30/12/11

the way you look tonight



Brindaram às 23h40. A cabeça tonta de champanhe, os pés levezinhos.
Ela pôs a tocar o “the way you look tonight” do Frank Sinatra:

“Some day, when I'm awfully low,
When the world is cold,
I will feel a glow just thinking of you
And the way you look tonight.”
Com as faces rosadas pendurou-se no pescoço dele e pediu-lhe numa vozinha infantil, no compasso da música:
- Fala-me ao ouvido com voz de cinema… estamos no Madison Square Garden....
Eu uso o vestido verde da Cyd Charisse e tenho o cabelo Chanel. E tu, o colete amarelo do Gene Kelly, calças brancas. Levas-me quase no ar. Embriago-me com os perfumes e os vestidos das mulheres, do americano dos homens, dos brindes com champanhe.
Sou leve nos teus braços. O meu perfume dança com o teu.
Canta-me uma canção ao ouvido. Pode ser esta, que agora ouvimos.

"Yes you're lovely, with your smile so warm
And your cheeks so soft,
There is nothing for me but to love you,
And the way you look tonight."

- Agora diz-me que gostas de mim. Diz-mo em inglês. Mas pára. Quero que mo digas parado, com ar de ator e no alinhamento ali daquele projetor de recorte… isso… mais para a direita.
Vês as nossas sombras no chão? Parece um filme. Estamos num filme. Nem que seja só por esta noite.
Vá, diz-me com o teu sotaque impecável. E com brilho nos olhos.
“Lovely, never, ever change.
Keep that breathless charm.
Won't you please arrange it ?
Cause I love you, just the way you look tonight. “


- Agora encosto a minha face à tua e dançamos mais um bocado.
Até o meu corpo ter aprendido o respirar do teu.
"Sempre acreditei que o amor floresce num certo afastamento,
que o amor, se queremos que dure,
exige de nós uma distância respeitosa.
Sem esse recuo necessário, sem essa capacidade de separação,
as particularidades fisicas do outro são frequentemente ampliadas
e os nossos olhos passam a vê-las de outra maneira - a ver fealdade onde viam beleza".



Siri Hustvedt in "Aquilo que eu amava"

chega de saudade

é bom sonhar.
se pudesse era aqui que passava o fim de ano.
2012
eu queria para este novo ano;

saúde para todos os meus
(incluindo gatas e peixe)
o meu livro pronto;
serenidade na minha vida;
momentos felizes; não é preciso que sejam muitos, o que importa é que sejam;
palcos para teatro, muito teatro
  risos e abraços
livros e palavras minhas e de outros.
e a capacidade de continuar a acreditar que sim,
que um dia chego .





29/12/11

a minha próxima aquisição




"Keel’s Simple Diary™ offers structure for those who don’t have time to wonder, making it easy to record life’s moments. It gives the pleasure of a quick response and the sense that no matter what’s wrong, more is right. This instant classic is filled with refreshing philosophy and original wisdom. Keel’s Simple Diary™ entertains, helps you focus and keeps you company."



http://www.simplediary.com/

the sound of music

as mulheres da minha família são as mulheres mais bonitas.

marta penter

hoje estou sem palavras.

28/12/11

27/12/11

as coisas que eu nunca conseguiria deixar de fazer

ouvir o "Fly me to the moon" pelo Tonny Benett

e pensar o que sempre penso quando ouço esta música.



bocadinhos do nosso Natal

phot. by pedro tudela at http://instagrid.me/pedrotudela/


foi assim o nosso Natal.
teve cor, luz, retratos,
caipirinhas e molho fervido
brindes e bolo de bolacha
esporão e "lança perfume"
brindes e "cebulório"
palavras boas e abraços felizes
risos, lágrimas, dança e silêncios,
olhos nos olhos, prendas, partilha e força.
frio, morno, quente, perfumes e sms's.
estivemos juntos e perto mesmo daqueles que estão longe.
foi assim o nosso Natal.
e por ter sido assim é que eu acho que somos abençoados.

special day

hoje é um dia cheio.
nascimento, intervenção cirúrgica, defesa de tese.
recuperação, esperança, impaciência.
hoje é um dia cheio
em que me desdobro para que um bocadinho de mim
possa estar em todos os bocadinhos dos outros.
daqueles que mais gosto.


