30/03/13

páscoa

a desafiar o tempo. a brincar com o ócio.

Andrew Lundwall


28/03/13

Jeanloup Sieff

há dias

em que me sinto inclinada para me por direita.
phot. by Noell S. Oszvald

I don't want realism. I want magic! Yes, yes, magic!
(Tennessee Williams)

e assim

 deixaram-se ir.
com uma promessa de não retorno.
mas com a certeza de haver o mar.
sempre.

sim

phot. by Shirren Lim

"Teria gostado de te levar comigo outra vez
mas era difícil recuperar as razões
para o desejo. E no caso de nos ter acontecido uma mudança
onde é que havíamos de procurar
os seus indícios? Estavas a dar de comer aos peixes
e eu só falava em livros."

Rui Pires Cabral

27/03/13

t e a t r o

um, dois, três. silêncio. ouve-se a respiração… nervosa.
a barriga às voltas. os músculos hirtos, as órbitas geladas. luz. corpos.
fluidez. simbiose. ritmo.
de repente a metamorfose do Teatro acontece e gera-se uma energia única, vital, que deambula pelo corpo, pelos recantos da cena, pela voz dos atores, pelas luzes, pelas palavras
eleva-se no ar como se fosse um fenómeno atmosférico. pega nos atores e atira-os violentamente para as cenas, outras vezes embala-os e põe-lhes nos olhos água.
o tempo passa num minuto. o maior minuto de todos.
o minuto da glória, o minuto da entrega.
porque o Teatro é glória. e é entrega.
porque nele, no Teatro cabem todas as palavras do mundo.
e porque todas as palavras do mundo, hoje, são poucas para caber nele.
porque hoje ele é infinitamente grande.

betty spencer

"aqui jazz", palavras loucas orelhas moucas. 2010

um brinde a nós

27 de março, dia mundial do Teatro.
saudades.

mesmo

apetecia-me rasgar o céu até lhe arrancar o sol.
nem que fosse à bofetada.

26/03/13

poema sem interesse nenhum

ela lembrava-se quando ele ficava horas a fotografar coisas
detalhes preciosismos
com ar inteligente.
enquanto ela se quedava a fazer coisa nenhuma
a olhar para coisas que não interessavam a mais ninguém
e nem sequer eram tema de conversa.

eram uma espécie de vidas paralelas, as vidas deles,
assim como as conversas e os interesses.
assim uns caminhos direitinhos, lado a lado.

poucas vezes se interceptavam ou cruzavam.
se calhar é por isso que ainda hoje sentem saudades.

ai

nunca mais chega quinta-feira. para ir.
comecei o "peito grande, ancas largas", caindo na asneira de o ler enquanto almoçava.
bad idea. o autor atira-nos logo, violentamente, com o parto de uma burra, com todos os pormenores odoríferos e viscerais da coisa.
gosto de livros assim, que me revolvem as entranhas.
nunca mais chega a sexta-feira. para ir.
o que eu quero é ir.

  

sal

Deve existir algo estranhamente sagrado no sal. Encontra-se nas lágrimas e no mar.

(Khalil Gibran)

heart me

art by colette saint yves

gosto de pessoas
com o coração cheio de flores.

22/03/13

a história de amor mais curta de sempre #1


Ela espirrou. Ele disse “viva”. Ela enrubesceu, riu e agradeceu.
Ele espirrou. Ela disse “santinho”. Ele piscou-lhe o olho, gargalhou e passou para a cadeira ao lado dela.
Passados seis meses estavam casados.

veins

Veins, ink on skin (2010), by Pipin Co.

deixo-me ir

phot. by Ronnie Boehm

com o hálito morno da primavera.
com os aplausos do público.
com o bill evans a despentear-me o ritmo cardíaco.
e os livros novos que tenho, para ler, em casa.



"We are all primary numbers divisible only by ourselves."

phot. by Elena Vizerskaya

Jean Guitton 

21/03/13

Thought of You - by Ryan Woodward

poesia é

poesia é hipotecar o coração, irremediavelmente, à escrita.
vou embora mas deixo-te o meu coração.
hipotecado.

poesia é

phot. by Nicholas Glazunov

poesia é o sabor que sinto na boca
depois de ter devorado uma refeição de palavras.



até ao dia em que a vemos

Sempre lá esteve. Mas nós nunca vimos.
Depois há um dia que vemos.
Aqueles dias que deixam cair uma pelicula que esconde realidades.
E depois vemos, então, a coisa.
E fazemos um esgar de espanto e deixamo-nos ali ficar a adorar a coisa.
E depois comentamos com vizinhos colegas de trabalho familiares estranhos
Ah sabes e tal eu nunca tinha reparado porque a gente anda tão coisa, sabes como é,
mas quando me dei conta até fiquei meia coisa.
Porque a coisa sempre esteve lá. Nós nunca a vimos.
Até ao dia em que a vemos.

primavera

sim chegaste. sim estou feliz.
sim doente. mas feliz.
até que enfim.

