28/11/12

a mulher do porta-moedas de mortos

Tem um porta-moedas gordo, com papéis acumulados, de anos.

No porta-moedas gordo guarda fotografias tipo passe, dos que já se foram. Sempre que abre o porta-moedas tem que os beijar. Ao todo são 10. O marido, a cunhada mais nova, os pais, os sogros, a irmã mais velha, a vizinha que era quase como se fosse da família, o cão que viveu 12 anos, e a empregada da família que veio de casa da avó.
Aquilo dá-lhe uma trabalheira descomunal, porque às vezes está na fila de supermercado a meter as compras nos sacos e depois tem de pagar e depois tem que beijar os 10 retratos, ali à frente da menina da caixa. No metro também não dá muito jeito. Na feira, aos sábados de manha, menos jeito dá.
Neste momento tem mais mortos do que vivos, para beijar.
Já pensou em tirá-los a todos do porta-moedas. Os mortos.
Um dia fez isso mas sentiu-se tão culpada que nessa noite sonhou que todos eles lhe tinham vindo puxar os pés de noite, com sorrisos de filme de terror e cheiro a podre.
Voltou a metê-los todos no porta-moedas, ordenados por data de morte.
muitas vezes a quem deixará o porta-moedas, quando ela morrer.
Gostaria de fazer parte daquela galeria de ilustres falecidos, que, em carreirinha, exibem sorrisos vivos.
Gostaria que alguém beijasse a sua fotografia, nem que fosse maquinalmente, como ela faz.
Ou com medo que os mortos lhe puxem os pés, de noite.



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