29/07/11

a mulher que esperava o amor

phot. pedro tudela   /   http://instagrid.me/pedrotudela/


ainda não te encontrei mas já gosto de ti.

gosto de ti com a intensidade de quem fica, à noite, a olhar para o tecto com um sorriso tonto
e a ferver por dentro.
gosto de ti desgrenhada e a acabar de acordar
e sei que vais gostar de mim mal-humorada ou de pijama ultrapassado.
ainda não sei o teu nome mas já gosto de ti.
gosto de ti com a imaturidade da adolescência
e o lume irrefreável das paixões das idades maduras.
e sei que vais gostar de mim aparvalhada, séria, chorosa ou com medo de uma coisa estúpida.
não sei se és alto ou baixo mas gosto de ti.
e sei que vou reconhecer-te entre a multidão, entre mil, mesmo que sejas só uma sombra
com aquela astúcia no olhar que só o amor consegue trazer.
e sei que vais gostar de mim de óculos, de pantufas, com borbulhas na cara e sem maquilhagem.
ainda não sei o teu nome mas já te chamo amor.
e chamo-te quando aparece uma aranha ou quando preciso de um abraço
quando há trovoada ou quando quero saber se umas calças me ficam bem
quando estrago um colar ou não consigo abrir uma garrafa de vinho
quando preciso de mergulhar nos teus olhos
e quando preciso da familiaridade do contacto da tua pele.
e sei que vais gostar de mim de havaianas ou meias com buracos,
de calças rotas ou verniz estalado.
e terás nos olhos, sempre que me olhares,
o escuro do desejo que se sente quando se deseja alguém.
não sei se vais demorar muito tempo
- sei que existes, isso sei –
mas por favor, não demores muito.
nunca se sabe o dia de amanhã.
é que, sabes, preciso de ti.

post-it pequeno (1)

 eu gostava que gostasses de mim pelo que sou
e não por aquilo que gostasses que eu fosse.

28/07/11


"E depois uma rapariga precisa de algumas coisas, poucas, só que cada uma dessas coisas, por sua vez, precisa de outras coisas e depois já são tantas que para fazer uma mala são precisas duas horas e um quarto."

(Pedro Paixão)


Virginia Kraljevic

27/07/11

dream a little dream of me

Gosto de vir aqui em bocadinhos
entre papéis e saudades
trabalho e suspiros
deixar umas palavrinhas
mesmo que sejam simplórias.
Mas gosto
gosto de vir aqui em bocadinhos
deixar os bocados de mim cheios de ti.

26/07/11

memórias do mundo


[Quinta Apresentação Pública da Ação de Formação em Teatro – Espetáculos 2011]






Memória do Mundo...


Vai ser bom estar contigo… Com sorrisos…Vai ser muito bom saber que nos ouves… Que nos sentes… A sorrir…Vai ser singular respirar o mesmo ar… Contigo…Contigo, podemos fazer o mundo parar… Será possível? Não! Não vamos parar o mundo… Não podemos… Risos e mais risos…Vamos andar juntos… Vamos comungar com o mundo… Queremos estar contigo… Sempre a sorrir…Esquecer todo o resto… Esquecer para descansar a memória…E com a mesma memória lembrar que nos esquecemos do mundo…Lembrar que esquecemos o mundo para andar melhor no mundo…O nosso mundo é o mesmo que o teu… Desde que estejas connosco…No mundo… A sorrir… Tens Memória do Mundo?...

