28/12/12

bonne annee

que o meu ventre consuma, espante, aconchegue e persista.
que os meus olhos se fechem de ternura e de cansaço
que as minhas mãos se vertam em palavras e veludo
que o meu corpo vingue, divague, descanse e aconteça.

e que eu, que o que mais quero de mim,
são noites bem dormidas, auroras descansadas,
piano, livros, doces, pontos,
laços, estrelas, aplausos, nós.



desenhar-te


Desenho-te com a ingenuidade de uma criança que pela primeira vez pega num lápis.
Com curiosidade, com ganas de ocupar a folha toda.
Com falta de jeito. Com a boca seca. Com um nó na garganta.
O nó dos grandes acontecimentos.

Desenho-te com um brilhozinho nos olhos que o Sergio Godinho me emprestou.
Apenas porque, como sou criança,
posso demorar uma eternidade a fazer este desenho.
e posso aventurar-me a errar, pelo teu corpo.



eu, a garota, o viniius, a bossa e o jobim




Ouvir Tom Jobim e Vinícius, em geral e a Garota de Ipanema em particular,
Faz-me cócegas na alma,
põe-me macia e com voz de bossa
brasileira do Copacabana Palace
livro do “Real Gabinete Português de Leitura”
chope ao fim da tarde no Corcovado
olhos da cor da Baía da Guanabara
corpo de Rio;
põe-me em versos e solos de violão
e põe-me:
castanha e ainda mais encaracolada
e desperta
com minúcia, desejo e fidelidade
todas as letras, pontuações, verbos e metáforas
que tenho, escondidos,
nos recantos mais recônditos do meu ser.

rachel fee

gostava de lá voltar.
ao sítio, ao momento.

Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora.
Não chegaste antes dos cem.
Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora.
Não chegaste antes do um.
Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora.
Não chegaste antes dos dez automóveis pretos.
Nem antes dos quinze táxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas.
Nem antes das nove mulheres loiras.
 Nem antes das quatro ambulâncias.
Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.


(antónio lobo antunes)

escondo-me atrás de coisas simples,
para que me encontres.
Se não me encontrares, encontrarás as coisas,
tocarás o que minha mão já tocou,
os traços juntar-se-ão de nossas mãos,
uma na outra.

Yannis ritsos

Ruth Bernhard

robert wun

27/12/12

música no coração

Eu sei que dá todos os anos. Este ano por acaso não deu mas nós fomos buscar.
Eu sei que a maioria das pessoas acha uma valente seca.
Eu sei que há outros melhores.
Eu sei. Sei disso tudo.

Mas também sei:

Que continua a arrepiar-me do princípio ao fim, com o auge no momento em que o plano desce para a Maria, (que vem a subir) e abre os braços para começar a cantar:

“the hills are alive”

Que canto TODAS as letras – TODAS; eu, pai, mãe, manas, primas, sogra de mano, irmão da sogra de mano. Os gatos não cantam, mas a minha Alice adora o momento dos fantoches.

Que:
Adoro. Adoro. Adoro. Cantamos, batemos o pé e rimo-nos uns para os outros como se estivéssemos a cantar a tabuada.
Gosto, gosto, gosto, da sala dos espelhos, das árvores frondosas, dos 7 irmãos, das roupas, do carteiro, das freiras.
Encanta-me desde miúda a dança da Liesl com o Ralph. Tantas vezes a imitei nos sofás do salão da antiga casa..
Arrebata-me a Maria nos braços do capitão; a canção, a luz de veludo, o vestidinho dela, quase consigo sentir o toque do vestido, quase consigo sentir o perfume da noite.
Põe-me com lágrimas a correr como torneiras, o casamento dela, a entrada; quando era miúda tinha o desejo secreto de me casar assim, entrando sozinha na igreja, com as freiras do filme a cantar; tinham que ser as freiras do filme…
Enternecem-me letras, refrões, significados.
Cada musica, cada plano, guarda um meu momento, uma historia curta, uma lágrima especial que ainda recordo. Guarda memórias de uma mãe que me ensinou a amar este filme, entre outra tantas pequenas grandes coisas.

Não, não tenho vergonha de afirmar convictamente, e com um rubor característico das coisas que para mim me estão debaixo da pele, que gosto tanto do”Bonjour Tristesse”, do “Vertigo”, da “Morte em Veneza”, do “One from the heart”, do “Metropolis”, do “Eletrico chamado desejo”, como gosto do “Música no coração”.

Paciência. No meu coração e nos meus olhos cabem todos os filmes do mundo.
E sim, este filme é uma das “my favorite things”.

o meu natal

o meu natal foi um natal quente
com cheiro a rabanadas
a saudade e a memórias.
 nos natais fico sempre com olhos de miúda
e temperamento de garota.
apetece-me dar abraços apertados.
 nos natais apetece-me sempre ter prendas idiotas.
coisas que não servem para nada aos olhos dos outros.
nos natais apetece-me sempre pedir
que me deixem por mais um ano
as coisas que mais amo.
“Quando acordaram de manhã, na mesma cama, ela disse-lhe que queria ter um passado com ele. Não era um futuro, que é uma coisa incerta, mas um passado, que é isso que têm dois velhos depois de passarem uma vida juntos. Quando disse que queria ter um passado com alguém, queria dizer tudo. Não desejava uma incerteza, mas a História, a verdade.”

(afonso cruz in "jesus cristo bebia cerveja")


gosto de cantigas a quatro vozes.

juntando

perante a inevitabilidade
decidiram juntar tudo o que havia para juntar
e ainda
aquelas coisas que não lembram ao diabo.
mas o que eles mais gostaram de juntar foi o riso.
juntaram coisas importantes
escovas de dentes, chinelos de quarto,
toalhas do enxoval.
e foram felizes para sempre.

David Benoliel


Christophe Jacrot

new york in black

26/12/12


um dia atiro-me de cabeça.

my mind is a wonderland.

“When words become unclear, I shall focus with photographs.
When images become inadequate, I shall be content with silence."
(ANSEL ADAMS)

24/12/12

podes sentar-te. não preciso que te diga que o faças.
há coisas que não precisam de ser ditas.
senta-te e fica. pode ser?
se puderes, então, que seja para sempre, melhor.
no tempo em que o rosto dela se escrevia a preto e branco
o tempo escrevia-se lento, silencioso e com cheiro a filme noir.

23/12/12

Fernand Fonssagrives


Everyone sees what you appear to be, few experience what you really are.
(maquiavel)

22/12/12

"Que a gargalhada esteja sempre no meio de nós.", inês ferreira
 
(lau, inês ferreira, tânia, mariana, angelina, sofia)

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