04/01/13

os 3

Os três


Iam de férias os 3.
Trabalhavam os 3 a 30 metros uns dos outros.
Dormiam os 3 na mesma cama.
Comiam, os 3, as mesmas refeições.
Liam, lavavam os dentes, varriam o pátio e passeavam o cão.
Bordavam, folheavam revistas com displicência, adormeciam no sofá e tinham ataques de fúria, numa tríade perfeita, como a conjugação de um verbo numa só voz.
As suas três vozes eram uma toada só.
As opiniões uma única voz firme. As atitudes um espelho enorme.
Chamavam-lhes os 3 Mosqueteiros, os 3 Porquinhos. Cocó, Ranheta e Facada. Pai, Filho e Espirito Santo.
Gostavam os 3 do mesmo tipo de massa. Dos mesmos sapatos. Da mesma luz para as fotografias.
Da mesma praia. Do mesmo escritor.
Corriam às mesmas estreias. Incomodavam-se com os mesmos insetos.
Espirravam a mesma vogal. Gostavam dos mesmos preliminares.
Suavam dos mesmos poros. Tinham um sinal preto no mesmo sítio.
Um dia um deles apaixonou-se por uma pessoa que nenhum dos outros conhecia.
Essa pessoa que nenhum dos outros conhecia era uma pessoa que não era boa rês.
Como todas as pessoas que não são boa rês começou a fazer coisas pouco bonitas e pouco próprias.
E ele deixou-se levar por palavras bonitas e risos mansos; jantares gourmet e olhos profundos.
E os outros ficaram a vê-lo ir-se aos poucos: rompendo laços, abandonando hábitos e descurando cumplicidades.
Desfez-se a exemplar trindade em 3 tempos.
Desfez-se, sem dó nem piedade. E nunca mais ninguém viu aquelas 3 almas juntas, unânimes e cordatas.
E alguns houve que se espantaram e choraram e até lhes escreveram.
Porque aqueles 3 serviam de inspiração para alguns, de exemplo para outros.
Mas como tudo na vida passa, esta triste história de 3 também passou.

2 comentários:

© Piedade Araújo Sol disse...

e quase que eram meia dúzia.....

Laura Ferreira disse...

:)))

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