Coordenação Júnior Sampaio e Alex Capelossa


Alunos em Cena:
Alberto Meira, André Pinto, Angelina Carvalho, António Cabral, Catarina Pinto, Catarina Vaz, Cristina Pereira, Etelvina Baltazar, Fátima Ferreira, Filipa Almeida, Florência Santos, Hernani Azevedo, Inês Ferreira, Joana Manarte, João Castro, José Fernando Silva, Laura Ferreira, Maria de Fátima Nunes, Mariana Santos, Paulo Kanuko, Ricardo Raimundo, Sofia Nunes, Sofia Pereira, Sofia Príncipe, Tiago Rodrigues, Valdemar Baltazar




Duração 90 minutos (é permitida a entrada durante a apresentação)
Entrada 2€ (uma bebida incluída)
Informações e Reservas 224211565
964751300


Espetáculo para maiores de 16 anos


Ação de Formação em Teatro_Espetáculos 2011
Organização Câmara Municipal de Valongo e ENTREtanto TEATRO
Coordenação Pedagógica Júnior Sampaio


ENTREtanto TEATRO – Associação Cultural
Centro Cultural de Campo
Travessa de S. Domingos
4440-191 Campo – Valongo


+351 224211565 / +351 964751300 / [email protected]

25/07/11

vejo cores em sítios que nem por sombras poderiam ter cor.

Heinz Hajek

24/07/11

appetite

um instante e a minha boca junto da tua boca.
quando fecho os olhos e de facto a sinto.
só para me ajudar a dormir.
esta noite vou dormir abraçada à tua boca.

22/07/11

diálogos mais que prováveis - o que é o amor?

phot. dora maar

- O que é o amor?
- Hm?... Provavelmente a coisa que mais vezes foi (d)escrita.
- Nas palavras de outros, sim. Para ti, o que é?
(suspiro)
- Sei lá… é… (pausa). Bom.
- Bom?!
- Sim, bom. Amar é bom. O amor é bom.
(pausa. suspiro. pausa)
- O amor é…. É adormecer, não sempre, mas de vez em quando, com a absoluta percepção de que o som do respirar do outro é das cantigas que mais gostamos de ouvir.
- (riso pequeno) Isso é bom.
- Eu não te tinha dito? Afinal o amor é bom.

21/07/11

Tenho saudades boas

De ouvir o “Black” a tocar do quarto do André e do Tiago;
Das praias com banheiros;
Do colo grande da minha mãe quando era pequena;
Do Filet-Mignon do Rio;
De ouvir um concerto de música clássica na St. James;
De ovos verdes com muito vinagre;
De ouvir Smiths pela primeira vez;
Do cheiro do Paloma Picasso (quando o senti pela primeira vez);
Do aroma da sensação do perigo do primeiro beijo na boca;
Do tacho de arroz embrulhado em jornal que comíamos na barraca, na praia Pop Americana;
De ouvir os “cartuchos” com as músicas do Festival Eurovisão da Canção;
De estudar a sublinhar com muitas cores;
Do suor a pingar do tecto do Griffon’s;
Da sensação de ver pela primeira vez o “Paris Texas” e o “Do fundo do coração”;
Do baque que é ver a Baía da Guanabara iluminada, aos meus pés;
De estar aos pés do Cristo Redentor;
De dançar no ar, no Lá lá lá;
Dos esquilos de Central Park;
Do cheiro da primeira discoteca onde dancei pela primeira vez (Summertime – Lança Perfume);
Do sabor das lágrimas quando ouço o “Hide in Your Shell”;
De comer batatas fritas na piscina de Espinho;
Das águas tónicas com a Beti a cozinhar, em Vilamoura;
De me sentar nas escadas da Praça de Espanha em Roma e ver passar;
Do batôn cor-de-rosa das senhoras velhotas;
Do cheiro do Atrix;
Do genérico dos “Pequenos Vagabundos”;
Dos romances que lia às escondidas;
De ler pela primeira vez o final dos “Cem Anos de Solidão”;
Das aulas de ioga às 8 da manhã;
Do arrepio da pele quando me surpreendem com música;
De escrever até cair para o lado;
De brincar aos “Amigos de Alex” com os irmãos e primas;
De ser pequena para pensar que tinha muitas férias;
De pisar um palco pela primeira vez;
Da primeira sensação de quando se está apaixonado;
De ouvir o “never, never, never” da Shirley Bassey com os meus pais na casa das Antas;
De ver pela primeira vez o skyline manhattan a ouvir o "New york, New York";
Da sensação de saltar do barco, para alto mar, quando mergulhei com garrafa a primeira vez;

Juro que volto com mais.

