31/01/13

ora ora


ora sim ora não
ora tinto ora branco
ora muitos ora um só
ora eu oração
ora longe ora perto
ora filme ora cena
ora choro ora riso
ora sim ora sopas
ora moita ora carrasco
ora 8 ora 80
ora fundo ora raso
ora grande ora pequeno
ora mim ora outros
ora piu ora shiu
ora avança ora acaba.
ora porra.
oremos.

primavera

"bonjour t."

olhou-se no espelho e pensou eu até nem sou nada de se deitar fora embora tenha de momento duas odiosas borbulhas junto ao nariz, à aba direita do nariz, e porque são junto à abra talvez até consigam passar despercebidas, mas merda, as borbulhas arruínam qualquer rosto e remetem ,à crua realidade, qualquer mulher, e mesmo vestindo um vestido giro e calçando uns sapatos giros elas estarão ali sempre para me lembrar que eu sim, sou real, tenho borbulhas quando sofro, cai-me cabelo quando me angustio.
olhou-se no espelho e pensou hoje estou triste, apetecia-me umas horas de vida parecidas com cinema, apetecia-me um gelado em Paris perto do carrossel ou uma sessão de spa num hotel perdido nas montanhas e isto nem é pedir muito até podia pedir mais.
olhou-se no espelho e viu duas grossas lágrimas traçarem a ferro e fogo o caminho do rosto, serpenteando as borbulhas e indo mergulhar na boca, enchendo-a de sal e pensou pelo menos tenho lágrimas e o cinema também tem lágrimas e, enquanto isso no radio tocava uma melodia antiga que ainda a fez chorar mais.
e mais não disse e mais não pensou mas chorou, sim, chorou que se matou, em silêncio, sem espasmos, sem dar trabalho a ninguém. enquanto durou a musica.



phot. by Solve Sundsbo , "Hair Storm"

i have a storm in my head.
forever. liberty.
phot. by Eva Creel
phot. by Glen Luchford 

there is always a time for a good movie.

escrever

escrever sem medo, sem amarras, sem freios.

escrever com o sumo do ser-se e a baba da alma.
escrever a soluçar como se nos engasgássemos de vida.
escrever o que de dentro vem de fora.
escrever de ricochete, aos arranques, às guinadas.
escrever forte, cavernoso, sintético
escrever veludo, morno, franzino.
escrever, partindo, deslocando, unindo, centrando.
es. cre. ver.

30/01/13

A happy arrangement: many people prefer cats to other people,
and many cats prefer people to other cats.

(Mason Cooley)

céus

céus


bonjour

phot. by Noell S. Oszvald

bom dia com gatos, café curto em chávena fria,
com um livro começado e outro que nao quer partir,
e milhares de coisas para fazer.

29/01/13

blhac

não sei se me apetecia fechar em casa a ler um ano inteiro seguido
ou se me apetecia mudar radicalmente de vida.
a vida tem destas coisas.
e as nossas coisas têm a nossa vida.
por isso é que vou ao cinema agora, à sessão das 7 menos pouco.
para ver se me deixo destes desvarios mentais e se assento os pés.
afinal preciso deles para fazer as caminhadas.
para ver se me deixo destes desvarios mentais.
preciso do meu cérebro livre para me dedicar aos concursos.
e só me apetece escrever patacoadas que não me levam a lado nenhum.
nem mesmo a ti.

do simples e da ana teresa pereira, entre outras coisas

phot. by Masao Yamomoto

gosto do simples. do preto e branco.
do silêncio. dos monossílabos.
de água morna. de andorinhas portuguesas.
de bossa nova. de livros da ana teresa pereira.

porto gil vicente, e a minha mummy a dominar

ontem o fcp jogou.
o meu pai tem a mania que percebe de futebol.
mas a minha mãe dá-lhe cada baile que ele até bate mal.
isto porque a minha mãe lê jornais.
e sabe dos passes, das entorses, das viagens, dos cartões que ainda não chegaram,
quem fica no banco, quem fica amuado, quem tem brinco novo, etc.
ontem foi um fartote vê-la dizer os nomes todinhos dos jogadores que iam jogar.
ó Natércia, tu percebes lá alguma coisa de futebol.
depois o comentador confirmou.
depois o meu pai engoliu em seco.
depois a minha mãe piscou-me o olho.
depois eu ri-me à gargalhada. 

amén

prometo ser menina boazinha
ler 3 artigos económicos 2 deles em inglês
aprender a fazer um prato especial de cozinha que me demore, na cozinha, mais de 35 minutos
sem boazinha no trânsito e deixar passar as mulheres ressabiadas
ter paciência para as chamadas telefónicas para fazer inquéritos ao consumidor
ouvir a conversa de 2 velhinhas de olhos nublosos
ir ver o django, o paper boy
cortar 3 cm do meu cabelo
voltar a cantar elis no chuveiro
juntar dinheiro para o chile e para a patagónia
dançar muito no griffon's.
sim prometo.
prometo isto tudo.
amén.

apetece-me dizer outra vez bom dia.
apetece-me escrever até se esvaziarem os olhos das órbitas
apetece-me participar de uma próxima maratona blogueira
apetece-me ir jantar com as meninas do teatro no sábado
apetece-me continuar as caminhadas
apetece-me concorrer ao concurso da spa - teatro
apetece-me sair. sair do que tenho sido.
parir-me outra vez.
como se nascesse de novo.

28/01/13

pim pam pum

ora, 2 livros novos, acabadinhos de comprar.
por qual começo?

