19/08/11

até já


Tempo de praia, sol, livros
mar e companhia.
Voltarei com as histórias de tudo isto.
Até Setembro

17/08/11

phot. by Pedro Tudela (http://instagrid.me/pedrotudela)

Lembras-te do barulho do meu coração
quando me apaixonei por ti?

A contabilidade do amor.


Ao telefone,
mandou-lhe um beijo grande:
para que ele o distribuísse
por todos os dias em que ainda estariam separados.

16/08/11

quanta sabedoria pode haver na calma.

13/08/11

11/08/11

too marvelous for words

abraçou-a.
abraçou-a tanto que lhe partiu uma costela.
porque ele era muito grande e forte e ela era muito franzina e pequena.
quando chegaram ao hospital
ele estava choroso porque lhe partira uma costela.
ela estava chorosa porque ele lhe partira a costela só porque a amava tanto
e a médica chorosa ficou quando ouviu aquela história de amor.
e então ela teve que ficar em repouso absoluto
e mandaram-na respirar devagarinho por causa das dores.
e então ela teve que o mandar embora.
porque quando ele estava era tudo uma convulsão.
os dias, as cores, as conversas, a respiração.
e então despediram-se com um até já.
mas ficaram colados ao telefone à internet
à travesseira com o cheiro de cada um
ao sabor da boca na boca de cada um.

onde estás?
não demores, por favor.

it's not me


há dias em que saio de mim
porque em mim é tudo apertado
porque o que há em mim é muito e é tudo.
há dias em respiro cinema.
falo em forma de deixas de teatro.
suo em forma de música
durmo enroscada num desenho a carvão.
e tenho no corpo, na alma e em mim,
todas as formas de arte que o homem inventou.

crónica feminina 2


passeio-me nua pelas minhas palavras e pela minha casa nua.
nua me canta a "Melody Gardot" o "My one and olny Thrill".
e, de olhos rasos de palavras,
me deixo possuir e me fecundo.
e no teclado escrevo, a chorar,
a felicidade em forma de peça de teatro.
e através das palavras vejo fios, notas, projectores e vídeo.
vejo respirações, pés, saltos altos e vestidos justos.
vejo jazz, cinema, palavras articuladas e lágrima contidas.
vejo público, olhos, mãos suadas e respirações entrecortadas.
e feliz escrevo e escrevo feliz
por me entregar a este meu amor que é o meu maior amor.
a minha escrita. materializada no meu teatro.
mais um filho. é muito bom ser mãe.

09/08/11

hmmm. pensamento que me veio depois de ler a cotracapa do "Ofício de Viver" do Cesare Pavese

Encontraram o diário de Cesare Pavese, quando ele morreu, numa pasta verde, na qual estava escrito a lápis vermelho e azul: "Il Mestiere di vivere di Cesare Pavese".
Isto fez-me pensar na quantidade infindável de papéis com coisas escritas que tenho espalhadas pela casa.
Não é que ache que vá morrer mas se isso por acaso acontecesse ia dar uma grande trabalheira a juntar tudo e o mais provável era que os meus pensamentos e historinhas fossem confundidos com contas do supermercado e talões da depilação.
Vou começar a por tudo numa pasta preta e escrever a lápis: "escritos da Laura (pasta um)".

o meu cabelo

Nada me aflige mais que o meu cabelo comprido nas mãos de uma cabeleireira insensível.

É que se há pessoas que falam com as plantas também pode haver cabeleireiras a falar com os cabelos.
É como outra panca qualquer.
Eu procuro muitas vezes companhia no meu cabelo.
O que significa, senão um pedido subliminar de ajuda,
aquele gesto de enrolar uma madeixa no indicador e ficar ali eternamente num namoro pegado,
dedo e caracol, repetida e languidamente?

07/08/11

a rapariga com olhos de cinema

A rapariga gostava tanto mas tanto de cinema que naquela tarde de domingo se fechou em casa,
espalhou velas pela casa de banho, pôs numa tina com água pedrinhas no fundo
e a boiar velas em formato de flores que tinha usado numa peça de teatro,
acendeu um pauzinho que ainda lhe restava de Macau, de "Jasmin Incense",
apanhou o cabelo no coruto com um gancho,
não tirou a maquilhagem, preparou um banho de imersão com bolas com pétalas de rosa
e meteu-se na água morna com um copo de vinho e um cigarro.
Depois pôs o "Misty" a tocar
e lá se deixou ficar, a pensar em inglês,
com olhos de cinema, e boquinha de quem posa para um plano apertado.

04/08/11

"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."

Clarice Lispector.
no fundo no fundo
é sempre a mesma coisa.

01/08/11

a rapariga que gostava de zumba e o rapaz que não gostava nada

Conheceram-se numa aula de zumba.
Ela estava lá porque gostava. Ele estava lá porque o tinham obrigado a ir.
Os olhares cruzaram-se quando ele estava a levantar-se para ir embora e ela estava a sentar-se para descansar.
O olhar de um e outro prendeu-se num e noutro e ficou preso naquele minuto.
Ela estava suada e vermelha. Ele estava com ar de tédio e com uma expressão de irritação nos olhos.
Ela usava roupa larga, sem grande coerência de cores, Ele usava um pólo arranjadinho e umas calças bem comportadas.
Ela sentiu o coração a vir-lhe à boca. Ele sentiu o olhar turvo.
A  ela tremeram-lhe as pernas. A ele subiu-lhe uma coisa quente e mexeriquira pelas costas.
Ela cambaleou. Ele voltou a sentar-se.
Mais tarde beberam uma mini pela garrafa e fumaram um cigarro a meias, junto ao rio.
Conversaram até de manhã e trocaram o endereço do facebbook.
Despediram-se com os olhos pequenos a meio do caminho.
Ela beijou-o na face. Ele beijou-a nos cabelos.
E foi assim que se apaixonaram. Sem estar à espera.
Numa aula de zumba. Onde ela estava porque queria. Onde ele estava porque fora obrigado.
Mas o amor tem destas coisas.

TOM RYABOI

hoje apetecia-me ser muito pequena.
para que tomasem bem conta de mim.
phot. gordon ball

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei entre
os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela. e a luz
compreenderá a impossível compreensão do amor. um dia, quando a chuva
secar na memória, quando o inverno fôr tão distante, quando o frio
responder devagar como a voz arrastada de um velho, estarei contigo e
cantarão pássaros no parapeito da nossa janela. sim, cantarão
pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa minha, porque eu
acordarei nos teus braços e nao direi nem uma palavra, nem o princípio
de uma palavra, para não estragar a perfeição da felicidade"

in "a criança em ruínas" José Luís Peixoto

Arquivo