20/07/11

i beg your pardon

Estou dentro do “Breakfast at Tiffany's” e abraço-te com chuva.
Converso com o Coronel Aureliano Buendía enquanto te agarro na mão.
Temos os pés descalços
eu uso vestido e tu usas linho
e os cabelos cheiram a pão
e estamos prontos para fazer a caminhada dos “Cem anos de Solidão”.
De repente estou no “Vertigo”, rente ao rio, mergulhada no azul da história.
Daí a pouco mergulho no cálice de vidro do “One from the Heart”
e vejo-te pequeno e azul
eu de cabelo curto
tu com olhos de cinema.
O Tom Waits está ao piano
a tocar o “I beg your pardon dear”.
Estendes-me a mão. A tua mão.
Eu dou-te a minha. A minha mão.
Quando se tocam
soa distante o “Strangers in the night”.
Dançamos. Agora levaste-me para um film noir.
Envoltos em sombras e fumo de cigarro
desenhamos sombras, lentas, no chão.

É que num qualquer arremesso de qualquer coisa
que é digna de música, filmes e livros
(que não é palpável
e que prefiro nunca explicar)
nesse momento exacto de tempo
me convidaste para dançar.
Mesmo sabendo que eu estou longe de ti.
E eu fui.

profundamente


aquela mulher que esperava todas as tardes perto daquela ponte esperava um amor profundo
tão profundo como as águas daquele rio
e às vezes ela comparava-o a elas porque esse amor ficava mais cinzento ou mais azul
mas não interessava o que interessava era o amor que lhe crescia no peito
e que ela lhe dedicava em silêncio.
e confiava a saudade à sua almofada e muita gente não acreditava nela
mas ela sim ela sentia e um dia até lhe tinham dito

- esperas demasiado não esperes
e também lhe disseram
- daí só vão sair peixes
mas ela riu um riso calmo sem pressa
ela era assim nestas coisas do amor
tinha calma tinha uma calma que não tinha para quase mais nada
porque noresto ela era ávida às vezes aflita
mas aquela espera era uma espécie de promessa não cumprida irreal
feita por um desconhecido que ela sabia existir e sabia
sabia como era o cheiro dele e o toque e até a respiração antes de adormecer
sabia isso e sabia outras coisas que as pessoas normais não sabem ler
e era por isso que ela o amava assim de uma forma profunda como aquelas águas azuis.

Profundamente.

19/07/11

dançar até que a morte os separe

dançaram a primeira vez no casamento a "valsa das flores":
ela muito feminina de costas hirtas e cabeça tombada
ele mal jeitoso mas muito empenhado.
dançaram e aquela dança é que foi a verdadeira troca de alianças
e depois disso dançaram em todo o lado
porque sim e porque não
e mesmo quando já eram velhos
continuaram a dançar
e dançaram dançaram sempre
até que a morte os separou.
phot. abelardo m.

dá a mão
não tenhas medo
dá a mãozinha
e já agora tudo o resto que não preciso de mais nada
tu chegas-me
moro em ti que tem cidades que cheguem
quando te falo grito o eco da praça interior
tu ouves-me pelos órgãos internos e respondes-me pela mobília de
[madeiras nobres que me sorri e me aceita como uma gaveta à procura
[de documentos.

(João Negreiros)

