31/05/13

a mulher que brincava às mães


Não tinha filhos. Andava pelos cinquenta.
Guardava na memória do corpo, nos esconsos do cérebro
(além de outras milhentas coisas)
as bonecas da infância:
as que embalara e batizara com nomes próprios, apelidos, alcunhas e nomes riquinhos;
aquelas com quem falara como mãe a sério;
e aquelas a quem tratara febres, gastroenterites e entorses no pé.
Volta e meia precisava de se sentir mãe.

E deitava-as na cama, em carreirinha
e brincava com elas
e falava-lhes da primavera e do mar e da família e dos livros que lia.
Nesses dias adormecia mais acompanhada.
Nesses dias adormecia mais feliz.

1 comentário:

© Piedade Araújo Sol disse...

há dias - noites
assim

:)

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