29/02/12

Camille Seaman


There is nothing on this earth more to be prized than true friendship.

o beijo desconhecido em Times Square


Cruzaram-se e sem saber muito bem como,
beijaram-se, à cinema:

Ela meia de lado, ele a segurá-la pela cintura.
Ele com roupa de marinheiro aventureiro
Ela de vestidinho branco
Ele de chapelinho
Ela de pezinho de lado
Beijaram-se, pois, em Times Square
Sem se conhecerem
Sem saber se se voltariam a encontrar
Mas beijaram-se
Com os transeuntes invejosos
Com o ímpeto das coisas instantâneas
Com a gana daquilo que não se quer perder.


E recordaram pela vida fora
aquele beijo desconhecido
Por muitos e longos anos.

fevereiro é mês de charme (19)


corto maltese

27/02/12


na mouche


I believe in manicures. I believe in overdressing.
I believe in primping at leisure and wearing lipstick. I believe in pink.
I believe happy girls are the prettiest girls.
I believe that tomorrow is another day, and... I believe in miracles.

(audrey hepburn)



namora uma rapariga que lê


"Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.
Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler dentro da mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.
Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira por cima, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.
Oferece-lhe outra chávena de café com leite.
Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.
É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.
Ela tem de arriscar, de alguma maneira.
Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.
Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.
Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.
Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.
Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.
Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.
Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.
Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve."

(Texto de Rosemary Urquico, encontrado no blogue de Cynthia Grow. Tradução “informal” de Carla Maia de Almeida para celebrar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril.)

fevereiro é mês de charme (17)


clive owen
ainda bem que há sempre um outro lado das coisas.

24/02/12

lulu


somos feitas de música, de fadas, de princesas e roupas antigas.
temos nos cabelos notas de música, doces das avós, batons e sapatos antigos.
temos no coração a mesma batida
que nos faz gostar da mesma música
que faz com que o coração bata em uníssono.
e aprendemos o memo alfabeto: o do amor
da amizade incondicional
que vem da pele e do sangue.
e isso vê-se, quando cantamos a mesma música
quando partilhamos a mesma gargalhada
e quando respiramos ao mesmo tempo.
só espero respirar sempre ao mesmo tempo que tu.
porque só assim é que me faz sentido.
amo-te mana.

a bela adormecida




Tivessem-me perguntado nos meus tempos de criança o que eu gostaria de ser quando fosse grande e eu teria respondido: Princesa.


Uma princesa que caminhasse como se fosse a voar; que se mexesse como quem dança ballet, com vestidos esvoaçantes, tornozelos de boneca Cindy, cintura fina, lábios rubros e fios de ouro no cabelo.
Durante anos da minha vida brinquei a isto: às Princesas. E sentia-me de facto uma.
Roubava à minha mãe vestidos e pinturas e panos, sapatos de salto que me sobravam dos pés, anéis no mindinho e uma toalha na cabeça para fazer de cabelo comprido.
Durante anos da minha vida imaginei salas de espelhos, terraços forrados a estrelas cintilantes, salas de baile com orquestras inteiras, florestas com pássaros estranhos e arvores que falavam, pedras que se mexiam e minúsculas fadas cintilantes. Príncipes elegantes em cavalos brancos, bem tratados, que troteavam e riam como o dono.
E eu dançava com o príncipe, na clareira de uma floresta onde assistiam esquilos, bâmbis, doninhas, coelhos e pequenas criaturas sorridentes. E ele levava-me nos braços pela primeira vez como se tivesse feito aquilo a vida inteira e não falávamos; porque na altura eu era uma miúda e não saberia que palavras colocar na minha e na boca dele, mas dançávamos em silêncio, de mãos e olhos dados, como se os nossos pés fossem um só.
Durante anos da minha vida estimulei a minha imaginação e saltava para dentro das histórias que imaginava, enquanto punha a tocar na aparelhagem a música mágica do Tchaikovsky.
Durante anos da minha vida arrumei estas recordações, não porque quisesse, mas porque hoje tenho outras na minha cabeça.
E hoje, uma das princesas da minha vida (a minha mana Kiki) arrancou-me isto tudo cá para fora. E voltei a sentir-me uma Princesa no corpo de uma mulher adulta.
E tudo à minha volta falou, tocou, dançou, me inspirou e me trouxe, da infância, o cheiro, a voz, a cor, os animais falades e as pedras marotas. As fadas madrinhas e a clareira da floresta. Sim, aquela clareira onde tantas vezes dancei.
E senti-me lá. E dancei. E sabia tudo de cor.
Como se tivesse dançado ontem.