15/07/11

a mulher com corpo de Photoshop

Phot. Pedro Tudela

A mulher sentada na segunda cadeira a contar da esquerda
tem um não sei quê de enigmático
que faz com que o homem sentado na cadeira da ponta direita
(jovem e engalanado com ar de enfant terrible)
se baixe, para mexer no sapato com regularidade,
e para ela olhe de soslaio.
Aquele movimento forçado e patético
em nada perturba a mulher
(madura e elegante, com pele de cinema e corpo de Photoshop)
que agora se detém a olhar para o risco imperceptível
da unha de gel do dedo mindinho.
O homem sentado na cadeira da ponta esquerda
deve estar com dores porque tem o cenho fechado
e rugas de mal-estar a escurecer-lhe os olhos.
Não reparou ainda na mulher impassível
e no jovem excitado que continua naquela coreografia comovente
à espera nem que seja de um esgar.
O telemóvel ultra mega último modelo do jovem
toca estridentemente
- uma irritante música de rádio igual às outras todas –
e a mulher sofisticada vira o pescoço coreograficamente
e olha-o com ar de enfado.
Há uma pausa dramática na qual acontecem as seguintes acções,
por esta exacta ordem:
a mulher e o jovem olham-se nos olhos
o homem com dores olha para os dois
o telefone irritante vibra na mão do jovem
como se fosse um animal enjaulado
e a menina da recepção
que está longe desta curta-metragem improvisada
vem interromper a cena
e chama a mulher elegante
“porque o senhor doutor vai recebê-la já”.
então ela levanta-se com ar de estrela de cinema
e caminha, numa dança miúda,
com os saltos agulha a pintalgar o soalho,
na direcção da sala do senhor doutor
e entra, não sem antes se virar e posar para os dois homens
com cara de retrato de moda.
E os dois homens ficam a ver a porta a fechar
e na cabeça dos dois
ficará impressa a imagem daquele andar
e a imagem do rosto seráfico e bem maquilhado
da mulher
de corpo de Photoshop
de rosto de revista Vogue
e de roupa de Vanity Fair.

Alice in Manhattan


Talvez precisasse só de lhe dizer “podias ter aparecido há 20 anos atrás”.
Talvez precisasse só de lhe dizer “não escrevas por favor pára de escrever o que quer que seja”.
Talvez precisasse só de lhe dizer “não quero ouvir a tua música porque a tua música traz-me todos os livros que ainda não escrevi ”.
Talvez precisasse de escrever só isto assim para deitar cá para fora.
Foi por isso que escolheu Manhattan para se perder,
misturando-se na multidão, nas buzinas e nos perfumes femininos.
Foi por isso que escolheu o "the only one in your love" para ouvir no ipod.
Foi por isso que saiu para a rua mas primeiro se vestiu e se pintou.
Porque ao fim da tarde Manhattan tinha, por vezes, o rosto de uma mulher aturdida de paixão.
E podia ser que assim se esquecesse dela.

14/07/11

gosto dele(a) porque

Phot. Pedro Tudela


não faz zapping como se não houvesse amanhã
não ensandece quando vê o Porto a perder
é capaz de distinguir um Manet de um Monet
não muda de roupa muitas vezes ao dia
gosta do Glee e dos "irmãos e irmãs"
sabe de cor Agostinho da Silva
sabe que Creonte é masculino
sabe fazer bacalhau com broa
acerta no tamanho quando me compra lingerie
percebe quando preciso de um beijo aceso
e percebe quando preciso que saia do quarto.
sabe sempre que música deve escolher
para cada ocasião
inclusive quando estamos zangados.

Phot. Pedro Tudela



... não tem assim um programa especial que goste de ver na televisão
acorda primeiro e deixa-me dormir enquanto toma banho
embora nunca admita sabe fazer o papel de mãe disfarçada de amante
sabe os aniversários daqueles que me são importantes
zanga-se quando me distraio sem perder, nos olhos, o brilho do amor
ouve os meus disparates como se fosse pela primeira vez
ri (ainda) genuinamente com algumas histórias
faz-me festas na mão, enquanto vemos televisão, (e casámos há 20 anos)
não se chateia que adormeça (quase) todas as noites no sofá
faz amor e faz sexo
faz as melhores bochechas de porco pretas da história. (...)

13/07/11

Je t’ai dans la peau

phot. Maurice Tabard


rouba-me um dia destes, por favor,
guarda-me em lugar recôndito
(desde que seja em ti, perto da pele)
e canta-me ao ouvido, em francês,
uma música que fale de amor.

e eu ficarei de olhos pequenos
pele áspera
e respiração incendiada

e responderei a essa canção
com um beijo
 em inglês.


