24/02/12

a bela adormecida




Tivessem-me perguntado nos meus tempos de criança o que eu gostaria de ser quando fosse grande e eu teria respondido: Princesa.


Uma princesa que caminhasse como se fosse a voar; que se mexesse como quem dança ballet, com vestidos esvoaçantes, tornozelos de boneca Cindy, cintura fina, lábios rubros e fios de ouro no cabelo.
Durante anos da minha vida brinquei a isto: às Princesas. E sentia-me de facto uma.
Roubava à minha mãe vestidos e pinturas e panos, sapatos de salto que me sobravam dos pés, anéis no mindinho e uma toalha na cabeça para fazer de cabelo comprido.
Durante anos da minha vida imaginei salas de espelhos, terraços forrados a estrelas cintilantes, salas de baile com orquestras inteiras, florestas com pássaros estranhos e arvores que falavam, pedras que se mexiam e minúsculas fadas cintilantes. Príncipes elegantes em cavalos brancos, bem tratados, que troteavam e riam como o dono.
E eu dançava com o príncipe, na clareira de uma floresta onde assistiam esquilos, bâmbis, doninhas, coelhos e pequenas criaturas sorridentes. E ele levava-me nos braços pela primeira vez como se tivesse feito aquilo a vida inteira e não falávamos; porque na altura eu era uma miúda e não saberia que palavras colocar na minha e na boca dele, mas dançávamos em silêncio, de mãos e olhos dados, como se os nossos pés fossem um só.
Durante anos da minha vida estimulei a minha imaginação e saltava para dentro das histórias que imaginava, enquanto punha a tocar na aparelhagem a música mágica do Tchaikovsky.
Durante anos da minha vida arrumei estas recordações, não porque quisesse, mas porque hoje tenho outras na minha cabeça.
E hoje, uma das princesas da minha vida (a minha mana Kiki) arrancou-me isto tudo cá para fora. E voltei a sentir-me uma Princesa no corpo de uma mulher adulta.
E tudo à minha volta falou, tocou, dançou, me inspirou e me trouxe, da infância, o cheiro, a voz, a cor, os animais falades e as pedras marotas. As fadas madrinhas e a clareira da floresta. Sim, aquela clareira onde tantas vezes dancei.
E senti-me lá. E dancei. E sabia tudo de cor.
Como se tivesse dançado ontem.



Obrigada, mana.

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