19/03/13

eu arrisco. e tu?

- estou a pensar ir ali fora um bocadinho; quando digo ali fora é fora mesmo, mas não te preocupes…devo voltar…é que, sabes, hoje acordei estranha; parece que tenho outra cá dentro, a querer rasgar-me a pele e gritar-se para o universo… ouvi-a ontem, essa “outra-eu”: tem voz sedosa e olhar aveludado e, sabes, arremessou-me para uma espécie de lugar que parece não ter retorno; nesse lugar sinto-me nua e exposta mas… tão eu… por isso te conto isto, enquanto dormes, porque sei que não tens paciência para estas coisas minhas que nem eu própria sei como são … sabes, falo mais contigo a dormir do que quando estás acordado… andamos desencontrados?... parece-te? a mim, sim… parecemos dois pés esquerdos… ou então…eu vou à frente e tu vens atrás, ou tu vais à frente e eu vou atrás e raramente vamos lado a lado e nunca nos apertamos… quero falar-te daquela tal voz, da “outra-eu”; nunca a tinha ouvido assim, sabes, agora fala-me ao ouvido e empurra-me, com as suas interjeições e altercações….e fala-me de pontuações, de pontos finais, de parágrafos… tenho tido, ultimamente na minha vida, muitas reticências, sabes?... não, tu não sabes, porque tu não me lês… …tenho vontade de virar as minhas palavras do avesso; de alterar a cor do que sinto porque o que sinto sempre teve a mesma: é níveo e, …mais: eu sou muito arranjadinha e certinha, como uma cómoda bem encerada, sem desarrumação que lhe dê vida e graça…eu quero ter graça e até mesmo desgraça, sabes, quero sair da minha cabeça, elevar-me dos músculos e dos desejos, quero cortar aquilo que não é de cortar e quero ler aquilo que é ilegível e quero meter a cabeça dentro da vida e afogar-me em animais e livros e barulho e pés e pessoas e quero, sabes, quero sorver a vida até me babar, até me enjoar de viver e quero fazer o tudo e o mais que tudo e o exagero…quero cores… o vermelho que arde e o negro que afunda…sabes, quero muito isto tudo e por isso vou ali fora um bocadinho fazer uma coisa diferente, nem que seja andar descalça na rua e isto é só o primeiro passo… quero dizer-te também que deixo, no frigorifico, o jantar feito, a lasanha que gostas, porque eu posso não vir jantar, aliás posso nem vir…não sei… vou ali fora…dorme bem, sim?
phot. by  Edouard de Paris /  (texto do concurso de escrita criativa, 16ª jornada)

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