Gostava de ter 3 interruptores em mim:

Um que desencadeasse música para me acompanhar nos meus dias, como acontece nos filmes; seria uma espécie de banda sonora da minha existência. Tal música pautaria momentos e estados de espirito; teria as hipóteses de fade-in e fade-out e ainda um botão de volume pois há situações em que a música se quer alta.
Um outro que desencadeasse luz como acontece no teatro e com a possibilidade de blackout e corte à faca. Luz de recorte, luz lateral e luz negra.
E o ultimo, de efeitos especiais, que me permitisse andar em câmara lenta, voar como o super-homem e transformar-me em personagens incríveis: o gato das botas, um pequenino do Senhor dos Anéis, a tenente Ripley do Allien, a Ilsa Lund do Casablanca, a Ginger Rogers com um vestido fabuloso.
Gostava mesmo de me passear na vida como se fosse num filme.

24/12/11

quarto crescente

you gotta get in to get out.

22/12/11

my funny valentine


phot. by Pedro Tudela at  http://instagrid.me/pedrotudela/


Esperou por ela todos os dias. Enquanto esperava o copo enchia-se e esvaziava-se.
Ele assemelhava esses dois estados aos estados da esperança que lhe residia no peito.
Havia dias em que a esperança corria como a bebida.
E ele, engalanado, sentava-se na mesa junto ao contrabaixista porque era a mesa que tinha a melhor vista da entrada.
E ele queria vê-la entrar uma vez mais, nem que fosse a ultima vez.
Quando ela entrava alguma coisa saía dele e de todas as outras pessoas; era como se a presença dela arrancasse de todos – animais, humanos, plantas e coisas inanimadas – tudo o que eles tinham de melhor: cor, alma, memórias, brilho, história.
Esperou por ela todos os dias. Enquanto esperava o copo enchia-se e esvaziava-se.
Nos dias em que lhe faltava a esperança secava a garganta e os olhos numa mesa do meio do bar, de costas voltadas para a entrada. O piano corria triste, ao longe e ele, aturdido com a saudade e a angústia, sentia o coração a amarfanhar-se.
Andava assim. De mesa em mesa. De bebida em bebida. O coração a dilatar e a encolher.
Até que um dia chegou à última mesa.
E, engalanado, bebeu o último copo, tamborilou na mesa e pela última vez o choro contido do “My funny Valentine”, pagou a ultima conta, deu o ultimo suspiro por ela e saiu para a rua como se fosse a primeira vez, desde há muito tempo.

blue note


Fechou os olhos e transportou-se para o Theater District.

Fim de tarde, frio de quase neve.
O trânsito em Nova Iorque, àquela hora, e as filas de carros e táxis amarelos assemelhavam-se a longos formigueiros.
Nos passeios acotovelavam-se turistas, mulheres elegantes, homens apressados, adolescentes agasalhados e velhotas curvadas.
A cidade parecia ter despertado outra vez de um sono profundo e fervilhava em cada esquina, rua, entrada de prédio, semáforo.
Absorveu os ruídos: buzinas, vozes com e sem sotaque, as várias línguas, tosses, os saltos dos sapatos nas calçadas, pigarrear, fungar, o ronco do metro debaixo dos pés, cantigas e beijos na boca.
Deteve-se nas imagens: néons, publicidade, gorros, fumo a sair do chão, mãos enluvadas, os prédios colossais, as decorações de Natal, as cabeças dos turistas a olhar de espanto, milhares de pessoas que se cruzavam na cidade que não dorme nunca, flashes de fotografias, fumo de cigarro.
Apertou as mãos nos bolsos e inspirou o cheiro dela, de Nova Iorque: o perfume caro das mulheres, o cheiro de pobreza de algumas pessoas, o escape dos automóveis e as lojas de conveniência, o café do Starbucks, o cheiro entranhado de arte, música, teatro, cinema, fama, o cheiro de uma mulher madura, vivida.
Voltou a abrir os olhos e viu-se no Porto, na sala da sua casa.
Na cara a marca de uma lágrima negra de eye-liner que lambeu a face enquanto a memória dela viajou até Nova Iorque para se abastecer de reminiscências a fim de conseguir sobreviver enquanto lá não voltasse.




in the still of the night

21/12/11

Cresci com o cinema na minha vida.


