08/03/13

as minhas mulheres


se eu pudesse, ai se eu pudesse

tornava menos difícil a vida de certas mulheres que conheço.
dava-lhes mimo, conforto e resolvia-lhe problemas bicudos
pagava-lhes as contas do Pingo Doce e do dentista dos filhos
fazia com elas madeixas no cabeleireiro durante horas
e ginástica para tonificar os músculos
comprava-lhes uma prendinha de vez em quando
principalmente naqueles dias em que as mulheres choram e ninguém sabe porquê.
tirava-lhes os pelos das pernas sem dor
areava-lhes os tachos
via com elas séries e filmes lamechas e chorávamos em sintonia
ria com elas até ficar sem ar
ouvia pieguices e queixas, sem abrir a boca
e com os olhos só com os olhos
levava-as pelos caminhos lógicos do raciocínio
ou pelas estradas conturbadas do coração
ou então
ouvia-as, tão somente.
(às vezes é só disso que elas precisam.)
se eu pudesse, ai se eu pudesse
tornava mais aprazíveis os dias de Inverno solitários de certas mulheres que conheço.
ensinava-as a rezar e a gostar de ver revistas
a fazer um bolo pequeno para dar para muitos dias
a fazer malha ou Arraiolos, no Inverno,
a tomar um banho de imersão à luz das velas, com uma taça de vinho
a ver um filme, sozinhas
a revisitar a solidão com memórias
e a falar com os objetos de casa.
ensinava-as a gostarem das suas casas, mais do que qualquer outra coisa.
se eu pudesse, ai se eu pudesse
aliviava, de certos papeis, muitas mulheres que eu conheço
que têm na vida, muitos papeis.
falava com os filhos adolescentes, a linguagem deles, para depois falar a sério com eles,
a linguagem de mãe.
aprendia com as mães dessas mulheres, a linguagem das pequenas coisas
para a ensinar depois às suas filhas.
velava as viagens dos seus filhos, de carro, à noite para que elas pudessem dormir
esfumava nas suas vidas os episódios menos bons
ensinava-lhes as cores da aurora, da primavera
apresentava-lhes o deus das pequenas coisas
pintava a morte de branco
e a saudade transformava-a num hábito bom
ensinava-as a escrever num caderninho de cabeceira
as coisas boas da vida, para nunca se esquecerem delas.
se eu pudesse, ai se eu pudesse
e com olhos brilhantes, que pudesse clonar,
para estar ao mesmo tempo e sempre,
com essas tantas mulheres
que são as mulheres da minha vida.
(elas sabem quem são).

12 comentários:

Belladonna disse...

Completamente sem palavras. Lindo demais. Parabens Laura!

Luis Eme disse...

és um anjo.

Laura Ferreira disse...

Obrigada Belladonna :)

Laura Ferreira disse...

Luis, e tu és um dos anjos do meu blog. :)

Anónimo disse...

belo hino à mulher. beijos, querida.
marisa

Anónimo disse...

...disses-te a vida inteira das mulheres da tua vida...vive, vive Laura, e quase nos basta a tua vida, as tuas palavras...vive Laura!

Anónimo disse...

..hoje..falas-te para mim...e simplesmente a serenidade permaneceu!

José Boldt disse...

Lindíssimo! como tudo que escreve.

José Boldt disse...

Lindíssimo! como tudo que escreve.

Laura Ferreira disse...

Obrigada a todos e a todas :)

© Piedade Araújo Sol disse...

elas sabem
e nós imaginamos quem são.

beijos


:)

Laura Ferreira disse...

:) beijinho grande, Piedade.

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