05/06/13

enquanto escrevia

phot. by brooke shaden

Enquanto escrevia, uma árvore começou a penetrar-me lentamente a mão direita.
A noite chegava com seus antiquíssimos mantos; a árvore ia crescendo,
escolhendo para domínio as águas mais espessas do meu corpo.
Era realmente eu, este homem sem desejos doutro corpo estendido ao lado?
Já não me lembro, passava os dias a dormir à sombra daquela árvore,
era o último verão.
Às vezes sentia passar o vento, e pedia apenas uma pátria,
uma pátria pequena e limpa como a palma da mão.
Isso pedia; como se tivesse sede.

Eugénio de andrade

2 comentários:

Mar Arável disse...

Neste vale de lágrimas

os pássaros não deixam de cantar

Laura Ferreira disse...

Os pássaros cantam sempre...

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