"o teu rosto será o último" de joão ricardo pedro

"se eu morrer antes de acordar" de ana teresa pereira

diamonds are forever


eu gostava,

eu gostava, de me cobrir de coisas leves
eu gostava, de me cobrir de cores de cores brandas
eu gostava, de me cobrir de vento e auroras
eu gostava, de me cobrir de película de cinema
eu gostava, de me cobrir de água e peixes
eu gostava de me cobrir sem vírgulas.
eu gostava
de me descobrir de ti.
vou pedir ao meu corpo licença
para viver em paz com a minha cabeça
durante meia dúzia de dias.
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libretação.
não posso adiar o coração.

antónio ramos rosa
tenho a minha confusão cheia de cabeças.
Cat peering through glass (Time Life Cover) by Nina Leen

27/01/13

26/01/13


The Downtown Lights


Une femme mariée, 1964 (dir. Jean-Luc Godard)

curta

podíamos fazer um filme pequeno
italiano, a preto e branco,
sem diálogos, sem grande história.
apenas que acabasse bem.

phot. by eric marrian
quero deitar-me em lençóis de música e palavras
numa almofada de cinema
e comunicar, através do sono, em imagens e sons
e pedir
que venha depressa a primavera.

25/01/13

eu gosto é de ouvir com olhos de ver.


o amor particular das grandes e das pequenas coisas

phot. by PEDRO TUDELA at http://pedrotudela.tumblr.com

talvez se lá deixasse uma marca, uma marca de dedos ou lábios,
talvez se a deixasse lá,
ele a pudesse reconhecer entre mil, dedos ou lábios, porque ela era assim, gostava de deixar mensagens pouco comuns, e sabia, sabia que ele era pródigo a decifrar indícios, aprendera-o, ela, com as pequenas coisas de uma existência recheada de particularidades e aprendera-o, ele, com as grandes coisas de uma existência particular.
assim, deixavam vestígios um ao outro, nas coisas mais díspares
e impensáveis, sabendo de antemão que um e outro as encontrariam,
quanto mais não fosse por causa do amor, de um e outro,
que era por si só muito particular.

confissão

completamente apaixoada e viciada nos contos da Lydia Davis.
ontem, ao ler o "acerto de contas", chorei baba e ranho.
i'll be here. forever.

gosto de encontrar diferenças. em tudo.
menos naqueles livrinhos da treta de encontrar diferenças.

in a manner of speaking.

pronto, apeteceu-me dizer "bonjour"..

24/01/13

porque há viagens que ainda faço, mesmo estando parada.

hands

as mãos dela tinham saudades do dedo mindinho dele.
gosto do que é sem que tenha obrigatoriamente de ser
e gosto do que mais gosto em certos dias que nem me lembro de gostar
e gosto de coisas das quais não lembro o nome ou o sabor
e gosto de tanta coisa que gostava de fazer uma lista das coisas que gosto.

Escondo-me atrás de coisas simples,
para que me encontres.
Se não me encontrares, encontrarás as coisas,
tocarás o que minha mão já tocou,
os traços juntar-se-ão de nossas mãos,
uma na outra.

Yannis ritsos

phot. by Chema Madoz

nem tudo é o que parece.

23/01/13

post-it pequeno em modo de diane von furstenberg

eu gostava que desenhasses com os dedos, no meu pescoço,
o cheiro do meu perfume.

phot by Zabriskie Point



ela gostava de colar, redesenhar, esculpir, apagar, pintar.
fazia isso com quase tudo na sua vida.
até com a própria vida.

post-it em modo de longe

eu gostava que os nossos corpos conseguissem conversar à distância.

a vida de Pi

Guardo, impressas na retina, certas imagens da minha vida. As mais importantes.

Guardo-as e guardá-las-ei até ao ultimo sopro; faço, aliás, tenções, se me deixarem, de as revisitar, uma a uma, enquanto me chamam lá para onde tiver de ir, muitíssimo contrariada.

É cada vez mais raro haver imagens que me deslumbrem e me entonteçam. Por vários motivos: por tanto que os meus olhos veem, por tanto que o meu coração sente, pelos constantes estímulos com que sou bombardeada, em forma de tanta coisa.

Quando isso acontece sinto-me abençoada graças ao que sinto, física e psicologicamente; é algo parecido com uma tempestade tropical, só que interna; cá dentro do meu corpo acontece uma coisa avassaladora que vai aumentando, aumentando, até me consumir como se me matasse; ressuscito, depois, inerte mas satisfeita e... diferente.
Ontem aconteceu-me isso. Com uma imagem do filme “A vida de Pi”.
Além de ter adorado o filme (estava em dia de ter o meu espirito-perfeitamente-preparado-para-coisas-belas), a fotografia e a música, o meu coração quase parou na imagem em que o pequeno Pi flutua na água límpida da piscina que lhe deu o nome, a Piscine Molitor Patel.

O filme podia ter parado ali.
O tempo podia ter parado ali.
Eu própria podia lá ter ficado.
E se lá tivesse ficado mil histórias me teriam saído dos olhos em forma de água.

Esta imagem, guardo-a perto de meia dúzia de outras que me fazem andar à procura das palavras certas para descrever o que sinto quando isto me acontece.

Esta vai direitinha para perto de uma muito especial: a primeira vez que vi manhattan, num taxi, a ouvir frank sinatra.

deep into me

ilust. by jen corace

e continua a apetecer-me
 mergulhar a fundo, em mim,
até me afogar.

22/01/13

imposto sobre o coração despenteado

devia tributar-te um imposto.
pelo tanto que despenteias a minha paz.

rendi-me

e o meu mini ipad já vem a caminho...

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