mais comprido que o habitual.
A voz era estranha, a rondar o fino e de vez em quando resvalava para um falsete colossal.
O corpo era esguio como o de uma menina que não tivesse crescido e os dois pés, também pequenos, cambavam ligeiramente para dentro, provocando um andar que mais parecia uma dança tribal.
Mas Deus não se esquecera dela na totalidade e dera-lhe um dom, porventura um dos maiores dons: o da escrita. E se na beleza física lhe roubara a inspiração o mesmo não acontecera com a inteligência.
Por tudo isto (e muito cedo na sua vida) a rapariga deixou de se ver ao espelho e a querer estar com pessoas. Porque as pessoas olhavam para ela com aquele ar piedoso-simpático e comentavam quando ela se voltava de costas e sussurravam ao ouvido e ela sofria. Ela sofria muito.
Por tudo isso e outras tantas coisas a rapariga passou a concentrar-se única e exclusivamente nas histórias sobre raparigas bonitas que lhe assomavam o espírito a toda a hora: de noite, de dia, quando estava a trabalhar, enquanto comia a sobremesa, enquanto estava na depilação, enquanto fazia compras no supermercado e às vezes até a dormir.
E escreveu histórias sobre raparigas bonitas para grandes, pequenos, velhos e retardados, passadas em diversos sítios, com diferentes desfechos, histórias engraçadas, comezinhas, densas, dramáticas e eróticas que foram traduzidas em várias línguas e lhe valeram uma notoriedade merecida.
Mas só no dia em que escreveu a sua própria história, e que intitulou “ a bonita rapariga feia”, só nesse dia é que começou de facto a viver pois nesse dia arranjou-se, vestiu um vestidinho feminino, calçou umas sandálias com salto médio, pôs perfume, arranjou o cabelo
e passeou-se durante toda a tarde pela marginal, junto ao rio,
com andar cadenciado,
embalado pelo orgulho nostálgico das suas palavras que já tinham embriagado e feito sorrir tantas mulheres e homens
embalado pela súbita descoberta de uma vida que se lhe afigurava bela
e embalado pela certeza de que, mesmo sendo uma rapariga feia,
era também uma rapariga bonita.

07/06/11

a rapariga que se apaixonava pelas palavras

Apaixonava-se não como as outras pessoas – à primeira vista.
Mas sim – à primeira vírgula.
A rapariga, que era estranha em hábitos e vontades, também era estranha no amor.
E não era capaz de se apaixonar sem antes ver - não a cara ou o corpo – mas a escrita
e a cadência das palavras.
De facto estas eram para ela mais importantes do que um par de olhos verdes ou umas pernas jeitosinhas.
As palavras, as palavras desencadeavam nela o ardor tonto e intempestivo das paixões adolescentes:
queimavam-lhe a garganta e o cérebro
punham-lhe água nas mãos e na boca
e atiravam-na para a derradeira vertigem da consumação da paixão
que acontecia, pois, quando lia - quando o lia.
As suas maiores paixões eram portanto por pessoas que não conhecia.
E que na maioria das vezes não queria conhecer.
Ao todo amara as palavras de uns 20. Casara com as palavras de 10.
Divorciara-se de 9. Permanecia fiel a 4.
Mas a rapariga - que era estranha em hábitos e vontades e também era estranha no amor -
 esperava, um dia,
conseguir apaixonar-se por um homem que por acaso escrevia palavras
e não pelas palavras escritas por um homem.

06/06/11

let it be

Deixou-se levar. Não porque quisesse muito ir.
Mas porque, às vezes, sabe bem ser conduzido.
E, de olhos bem abertos e mãos abandonadas, avançou,
cautelosa e com o friozinho na barriga típico das incógnitas da vida.
podia ser que desta vez a caminhada a levasse a um sitio especial.
podia ser que desta vez deixasse, finalmente,
de fazer malas, de fazer viagens,
e de pensar
“mas quando é que chega a minha hora?”.

05/06/11

e mais uma vez olhou para a mão, para as linhas da mão,
e teve a certeza do inevitável.
fechou os olhos para chamar o sono,
lavou as mãos bem lavadas
esperando que a noite e a água
lhe trouxessem, por ventura,
linhas diferentes.

02/06/11

a minha varanda da sala

phot.  Maurizio Marcato

a minha varanda da sala não é uma varanda de revista.
pelo contrário. é uma varanda exígua mas ao mesmo tempo suficiente para ter
2 bancos pequenos e algumas plantas.
a minha varanda da sala é portanto pequena e a vista que dela se avista
é uma vista pouco interessante.
a auto-estrada ao fundo, uma carreirinha de casas todas iguais,
e umas quantas montanhas, ao fundo, que já foram lambidas pelo fogo.
a minha varanda da sala não é, portanto, uma varanda que eu queira mostrar aos outros
com um sorriso orgulhoso.
mas a minha varanda é para mim a melhor varanda
porque me permite
adormecer acordada, a seguir ao jantar, e acordar para ir adormecer antes de me deitar.
da minha varanda da sala eu descortino riscos no céu, de aviões,
que eu insisto em pensar que voam, felizes,
já que para mim quem voa para viajar, é feliz.
da minha varanda da sala eu antevejo um dia de verão porque as estrelas tal o anunciam.
da minha varanda eu vejo a lua do céu a olhar para a lua da minha perna.
da minha varanda vejo gatos nos telhados a absorver o calor do dia
e vejo crianças de triciclo com vozes finas a aproveitar o fresco da noite.
da minha varanda da sala penso no dia de hoje e no dia de amanhã
no que perdi e no que ganhei
faço balanços difíceis mas faço-o porque as estrelas me fazem companhia
e os riscos dos aviões me fazem acreditar no futuro.
na minha varanda da sala eu consigo mergulhar no torpor
de uma serenidade que hoje em dia sinto
e que é muito parecida com a imagem que, embora não seja muito bonita,
tenho da minha varanda.
não é bonita mas faz-me serena e feliz.
não é grande mas faz-me aconchegada e mimada.
não é de revista mas faz-me sentir única e especial.
porque quando me sinto assim, serena e feliz.
consigo descobrir beleza onde ela não existe.
mesmo na minha varanda da sala.

Sølve Sundsbø

i love cats

 

01/06/11

da criança

phot. Elena Kalis

porque há em mim uma criança que teima em não querer crescer
e ainda bem que assim é
porque há em mim uma Alice que quer viver, para sempre,
no país das maravilhas
e porque há gente que me entende e aceita assim.
para as crianças em geral e para mim em particular
feliz dia da criança.

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