15/02/13

claire de lune

estou deitada na minha cama. no momento a seguir deixo de estar.
passo a estar numa sala vermelha. estou de vestido vermelho de balão. vestido de princesa, de tecido leve, que esvoaça.
tenho os cabelos mais negros que o costume. compridos. chegam quase ao chão. parecem ter vida própria.
tenho um gato com olhos de gente que não é nenhum dos meus; é mais negro, maior; está sentado aos meus pés.
ouço, ao fundo, um piano. há reflexos de água na parede.
há pedrinhas da praia no chão e há areia.
há coisas que não vejo, só sinto, que me provocam arrepios bons.
a sala vermelha tem coisas antigas. muitas. latinhas, rádios antigos, frascos de perfume, livros, botões, cestas, taças, lenços de mão, brinquedos, lápis, aviões de papel, batons secos, flores antigas, travessões e colares.
tem memórias em tom de vento e tem cheiros esquecidos.
vou rodando, rodando, de pés no ar, sem perceber como rodo.
entretanto percebo que são as tuas mãos que me conduzem, suavemente.
não as vejo mas conheço-lhes o toque, a temperatura e o perfume.
e a cadência, a forma como me guiam, nesta viagem.
já me fizeram uma igual. no fundo do mar.

e, durante o sono, guias-me.
pela casa vermelha, de vestido vermelho de balão, caracóis mais negros que o habitual. o gato preto segue-nos.
a água deve estar próxima. já vi peixes nas paredes.
não sei o que vou encontrar. mas não tenho medo.
afinal, as tuas mãos estão comigo.

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