31/10/11

miss


a minha saudade, hoje, é tão grande
que é capaz de voar até ti.

phot. by pedro tudela at http://instagrid.me/pedrotudela/

continuo a subir. um dia destes chego lá.

28/10/11

tenho tudo tão tatuado em mim que às vezes me dói.

24/10/11

Não. Nunca.

Não chegou a dizer-lhe o que sentia nem como sentia.

Nunca lhe deu a mão no cinema ou lhe chegou à boca um pedaço de fruta.
Não lhe conheceu o sabor da boca ou a dança do corpo.
Não fotografou com ele cidades nem igrejas nem assistiram a concertos, óperas ou bailados.
Nunca lhe disse como as palavras lhe brotavam dos dedos só porque ele existia.
Não jantaram próximos com os olhos imersos e não viram juntos exposições de pintura.
Nunca tratou dele com febre ou mal da garganta.
Nunca lhe mostrou desenhos ou objectos de infância.
Nunca riu com ele até a barriga doer e nunca lhe disse como era bom o estremecimento da paixão quando estava perto dele.
Não lhe contou segredos ao ouvido e nunca dançaram na rua.
Não partilharam uma bebida ou apanharam chuva.
Nunca lhe apertou a mão de desejo e nunca se enroscou nele para dormir.
Não lhe mostrou os textos que escorriam da paixão que a incendiou.
Nunca lhe confessou como sentia o cheiro dele mesmo quando não estava.
Nunca o olhou demoradamente para lhe falar em silêncio e nunca se sentou no colo dele para lhe pedir um mimo.
Não o acordou para fazer amor durante a noite e não lhe deixou bilhetes de amor no espelho da casa de banho.
Não cozinhou para ele e não chegou a saber qual o seu prato preferido.
Nunca lhe sussurrou “boa-noite” ao ouvido e nunca conheceu o toque do cabelo.
Nunca chegou a dizer-lhe o que sentia nem como sentia.
Mas arrumou-o dentro de si como sendo uma das histórias de amor mais bonita.
Que não aconteceu.

a rapariga que se passeava nua

phot. by pedro tudela in http://instagrid.me/pedrotudela/


A rapariga passeava-se nua porque não gostava de se passear vestida.
E enquanto se passeava nua via-se no reflexo das montras
e ao sabor da lua vislumbrava, no chão húmido, a sombra cinematográfica do seu corpo
e fazia-o todas as noites quando a cidade já dormia e quando na rua não havia alma.
E fazia-o por precisar de companhia e por em casa não ter espelhos.
E fazia-o enquanto pela cidade deixava impressa a memória daqueles momentos e fazia-o como se fosse um filme: planos apertados, únicos, com música, imagem tremida.
E regressava a casa com um trailer diferente todas as noites.
E coleccionava cenas de filmes noir, filmes mudos, filmes de animação.
E aquelas cenas amansavam-lhe a solidão.
E faziam-ma pensar na sua vida como se de um filme se tratasse.
Porque no cinema tudo pode acontecer.
E porque no cinema,  a solidão é uma palavra cheia de gente.

estou zangada com o meu coração:
porque em mim manda e desmanda
e abusa e agenda.
e é só por causa disto
- e que não é pouco-
que vou ordenar-lhe que se cale
e que pare de sair de mim
para ir primeiro que eu.
estou zangada com o meu coração.
e é por isso
- e que não é pouco-
que vou deixar de lhe falar durante uns dias.

21/10/11

as coisas que eu nunca conseguiria deixar de fazer...


viver longe do meu Porto...

ser diferente não significa ser pior.

post it pequeno (6)


eu gostava de fazer contigo uma viagem à volta do mundo e o mundo podias ser tu.



20/10/11

Marino Parisotto


 
 
 the lavazza 2011 calender Mark Seliger

19/10/11

estudar


Não saberia viver sem estudar.
Estudar textos para representar, assuntos que desconheço, documentos de trabalho.
Estudar uma planta, uma tarde, um mapa de cidade desconhecida.
Estudar uma pessoa, um quadro, um movimento.
Estudar um livro, uma obra de arquitectura, uma receita culinária.
Estudar a letra de uma música e a pauta de uma sonata.
Estudar as minhas sobrancelhas e estudar uma coreografia.
Estudar reacções e gráficos e gargalhadas. Olhos e mãos.
Estudar sapatos e afectos.
Estudar uma pessoa desconhecida, estudar todas as pessoas que conheço.
E estudar-me. Sempre. Até morrer.

post it pequeno (5)

eu gostava de me sentar contigo num banco de jardim

de olhos turvos
a olhar para o nada
só para sentir a música da tua respiração.