Cresci com o cinema na minha vida.
Com revistas e filmes na televisão. Postais e historias dos mais velhos.
Com as músicas que a minha mãe cantava e as musicas que o meu pai tocava nos cartuchos.
Com o glamour das estrelas de cinema a despertar-me precocemente, afinando o sentido estético de tudo na minha vida, desde as paredes da minha casa ao risco preto que ainda hoje faço nos olhos.
Cresci com musicais, canções imortais, vestidos esvoaçantes e coreografias da Broadway.
Lembro-me de ser muito miúda e de querer ter o cabelo como a Gilda.
Um vestido como o da Marylin e um corpete como a Jane Russell.
A tez branca da Jean Harlow e a elegância da Audrey Hepburn.
Os vestidos da Scarlett o’Hara. O corpo da Cyd Charisse e a irreverencia da Natalie Wood.
E fumava palitos para imitar a Lauren Bacall e cantava para espanadores do pó para imitar a Maria da “Música no Coração”.
E deitava-me na alcatifa do chão da sala e imaginava conversas com o Warren Beatty.
E via-me dentro do Vertigo ou a fugir dos Pássaros e via-me dentro de um filme noir a fugir da sombra de um assassino.
E beijava apaixonadamente as paredes à procura da boca do Cary Grant e do Montgomery Clift.
E via-me agarrada à cintura do Charlton Heston numa corrida desenfreada ou debaixo do guarda-chuva do Gene Kelly.
Ainda hoje forro as paredes do meu quarto com a beleza desses tempos e me emociono sempre que vejo um desses filmes.
Já não ponho toalhas na cabeça para fazer de conta que tenho o cabelo comprido ou fumo palitos a imaginar que são cigarros.
Mas, muitas vezes, me imagino a correr na erva verde de uma montanha da Áustria e, ao olhar para o espelho, levanto a sobrancelha como fazia a Vivien Leigh.
Cresci com o cinema na minha vida.
E tenho, na privacidade da minha vida, um bocadinho de todas estas mulheres.





há anos que não escrevia uma carta.
gostei do ritual.
já não me lembrava que é um gesto cheio de pequenos outros.
 
a todos, todos vocês,
um Feliz Natal.

as minhas agendas são episódios de uma grande série que é a minha vida.

o momento em que, todos os anos, compro a agenda do ano seguinte,
é um momento verdadeiramente inspirador e importante.
porque a compro sempre com um entusiasmo infantil. como se fosse uma surpresa.
coloco-a depois na árvore, com uma etiqueta que diz "da Lau para a Lau".
e quando chamam o meu nome, faço a festa, deito os foguetes e apanho as canas.
abro-a depois com cuidado maternal, folheio-a e cheiro o papel ainda virgem.
vou ao dia 25 de setembro para ver em que dia da semana faço anos
e anoto depois a verde os aniversários de todos aqueles que me são queridos.
e inicio, no 1º dia do ano,
a viagem pelo meu molleskine-agenda
onde anoto tudo: jantares, surpresas, lágrimas
consultas médicas
boas e más notícias
encontros e desencontros
estados de espírito.
as minhas agendas são episódios de uma grande série que é a minha vida.

20/12/11

you, yes you

esta noite vou dormir abraçada ao teu cheiro.


"O amor é um animal selvagem que chega até nós em silêncio.
Aloja-se em nós e ocupa cada ponto do nosso corpo, mais, toda a nossa vida. [...] No amor oscilamos entre tudo poder ser e nada poder ser, a impossibilidade de tudo. É este o amor, é esta a nossa vida.
Tu sabes, não sabes? Eu sei muito pouco, quase nada. ... Ver mais. De ti quero aprender tudo.
O melhor e o pior.
O resto é-me indiferente."

(Pedro Paixão)

19/12/11

"Sonasol Jazz" in EntreTanto Formação, 2011.

16/12/11

nespresso & conversas de gajas

Surreal a minha conversa com a menina da Boutique Nespresso.