Qual o teu estilo de vida? Qual o teu estilo de arte?

Tens estilo? Tens vida? Tens arte?

Tens? Queres? Onde? Como?

Connosco podes escolher um estilo... Ou muitos estilos...

Ou escolher não ter estilo...

Assim... Queremos PESSOAS D'eslilo...


D'estilem connosco a Arte de estar no Palco...

Coordenação Júnior Sampaio e Alex Capelossa


Alunos em Cena:
Alberto Meira, André Pinto, Angelina Carvalho, António Cabral, Catarina Vaz,Cristina Pereira, Etelvina Baltazar, Filipa Almeida, Filipe Marinho, Flávio Silva, Gilberto Coutinho, Hernani Azevedo, Inês Ferreira, Joana Costa, Joana Manarte, João Castro, José Fernando Silva, Laura Ferreira, Paulo Kanuko, Sofia Nunes, Sofia Príncipe, Valdemar Baltazar

Duração 90 minutos (é permitida a entrada durante a apresentação)

Entrada 2€ (uma bebida incluída)

Informações e Reservas 224211565  / 964751300


A Câmara Municipal de Valongo e o ENTREtanto TEATRO lançaram o convite e são mais de 60, entre antigos alunos e membros dos grupos de teatro amador de Valongo, os inscritos na Ação de Formação em Teatro – Espetáculos 2011.


Num formato diferente, com frequência e carga horária flexíveis, e apresentações públicas regulares, a formação começou a 16 de Maio e decorre até 30 de Julho, em horário pós-laboral, no Centro Cultural de Campo.


Uma Ação de Formação de aperfeiçoamento e experimentação das técnicas teatrais onde são desenvolvidos mini-projectos/criações que abarcam os diferentes contextos da interpretação e produção de um espetáculo.


Os mini-projectos são apresentados ao público em geral nos dias 3 e 17 de Junho e nos dias 1, 8 e 29 de Julho, às 22:30, no Centro Cultural de Campo, em formato de café teatro.





ENTREtanto TEATRO – Associação Cultural

Centro Cultural de Campo
Travessa de S. Domingos
4440-191 Campo – Valongo


+351 224211565
+351 964751300
[email protected]

in love.

12/07/11

por norma não viro as costas às coisas.
mas é preciso muito
 para que me mantenha de frente para elas.

11/07/11

08/07/11


e voou.
era assim tão difícil perceber
que pode haver alguém que goste de chá
na mesma medida em que goste de um fino?

You’re nearer, than my head is to my pillow

deixas-me no quente da almofada
de madrugada.
e no teu quente me deito
e nos encontro.
porque nela encontro, morno,
um bocado de ti.

às vezes tenho o corpo longe da cabeça 


e a cabeça metida num qualquer lugar
onde nunca estive.

07/07/11

RGB





vou ver se tomo um banho de cor.

hoje acordei virada do avesso.

06/07/11

garota de ipanema


tinha azar em tudo desde que se recordava como gente.
teve azar até mesmo quando encontrou o amor da sua vida;
não lhe deu sequer um abraço
muito menos um beijo nem que fosse na face
mas soube, assim que o viu,
que aquele homem era o homem da sua vida.
então pediu-lhe um “passou bem”,
limpou a mão suada à saia pelo joelho
baixou os olhos com um pudor infantil
deixou que duas bolas rosadas lhe tingissem as maçãs do rosto
para que ele percebesse que ela era uma rapariga tímida e seria
e porque acreditava que o rubor era um subtil sinal de amor romântico
e foi aí... foi aí
que sentiu de repente uma breca na mão
uma dor terrível no pulso como se todos os ossos se quisessem pisgar
e deu um passo atrás com a dor
sentiu-se escarlate
e o telefone dele tocou
e ele teve de atender o telefone
e ao mesmo tempo ia a passar uma rapariga deslumbrante
com andar de cobra e pele de veludo
como se o andar dela tivesse música
e ele voltou-se para a ver passar
e lembrou-se do jobim e do vinicius
e percebeu,
percebeu como é que se escrevem canções assim
e quando a breca da mão lhe passou
e os ossos retornaram ao pulso
ele já se tinha afastado
oh se tinha
atraído pela rapariga ondulante
como se ela tivesse um íman
e tinha, ela tinha um íman e ele estava irremediavelmente atraído por ela
e foi assim
foi assim que o deixou fugir.