18/10/11

Diálogo pequenino mais ou menos médio:


Ele: Mas o que são os post-its?...
Ela: São pequeninos textos.
Ele: E porque é que lhe chamas assim?
Ela: Porque há post-its pequenos.
Ele: Mas podias chamar-lhes só pequeninos textos.
Ela: Sim, podia. Mas prefiro chamar-lhes post-its.
Ele: Pois. Está bem. (pausa) Mas e então como é que chamas aos textos grandes?
Ela: … textos grandes.
Ele: ?
Ela:  Olha, é mania de quem escreve, deixa lá, pronto.
Ele: Vá, dá cá um beijo, não amues…
Ela: Oh, pronto. Não estou a amuar.
Ele: Queres que te escreva um post it pequeno? És tu quem costumas escrever; desta vez escrevo eu. Pode ser?
Ela …(riso)… pode.
Ele: Mas posso dar-lhe outro nome? Posso chamar-lhe antes “pequenino texto de amor?”.

post it pequeno (4)

Recebo mensagens da Zon, da Vodafone, da Guess, da Mango, da Shepora, da TMN,
da Maria Marcelino, da Divergências, da cabeleireira, da esteticista, da Midas, do picheleiro, do homem da máquina, do Continente, da clínica médica.
Mensagens tuas, nem vê-las.

17/10/11

ctrl X

gostava de conseguir recortar bocados da minha vida
e colá-los num caderninho para os revisitar sempre.
gostava de conseguir recortar bocados da minha vida
e colá-los noutro caderninho
e dar-lhe o nome (a esse caderninho) de
"as coisas esquecidas".

Brice Bischoff

  

15/10/11

embraceable you

Fazia-o desde miúda. Dançava sozinha. Isto porque lhe tinham dito “se não tiveres ninguém com quem dançar não quer dizer que não dances, podes sempre dançar sozinha”. E assim foi. Desde miúda que o fazia. Dançava sozinha. Vestia-se para dançar sozinha. Pintava-se para dançar sozinha. A preparação do ritual ia ficando mais rebuscada à medida que o tempo passava. Porque ela ficava mais exigente à medida que o tempo passava. À medida que dançava. Sozinha.

E preparava-se cada vez mais. Pintura, cabelo, roupa, sapatos. Enquadramento, décor, luz na sala, até musica. Perdia muito tempo a escolher a música. É que a musica tinha que combinar com tudo o resto. Com a pintura. E o cabelo. E a roupa. E os sapatos.
Tivera já oportunidades de dançar acompanhada. Muitas. Mas o impulso de um primeiro momento, a vontade de partilha de uma actividade que para ela era semelhante ao acto de tomar banho ou pagar as contas no multibanco, esmorecia assim que pensava no iminente encontro, assim que antecipava a figura, a roupa, o cabelo, os sapatos, a música. Habituara-se demais a fazê-lo sozinha. Habituara-se demais a partilhar esse prazer consigo. A ver a figura à meia-luz, no espelho da sala, a rir de si própria, quando os pés resvalavam ou o inglês lhe fugia da boca. Habituara-se demais àquele momento tão seu, tão íntimo, tão insólito.
Ultimamente rendia-se aos acordes de John Coltrane.. À lassidão de Melody Gardot. Ao copo que nunca ficava vazio, de Tom Waits. Ao nervosismo do Sweetest Embrace de Nick Cave e ao arrepio eterno de Sinatra.
E dançava. Sozinha. Com um copo de vinho na mão. Como se dançasse com alguém que amasse acima de qualquer coisa. Com o corpo a responder a um corpo que não existia, a sentir no pescoço a respiração de alguém que não estava, a sentir nas costas os dedos de uma mão que tantas vezes quis conhecer.
E a boca abria-se num meio sorriso lânguido de vinho, os olhos estreitavam-se, as palavras em inglês saíam-lhe roucas da boca entreaberta e ela dançava. Dançava. Sozinha.
Até ao dia em que dançaria com alguém.