Tal e tal quero o preto e o castanho claro e o escuro e ainda o descafeinado.
E já provou o castanho-chocolate? Não digo eu.
É muito bom diz ela. Claro que não é para comer a seguir a uma feijoada…
Eu rio e digo pois.
Ela chega-se mais a mim e diz: para beber assim a meio da tarde, com uma amiga, enquanto conversam.
Ou um amigo, digo eu bem de cima dos meus 43 anos.
Ela ri e diz pois.
Se bem que, continuo eu, com um amigo é melhor um copo de vinho.
Ela ri mais abertamente e diz pois pois com uma cumplicidade cheia de cafeina.
Se bem que, continuo eu, alguns mais vale tomarem chá.
Ela ri ainda mais abertamente e encolhe os ombros.
O mercado está muito mau, responde, de unhas vermelhas e fio de ouro ao pescoço.
Eu engulo em seco. É melhor ficar por aqui mesmo.
Ainda penso em perguntar-lhe : o mercado do café?
Mas eis que sai de trás do Balcão, entregando-me o saco polidamente, e dizendo como se diz no Porto em bom portuense:
- Boas Festas, tudo de bom.
Inclusive para o mercado, penso eu.
E saio, a rir com os meus caracóis.

15/12/11

dia e noite


Gosto mais de mim à noite.
Depois de se ter instalado mais um dia em mim.
Quando chego a casa e, antes de abrir a porta, deixo no tapetinho da entrada, tudo o que não quero levar comigo para dentro.
Gosto mais da minha casa à noite.
Com inúmeros pontos de luz espalhados.
Com a paz a respirar e a espreitar-me entre os móveis e as almofadas.
Gosto mais das minhas gatas à noite.
Depois de terem dormido todo o dia.
Encontro-as como crianças a quererem contar o que fizerem.
À espera do toque da minha mão e da minha voz a dizer o nome delas.
Gosto mais da minha vida à noite.
Gosto mais da noite.

quadradinhos com gente lá dentro


gosto de quadradinhos com gente lá dentro.
Conheço uma portageira em Ermesinde com a qual mantenho uma relação peculiar.
Não nos conhecemos mas rimo-nos imenso e falamos do tempo como se falássemos dos filhos.
Hoje está bom. Amanhã vai estar péssimo. Este frio faz mal aos ossos. Prefiro o frio à chuva.
Ela é muito engraçada. Tem cabelo de boneca, muito armado, lábios cor-de-rosa e olhos claros. Mãos sapudas e riso franco.
Quando se despede de mim diz-me sempre “tudo de bom”.
Certo é que o meu dia se torna muito mais simpático, depois de ver a senhora da portagem no seu quadradinho com o sorriso de banda desenhada, todos os dias, à minha espera. 


um dia destes transformo-me em puzzle
e depois troco-me as voltas e mudo tudo de sítio.
e ponho no sítio do coração a cabeça.

as coisas que eu nunca conseguiria deixar de fazer

viver no meu Porto.

(vista do Hotel Yeatman)

14/12/11

carta ao Pai Natal



Pai Natal,
Sou eu, a Lau.
Aqui vai a minha lista de pedidos para 2012. Não é muito.
Então:


Um ano de vida (pelo menos) para as minhas gatas (sendo que no próximo ano pedir-te-ei outro);
Muito palco, criatividade e noites bem dormidas.
Muito trabalho, livros, jantares e fins-de-semana.
Olhos bem abertos para ver o mar antes de vir trabalhar e para ler muitos livros.
Coração saudável para aguentar os filmes que me põem de rastos e os momentos que coleciono e que guardo na estante dos momentos, dentro de mim.
Uma agenda Molleskine preta (tamanho A4), mas embrulhada em plástico, para eu ter o prazer de desembrulhar.
Palavras para acabar o meu livro.
Mulheres que me inspirem para escrever (por isso preciso delas todas: as da família e as amigas..)
Uma garrafa de Moet & Chandon para a noite de passagem de ano.
As memórias que vão comigo de ano para ano, de todos aqueles que já não estão mas que me ajudam a ser o que sou hoje.
Os abraços (por mais, pelo menos, 20 anos) de todos os que amo. (tu sabes quem são, alguns estão no post do ano passado…); daqui a 20 anos peço-te mais.
Palavras faladas de todos aqueles que preciso para me apetecer tanto viver (tanto) todos os dias.
Palavras escritas (daquele que me faz sonhar).
Entretanto, amigos, amigos, amigos.
Música, paz, cafés em chávena fria, viagens grandes ou pequenas (não importa).
O cheiro e o colo da minha mãe. Os olhos nublados e o riso do meu pai.
Sol, praia, flores, tecidos, lápis, batôns, Martinis e 3C.
O não sei quê que lhe chame dos meus irmãos (Beti, Kiki, Tó, Rosi, Marisa, Sandra, Tiago, André, Zinha, PT, Paula, João Paixe).
E os laços apertados de todos os outros da família, todos, sem exceção.
E os nós indestrutíveis de alguns amigos (eles sabem quem são…)
Os leitores do meu Blog por mais um ano (que eu tanto aprecio e que já fazem tão parte dele)..
E vida. Para eu poder fazer felizes todos aqueles que gravitam à minha volta.
Vida para mim e vida para eles.