05/07/11

ARREPIO-ME COM...

Arrepio-me com:

 
O final do Blade Runner,
O cheiro do Rio,
O “Hide in your shell” dos Supertramp,
Moet Chandon gelado,
A areia fria da praia depois de acordar já quase sem sol,
O perfume da minha mãe,
Os olhos de amor das minhas gatas,
Certos cheiros do passado que na minha cabeça são tão presentes,
“o deus das pequenas coisas”,
Os meus sobrinhos,
A Scarlett O’Hara a pegar na terra de Tara enquanto diz “As God is my witness, as God is my witness they're not going to lick me. I'm going to live through this and when it's all over, I'll never be hungry again.”,
Um olhar que me encontre,
Uma noite em que me perca,
O 1º parágrafo dos “100 anos de solidão”,
Um cigarro depois do amor,
Uma toalha de linho bordada pela avó,
O "reel around the fountain" dos The Smiths,
A vista do Corcovado e do Pão-de-Açucar,
O cheiro familiar da minha casa,
Os be-dom,
Os meus sapatos,
O final do Cebulório cantado pela família,
As bonecas do meu quarto,
Os desenhos da Rosi,
A Audrey Hepburn a cantar o “moon river”,
Um prato de sopa quente no Inverno,
A Julie Andrews a cantar o “The sound of music” e o plano a subir,
Um gelado de limão,
O trémulo da voz da Elis no “Me deixas louca”
A lembrança da casa grande de Viseu e do Algarve,
A cadência do amor que sinto pela família,
A novela que escrevi aos 15,
A paixão pelo mar,
As saudades dos que já não estão
O “Maitresse” da Agent Provocateur,
As peças de teatro que já pus em pé,
Os olhos dos meus amigos,
Algumas sms’s,
O ”Overture's love theme” ( Romeu e Julieta) do Tchaikovsky,
O teu abraço,
E com a quantidade de coisas que me arrepiam.
E que um dia destes volto para contar.

estranhas

- Dizem que somos estranhas…
- Estranhas?...
- Sim, diferentes entre aspas.
- Isso incomoda-te?
- Às vezes… sim.
- Porquê?
Silêncio.
- Não sei.
- A mim há coisas que me incomodam e eu não penso muito nelas.
- Fazes bem em não pensar nas coisas que te incomodam. Eu gostava de ser assim.
- Quando é que pensas muito nas coisas que te incomodam?
- À noite, quando me deito.
- Tens que passar a pensar nelas de manhã.
Riso.
- E então em que é que penso à noite?
- Eu adormeço sempre a pensar em coisas fúteis. Adoro pensar em coisas fúteis. Por exemplo. O que é que vou vestir no dia seguinte…
- E não te sentes fútil por pensar nisso?
- Não, sinto-me estranha!..
- Então afinal sentes-te estranha…
- Sim, mas não penso nisso.

in "crónica feminina", autoria e encenação -  laura ferreira
palavras loucas orelhas moucas, 2009.

01/07/11

palavras


era eu ainda criança quando me apaixonei pelas palavras.
delas fiz pele, prazer, fome e reduto.
com elas casei adolescente
e com elas fiz amor pela primeira vez.
delas engravidei ideias e pari histórias.
com elas me zanguei, separei, fiz as pazes e voltei.
com elas construí albuns de retratos
e mostrei-as a toda a gente, orgulhosa, dizendo:
"são os meus filhos, as minhas palavras".
as palavras e eu ou eu e as palavras:
a relação mais duradoura que até hoje conheci.

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