12/07/13

proximidade

A proximidade do rosto dele fazia-a mergulhar numa espécie de limbo, uma zona resguardada, do cérebro, envolta em tecidos antigos com rebordos de berloques e cheiro a flores do campo.
O hálito dele trazia-lhe frases pomposas ou apenas palavras ditas em sussurros. Palavras que, combinadas, formavam frases que faziam sentido ou então frases improvisadas como jazz muito rápido, mais velozes que o vento, que não faziam sentido nenhum, mas que faziam cócegas no coração.
Os olhos dele ainda lhe traziam retratos sem edição, daqueles que se tiram no momento e que no momento se tornam eternos precisamente porque guardam um momento que nunca mais se repetirá. Os olhos dele também tinham salpicos de água de mar e areia morna.
A proximidade do rosto dele no rosto dela era assim uma espécie de agulha a pousar num disco de vinil. Ou um borrifo de perfume no pescoço. Ou um sapato que parece ter sido feito para o nosso pé.
Essa proximidade era uma aliança de coisas várias, uma lista interminável de coisas.
De corais, suspiros profundos, frases de filmes.
Essa proximidade era assim tão serenamente próxima, que se sentia, mesmo a quilómetros de distância.



4 comentários:

Mar Arável disse...

... e assim se respira

quem és, que fazes aqui? disse...


Gosto, gosto muito!

Parabéns!

Beijo

Laura

Gasolina disse...

Proximidades que se guardam. cá dentro. para desembrulhar de novo em dias frios.

Laura Ferreira disse...

eu gosto de vos ver próximos daqui. :)

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