Obrigada, mana.

china girl


era pequena em tudo, nas medidas do corpo, na boca, no cabelo.
principalmente nas palavras.
também comia pouco, aos bocadinhos em garfadas tímidas.
andava num carro pequenino, numa condução miúda e prudente
e lia pequenos contos sobre as pessoas normais.
um dia encontrou um homenzarrão
alto e grande e forte e muito
mas mesmo muito maior que ela.
e isso fê-la pensar que o tamanho das coisas pode ser somente um ponto de vista
e o homem que era farto nas palavras
generoso em tudo o resto
ensinou-lhe uma medida acima
(uma medida para todas as coisas em que ela se achava demasiado pequena)
e juntos – a rapariga pequena e o homem grande –
construíram uma espécie de física, matemática, geografia, linguística,
onde partilharam verbos, voz,
vento,
e vida.

gosto que a praia me leve.
numa cantiga de sal e vento.




fevereiro é mês de charme (16)


joaquim fernandes bordalo

23/02/12

a miúda da crónica feminina


eram tempos em que o verão era uma estação quente em memórias.

deixava que a velha avó de cara de pó de arroz se abandonasse à sesta habitual e escapava-se para o ultimo andar da casa, rangendo os degraus debaixo dos pés, subindo as escadas com o cheiro a antigo.
e sentava-se perto da pequena estante onde se alinhavam, apertadinhas, as dezenas de exemplares de “crónicas femininas” que a avó colecionava desde sempre.
e com a perturbação habitual da curiosidade fora de tempo abria cada uma delas como se abrisse uma boca que quisesse beijar às escondidas. e sorvia, das páginas, as mulheres redondas, as roupas inatingíveis, as fotonovelas picantezinhas, os conselhos femininos sobre temas que para si eram ainda desconhecidos.
terá sido essa curiosidade gelada, a impressão de perigo instalada ao fundo da barriga, terão sido os seus 7 anos precoces e cheios de questões, terá sido esse o universo que definitivamente a arrebatara desde então para que, durante o resto da sua vida, as mulheres passassem a exercer sobre ela um fascínio sem igual.
terá sido por isso tudo e por muito mais que ela, por volta dessa idade, terá começado a ser aquilo que sempre quis ser: mulher.

i'm in the mood for travel

fazia uma malazinha
com roupa livros roupa livros
o meu dvf
a máquina fotográfica que me dá cabo da mona porque não a entendo
o mp3 com bossa e jazz e bossa e jazz
as botas castanhas confortáveis pseudo-huggs
umas calças de ganga que não apertem nada nada nada
o cartãozinho de crédito para compras na agent provocateur
comprava um bilhete na easyjet
e punha-me na alheta
para um destino qualquer.
porque hoje,
i'm in the mood for travel.

fevereiro é mês de charme (16)


james dean

custa a arrancar
mas depois de arrancar
ninguém me pára.

(recuso-me a escrever o novo "para" do acordo ortográfico).

Alexandra Pacula

22/02/12

phot. by Pedro Tudela at http://instagrid.me/pedrotudela/




os meus lençóis são quem melhor conhece o meu corpo.

a cadeira da cinderella

dizem que pôs aquela cadeira ali
à espera que alguém tivesse
a forma, o peso, a medida,
e a vontade de nela se sentar.

fevereiro é mês de charme (15)


caetano veloso

17/02/12

as coisas que eu nunca conseguiria deixar de fazer

 viver sem os 2 perfumes da minha vida:


"maitresse", da agent provocateur


diane von fustenberg

fevereiro é mês de charme (14)


daniel craig

16/02/12

shall we dance?


Danças comigo?

Não preciso que dances por aí além.
Que saibas piruetas, jetés, o passo ao lado do tango, o giro simples do cha cha cha.
Também não me interessa que saibas dançar foxtrot, rumba, salsa ou valsa.
Apenas me interessa que pegues em mim
me abraces
e me leves
na coreografia que quiseres.
Até o meu corpo ter aprendido o respirar do teu corpo
até o teu corpo ter aprendido a música do meu.

fevereiro é mês de charme (13)

 