Não é pedir muito, pois não?

missão impossível 4

- … o primeiro é o que eu gosto mais. Gosto muito de o ver correr.

- ?
- O Tom Cruise. Corre sempre de uma maneira especial nos filmes da Missão Impossível. Já o vi correr noutros filmes e não corria assim.
- O que é que tem de especial, ver o Tom Cruise a correr?
- Não tem nada. Mas gosto.
- Gostas de cada coisa…
- Também gosto de ti.
- Gostas mais de mim ou do Tom Cruise a correr?
(risos)




oração às minhas duas irmãs

 


- prometes que não vais embora?

- claro. para onde querias que fosse?

Sobrepomo-nos em caracóis, palavras, pensamentos, cores, copos e vida.
Corre-nos no corpo vida e sangue comuns.
Respiramos em uníssono e velamo-nos no sono.
Somos carne, vento, fotografia, música.
Caminhamos longe mas com passos certeiros e iguais.
E quando nos olhamos o mundo fica mais pequeno que a menina dos nossos olhos.
Somos miúdas, mães, bonecas, terços.
Somos fruta, Espinho, mar e Viseu.
Somos Natal, cerejas, bordado inglês e Música no Coração.
Somos vintage, Rio, cheiro e suor.

- prometes mesmo que não vais embora?
- já te disse que sim. porque é que estás a pensar nisso?


Acompanha-nos uma orquestra comum que não se ouve.
E quando dançamos todos os palcos do mundo ficam mais pequenos.
Somos ventre, coisas miúdas, filhoses e Monte Velho.
Somos camélias, castanhas, rendas e enxoval.
Somos camisas de hospital, Nívea, Feira de S. Mateus e Caminha.
Espreitamo-nos com os olhos do coração e os ouvidos do amor.
E quando falamos às vezes falamos igual com as mesas pausas, repetições e trocadilhos.
Somos botas rasas, café em chávena fria, rímel e gloss.
Somos School, Hide in your Schell, Melodias de Sempre e Rita Lee.
Somos Fátima, infância, brincos de princesa e Cerelac.

- prometes que se fores embora me levas?
- claro. para onde querias que fosse sem ti?
- pertencemos ao mesmo sitio. hoje e sempre.

Caminho convosco e vivo em vós.
acabo de inventar uma oração que se chama “as minhas duas irmãs”
que vou dizer hoje e sempre.


13/12/11

graça santos


next time i fall

Sou estupidamente básica nos sonhos.
Diria mesmo absurdamente previsível.
Falam-me de um filme e sonho que sou a protagonista.
Falam-me de um sítio e acho-me nele a passear pelas ruas e a jantar em restaurantes.
Levo comigo para os sonhos o que sinto ou vivencio nos minutos imediatamente anteriores ao sono.
Levei-te comigo esta noite. Para dentro do meu sonho.
E nele dançamos e comemos as 12 passas.
Olhos nos olhos, pernas entrelaçadas, sorriso meio infantil.
E depois adormecemos.
Tu a tocares-me levemente nos caracóis e na face, a apertar-me em ti.
E eu, embriagada com a inevitabilidade de algumas historias.