13/10/11

Ola Kolehmainen.

dá-me para isto em certos dias

dá-me para isto, em certos dias:

para ver poesia no transito e beleza numa gripe estranha.
para ficar tenrinha só porque reparo numa fotografia que me impressiona
para me apetecer escrever sobre as bolinhas de papel que se juntam na base dos furadores.
dá-me para isto, em certos dias:
para me emocionar com uma rapariga elegante que na rua caminha de saltos altos como se dançasse
para ficar zonza quando vejo uma sms a chegar
para ficar calada só porque tenho tantas palavras em mim que se não fechar a boca elas vão explodir de dentro da minha boca e fazer-me explodir e desaparecer.
dá-me para isto, em certos dias:
para ficar louca de felicidade por poder ver as coisas assim em certos dias
porque nestes dias eu vejo as coisas que afinal são as mesmas coisas de sempre
só que vejo-as de um outro ângulo vejo-as de outra forma
vejo-as com outros olhos e descubro-as nestes dias assim.
será da febre da gripe estranha?
dá-me para isto, em certos dias.
ainda bem que dá.

12/10/11

post it pequeno (3)

eu gostava de inventar contigo
a linguagem gestual das palavras de amor.

10/10/11

sebastian kim


"A única linguagem verdadeira no mundo é o beijo."
(Alfred de M.)


08/10/11

eyes wide shut

foi então que percebeu que há coisas que simplesmente têm de ser deixadas como estão.
foi então que decidiu transformar as palavras em histórias e os momentos em coincidências.
foi então que se obrigou a descer à terra, e se despiu do tudo que era aquilo.
foi então que transformou os olhos numa canção
e depois de os ter transformado numa canção
cantou-a repetida e sucesivamente até dela saber todas as palavras.
e depois de as saber de cor
guardou-as num qualquer sítio de si.
quem sabe um dia não dariam uma belíssima história.

06/10/11

apetecia-me

Apetecia-me ser livro para ter ainda mais palavras.

Apetecia-me ser água para ter todas as formas da água.
Apetecia-me ser luz para andar depressa ou para me apagar sempre que me apetecesse.
Apetecia-me ser um ditongo para andar na boca dos outros.
Apetecia-me ser língua para falar beijar e assobiar.
Apetecia-me ser a carteira de uma mulher para em mim caberem todas as coisas das mulheres.
Apetecia-me ser princesa por um dia, fada por um dia, demónio por um dia.
Apetecia-me ser o sapato de pontas de uma bailarina
a red carpet de Hollywood
o microfone de uma soprano que cantasse, da Traviatta, uma área da Violetta.
Apetecia-me ser caroço, coração, aplausos e calões.
Virgula, areia, agulha de coser e corpete.
Apetecia-me ser cabelo, sangue e suor de tanta gente
e de gente ser o ser e o não ser.
Apetecia-me ser o tecto da capela Sistina
ou uma estátua do Michelangelo.
Apetecia-me ser todas as coisas do mundo.
E depois voltar a mim outra vez
para poder escrever
todas as coisas que aprendi.


Há momentos em que me experimento fotografia.


No exercício estático da pose sei que não avanço: descubro que recuo.

Até ao ponto em que a imobilidade existe sem esforço
e eu coincido comigo mesma em tons de sépia
tingida de Passado.
 
 
by Joana Manarte
phot. by Pedro Tudela at http://instagrid.me/pedrotudela/

e o todo por vezes confuso sobrepõe-se cola-se molda-se ilumina-se e retrai-se
para que dele provenha o infinitamente simples:
(extrapolado, musical, orgânico e uno)
sem rosto de confusão.
phot. Tiago Silva

tenho em mim, na estante do meu órgão maior, um interruptor que me faz desligar coisas:
estímulos, sentidos, vontades e impulsos.
tenho em mim, nas prateleiras do meu ser,
uma torneira que me permite controlar a saída de coisas:
estímulos, sentidos, vontades e impulsos.
Mas tenho em mim, escondida na minha cabeça,
uma luzinha de aviso
que acende e apaga
e que vive ao sabor dos estímulos, dos sentidos, das vontades e dos impulsos.



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