15/02/12

this one is for you

fevereiro é mês de charme (12)


harrison ford

essa cena do amor


Escreveram-se milhões de páginas.
Compuseram-se óperas, operetas, sinfonias, canções.
Mas, na verdade, ninguém sabe com rigor definir essa “cena” do amor.
Essa maldição bendita que nos faz ficar estúpidos mas vigilantes.
Inconsistentes mas centrados.
Irrealistas.
Sobrevoando nuvens que nem existem.
Mas sempre prontos a cercar a realidade.
Não vá alguém estragar essa verdade mentirosa
essa verdade que nos engana porque queremos
mas que nos alerta sem pudor para o que não queremos acreditar.
Essa “cena” que nos faz dormir de janela aberta.
à espera que entre e se entregue como nós sonhamos
total e incondicionalmente.
Que ao mesmo tempo nos causa frio e calor
incongruente sem nexo
Essa cena que nos leva a mundos nos quais não nos sentimos confortáveis mas dos quais não queremos sair.
É um terramoto desejado.
Algo que nos deixa contidos por fora.
E a turbilhar por dentro.
Mas que com frequência nos leva ao pânico extremo.
Por medo de o perder.
Receosos que voltemos ao que éramos antes, quando não sabíamos até onde a vida nos podia levar.
É esse bandido que rouba aos ricos e aos pobres, que nos entrega tudo o que tem e nos exige aquilo que não sabíamos que podíamos dar.
Mas entregamo-nos, felizes, porque é isso que o amor provoca: uma felicidade extrema, algo que remete para a faixa da direita tudo o que nos prendia até então, ultrapassando tudo e todos.
Sem escrúpulos.
E quase nunca cumprindo limites de velocidade.
Impiedoso, esse “amor”,
Porque nos corrompe até à medula, mas ao mesmo tempo se revela bondoso quando nos eleva o sentido de honra, nos apura a auto-estima e nos confere dignidade.
Pode ser que um dia os dicionários definam essa “cena” do amor com objectividade. Quando já ninguém tiver capacidade de amar, talvez isso aconteça.
Por isso, é melhor as coisas continuarem como estão;
aquilo que seriamos sem ele.

de João Cari.

14/02/12

claire de lune

detinha-se ultimamente

nos instantes de certos minutos do dia
em que à sua volta… tudo parava.

quedava-se a contar os espaços entre os minutos que se arrastavam, nesses momentos,
e neles via cores, sabores, vento nos cabelos, passos languidos.
esses momentos eram mulher, homem, criança, bicho.
eram feitos de todas as coisas vivas
eram gerados e geravam outros e geravam inteiras famílias
que multiplicavam riso e perfeição.

ficava-se por aqueles momentos e neles ficava sozinha
porque a sua presença era somente a melhor companhia do mundo.
porque esses momentos eram momentos tão acompanhados… eram momentos com rosto
voz
volúpia
verdade
vento.
eram momentos em que a unicidade
era alfabeto, lei, dogma, paradigma.
eram momentos feitos de memórias crenças
cafés curtinhos
vinho partilhado
momentos reais outras vezes imaginados
tantas vezes revisitados por terem sido tão desejados.
mas eram-no sobretudo… queridos.
refugiava-se naqueles momentos abocanhando-os com a alma escancarada
até os sorver os possuir e com eles se engasgar… de felicidade.
e depois via-se ao espelho.

e nele via o reflexo de mulher preenchida
única
forte e pequena
frágil e colossal
com sorte com sangue com sabedoria
olhos e corpo de mulher que mesmo estando ali, tão somente assim, sozinha,
estava (derradeiramente) acompanhada.
(por aqueles momentos tão só seus).
 
http://www.youtube.com/watch?v=Q32jEWJaS6Y&feature=fvst

12/02/12

há dias em que no meu coração não cabe tudo.
hoje estou capaz de rebentar. porque me sinto feliz.

10/02/12

há dias assim

 há dias em que acordo com vontade de ser forte
decidida e assertiva.
voz grave, pontuação impecável.
não espero por nada, não espero por ninguém.
porque sou assim, quase sempre.
vou.
 há dias em que o morno dos lençóis me prende e entontece.
me resgata, num beijo apaixonado.
e por lá me fico, a namorar com os lençóis.
 há dias em que sou mel, limão, salsa e jasmin.
e por lá me fico, no jardim da minha cama,
a conversar com as estrelas do tecto
a ouvir segredos das fotogradias das tantas Lauras espalhadas pelas paredes do quarto.
há dias em que não quero decidir se vou.
dias em que preferia que decidissem por mim.
não porque não saiba para onde quero ir.
mas porque sabe muito bem.
ser levada.

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