12/12/11

vou inventar um caminho mais curto para chegar a ti.
sim, mais curto que a distância física e temporal.
mais curto que um abrir e fechar de olhos.
para que de vez em quando me possa esgueirar até ti
e te pedir ao ouvido que, desta vez, não deixes passar mais vinte anos.


encontraram-se anos depois no hallzinho das carruagens do comboio, na última carruagem,
a carruagem vinte e quatro e o certo é que ela ia apanhar o comboio anterior mas quando chegou à estação ele já tinha partido e então quando entrou na carruagem a porta não abriu logo e quando abriu ele estava lá atrás dela, da porta e não a deixou passar, a ela, antes ficou a olhá-la e os olhos dele empurraram-na para o pequeno cubículo do hallzinho da carruagem vinte e quatro e sem lhe dizer sequer boa tarde deu-lhe um beijo um beijo igual àquele que tinham dado uns anos antes quando se despediram e o beijo teve um sabor diferente porque a saudade sabe assim, sabe diferente e abraçaram-se depois e ficaram um bocado naquele abraço enquanto as outras pessoas passavam por eles com malas e crianças pelas mãos e sacos e coisas assim e então desfizeram o abraço mas só desfizeram o abraço porque o que ficou interrompido durante anos ficou refeito ali naquele momento e naquele momento tiveram a certeza que não se encontrariam ali daqui a uns anos simplesmente porque a partir dali iriam fazer todas as viagens de comboio juntos.

(in "crónica feminina")

09/12/11

as coisas que eu nunca conseguiria deixar de fazer

fazer tudo, com vocês.
falar, rir, chorar, brindar, brincar,
brincar aos "Amigos de Alex", dançar até doer as pernas,
dizer disparates e coisas sérias.
as mulheres da minha família são-me pele e são-me sangue.

o meu natal, as minhas gatas, a minha mãe e os teus olhos

Ontem fiz a minha árvore de Natal de pijama, robe quentinho e meias da serra.
A sala estava quente. Cheirava a sopa como acontece em todas as casas de família.
Na aparelhagem cantavam as ladies do jazz. E no cinzeiro fumava-se um cigarro sozinho.
As minhas gatas estavam sentadas, atentas aos inúmeros reflexos das bolas no teto da sala, seguindo com os olhos laranja todos os meus movimentos.
Ontem fiz a minha árvore de Natal branca com luzes que o meu pai me deu. E com a alegria que a vida me tem dado.
E pus corações, bolas, fitas e um laço vermelho. E de cada vez que pus tudo isso pensei em todas as coisas boas que tenho na minha vida. E o certo é que o fiz com um sorriso meio idiota nos lábios porque afinal ainda tenho muitas. E no fim sentei-me no chão da minha sala quente, com cheiro a pão torrado da cozinha, de pernas cruzadas, com uma gata de cada lado, a ver aquela amálgama luminosa e branca cheia de coisas mornas e boas de tão simples.
E cheguei à conclusão que as coisas mais simples são as mais especiais.
Por momento vi o palco numa delas. Vi os olhos enevoados do meu pai e vi o cheiro da minha mãe. Vi os caracóis das irmãs e vi a música das saídas com elas. Vi as mãos do meu irmão e vi os meus cadernos cheios de histórias. Vi férias, cinema, arte e muitos livros. Vi amigos, concertos, jantares e amanheceres.
Vi os olhos de gente das minhas gatas.
Vi os olhos de amor da minha mãe.
E vi. Os teus olhos de campo, trigo, feno, areia e verão.




gosto de me sentar nas palavras e ver passar a pontuação.

07/12/11

phot. by marino parisotto

Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!

(Álvaro de Campos)


a mulher que cantava sozinha

disse-lhe sem pausas sem pontuações disse-lhe ter inventado uma linguagem nova de gostar uma linguagem simples sem verbos sem figuras de estilo disse-lhe isso sofregamente com a voz entrecortada e às vezes esganiçada principalmente nas palavras mais agudas e disse-lhe isso com as mãos com os olhos com o corpo numa entoação delirante e acalorada e aquilo que ela dizia mais parecia uma cantiga uma cantiga que ela tinha escrito e sabia sabia sabia
que nunca a cantaria com ele
porque

só ela a iria cantar.



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