31/07/12

gostava

Gostava de ver a minha gata Nina apaixonada.
Gostava de ter um olho de cada cor para combinar com os sapatos.
Gostava de ter um sabonete que cheirasse à infância.
Gostava de guardar o cheiro da minha Mãe numa caixa para sempre.
Gostava de morrer antes das minhas duas irmãs e irmão.
Gostava de gravar um disco de Bossa Nova com o Chris Botti a acompanhar-me.
Gostava de ter uns Louboutin pretos, simples.
Gostava de saber fazer, sem hesitação e pânico: pasteis de massa tenra, renda e pintar a óleo.
Gostava de publicar o meu livro de contos de mulheres.
Gostava de passar duas semanas seguidas a ver filmes e a ler.
Gostava de estalar os dedos e aparecer na praia de Ipanema ou em Central Park.
Gostava de caminhar sempre ao som de música e que esse caminhar por vezes fosse em câmara lenta.
Gostava de cantar o “the hills are alive”, uma vez, numa montanha.
Gostava de encontrar o que sei que existe e que, me faz, em certos dias,
escrever assim.

eu sou meia feita de cinema

Pronto, é verdade.

Há dias em que me assumo estranha. Muito estranha, aliás.
Hoje, por exemplo. Apetecia-me deitar no paredão de Matosinhos e ficar lá em pose de cinema à espera que um Tom Ford ou um Clint Eastwood me viesse buscar para fazer um remake inesquecível.
Sim, eu sei, que se me lá sentar arrisco-me a ficar roxa de frio.
Hoje também fazia uma mesa de uma só cor, co tudo a combinar, como faz a Sara Cwynar nas suas fotografias incríveis. E depois punha “New York Trio” a tocar.
E acompanhava, um copo de vinho, com o “My Funny Valentine” enquanto escrevia um texto estupidamente pequeno e amoroso no meu Moleskine acabado de estriar.
Ah, tudo isto, claro, com um risco de eye-liner e um batom vermelho.
Afinal não é impossível fazer cinema de vez em quando…

http://www.youtube.com/watch?v=ojVpZ3VFiYg&feature=related

domingo na praia

Domingo fui à praia de Matosinhos fazer praia.

Se nas outras praias consigo dormir quando fecho os olhos, aqui no Norte a quantidade de estímulos que me chegam aos ouvidos é demasiada para me deixar relaxar.
Começa logo pelos nomes que se ouvem.
Uma profusão de Vânias, Tânias, Fábios, Afonsos, todos eles ditos com um sotaque que os faz parecer diferentes entre eles.
Depois os guarda-sóis-tendas, guarda-sóis-barracas, tapa-vento-tenda, tapa-vento-e-tapa-tudo-e-mais-alguma-coisa, tenda pequena com minissaia. Esta disparidade de tecidos, tamanhos e arquitetura, faz-nos parecer que estamos na zona das tendas, da feira de Espinho ou no Souk de Marraquexe.
Depois as famelgas espalhadas pelas toalhas e não só. Os casalinhos casados há mais de 10 de perna entrelaçada, os casalinhos casados há menos de 10 com ele a por a mão no rabo dela, os casalinhos acabados de casar de mãozinha dada enquanto esturricam e ficam cor-de-rosa. E os casalinhos há mais de 20 com tendência para a discussão, separados pelo menos 2 metros: ele de óculos escuros a fazer que dorme e olhar para os nadegueiros das banhistas e elas sentadas de perna aberta a ler a Maria.
Depois,
os surfistas a entrar na água ante os olhos desvairados das meninas;
os solitários solteirões que arrancam uma nesguinha de espaço entre as rochas e ouvem rádios de pilhas colados aos ouvidos e fumam cigarros até às priscas, nos seus calções-cueca-justos-de-gola-alta;
as mulheres maduras que fazem praia sozinhas só pelo simples fato de quererem ficar morenas e chegam e estendem o pano indiano, untam-se como se fossem para o forno, colocam auscultadores nos ouvidos, protegem os olhos e deitam-se, importantes e cheias de tralha nas carteiras XXXXL, nos seus bikinis-um-pouco-pequenos-demais-para-a-idade;
os adolescentes acabadinhos de começar a namorar com as respetivas línguas num corrilório absurdo;
as mães e os filhos pequenos, ambos de chapelinho, ambos brancos como a cal, ambos com ar de quem ainda não fez a digestão, ambos com vontade de zarpar dali para fora, ambos de fato-de-banho-de-vários-números-acima, ambos com ar de quem come iogurtes e ambos com ar de quem gosta de ver o “A tua cara não me é estranha”.
E eu.
Numa nesguinha de espaço, de olhos bem abertos e de ouvidos bem atentos, a sorver, a filmar, a gravar.
Material para as minhas histórias:
Pessoas.

Marko Mase

Jamie Nelson

Hai Zhen


sara cwynar

"Accidental Archive", um exercício de cor e gosto.
Cooper Cole gallery in Toronto



madame peripetie

champion maneuvers
espelho meu
existe alguém
mas totó do que eu?
sorte ao jogo, azar no amor.

30/07/12

tou com vontade de ir fazer uma viagem até à costa.
phot. by heidi lender

quanto mais trato da casa mais gosto de cinema.
bora dar um passeio?
phot. by Tim Walker




vou propor que seja inventado
o dia mundial "do estado de espírito que não é carne nem é peixe".

Pierre Debusschere

kim holtermand


28/07/12

aviso à navegação:
a minha cabeça está em reconstrução.

Josh Adamski

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