19/03/13

The Emergency Room at Sunset

The retired commander was upset. His room in the castle was cold, so was the room across the hall, and all the other rooms as well. He should never have bought this castle when there were so many other, cheaper, warmer castles for sale. But he liked the way this one looked—its stone turrets rising into the winter air, its main gate, even its frozen moat, on which he thought someday he might ice skate, had a silvery charm. He poured himself a brandy and lit a cigar, and tried to concentrate on other things—his many victories, the bravery of his men—but his thoughts swirled in tiny eddies, settling first here, then there, moving as the wind does from empty town to empty town.

mark strand.
Hoje acordei com o coração despenteado.

primavera

phot. by Sayaka Maruyama


já a ouço ao longe. já lhe sinto o perfume. já me soube, na boca, a flores e morno.
está para breve, a nossa primavera.

Sayaka Maruyama

eu arrisco. e tu?

- estou a pensar ir ali fora um bocadinho; quando digo ali fora é fora mesmo, mas não te preocupes…devo voltar…é que, sabes, hoje acordei estranha; parece que tenho outra cá dentro, a querer rasgar-me a pele e gritar-se para o universo… ouvi-a ontem, essa “outra-eu”: tem voz sedosa e olhar aveludado e, sabes, arremessou-me para uma espécie de lugar que parece não ter retorno; nesse lugar sinto-me nua e exposta mas… tão eu… por isso te conto isto, enquanto dormes, porque sei que não tens paciência para estas coisas minhas que nem eu própria sei como são … sabes, falo mais contigo a dormir do que quando estás acordado… andamos desencontrados?... parece-te? a mim, sim… parecemos dois pés esquerdos… ou então…eu vou à frente e tu vens atrás, ou tu vais à frente e eu vou atrás e raramente vamos lado a lado e nunca nos apertamos… quero falar-te daquela tal voz, da “outra-eu”; nunca a tinha ouvido assim, sabes, agora fala-me ao ouvido e empurra-me, com as suas interjeições e altercações….e fala-me de pontuações, de pontos finais, de parágrafos… tenho tido, ultimamente na minha vida, muitas reticências, sabes?... não, tu não sabes, porque tu não me lês… …tenho vontade de virar as minhas palavras do avesso; de alterar a cor do que sinto porque o que sinto sempre teve a mesma: é níveo e, …mais: eu sou muito arranjadinha e certinha, como uma cómoda bem encerada, sem desarrumação que lhe dê vida e graça…eu quero ter graça e até mesmo desgraça, sabes, quero sair da minha cabeça, elevar-me dos músculos e dos desejos, quero cortar aquilo que não é de cortar e quero ler aquilo que é ilegível e quero meter a cabeça dentro da vida e afogar-me em animais e livros e barulho e pés e pessoas e quero, sabes, quero sorver a vida até me babar, até me enjoar de viver e quero fazer o tudo e o mais que tudo e o exagero…quero cores… o vermelho que arde e o negro que afunda…sabes, quero muito isto tudo e por isso vou ali fora um bocadinho fazer uma coisa diferente, nem que seja andar descalça na rua e isto é só o primeiro passo… quero dizer-te também que deixo, no frigorifico, o jantar feito, a lasanha que gostas, porque eu posso não vir jantar, aliás posso nem vir…não sei… vou ali fora…dorme bem, sim?
phot. by  Edouard de Paris /  (texto do concurso de escrita criativa, 16ª jornada)

all we need is.

visto-me de noite

phot. by bill brandt
 
tudo calminho, no devido lugar.
os ruídos, a respiração dos objetos
o ressonar dos meus cabelos
o zunir do silêncio nas paredes.
tudo no devido lugar, calminho.
as minhas gatas a respirar minutos
os meus cabelos a ressonar de preguiça
o zunir da minha cabeça
no silêncio dos objetos.
e eu, friorenta, sem pinturas
de pés cansados e pijama da bela adormecida
à espera de adormecer em mais uma história
que sei - me vai levar a ti.

18/03/13

NÃO

isto não é uma mensagem subliminar.
isto é só para dizer que já decidi para onde vai ser a minha próxima.

hoje acordei de costas.

13/03/13

tenho a confusão cheia de palavras.

gosto de descascar o tempo.

phot. by benoit courti

até me esquecer dele.

mãe, ó mãe

dás-me colo? tou doente.
preciso de ti. sim?

12/03/13

para a minha mana Kiki que faz hoje 50

Ela é pequenina. Sempre foi. Quer dizer. Em bebé tinha bochechas que apetecia roubar. Trincar. Guardar para todo o sempre rente ao coração.

Mas sim. Tem algumas coisas pequeninas. A altura. Os olhos. O carro. Os sapatos.

Tem tanta coisa grande…

Como é que se escreve um texto, com nexo, para ti?

Lembras-te quando me tiraste sangue pela primeira vez? Fizeste uma borrada completa. O sangue saltava por todos os lados, esguichava da seringa….

Comigo é igual. As palavras saltam por todo o lado. Esguicham do coração.

Contigo é assim. É uma questão de coração.

Que te digo, Lulu? Kiki… Que te digo?
Acho que já te disse tudo. Todos os dias te digo.
Porque todos os dias tenho noção – e agradeço – ter-te comigo, entre nós. Ter o mesmo sangue a correr desvairado nas veias. Ter os mesmos caracóis. Ter a mesma música no coração.

Contigo é assim. É uma questão de música. No coração.

Todos os dias agradeço:
escrever palavras contigo: felicidade. Caminho. Família. Futuro. Amizade.

Lembras-te? Do postigo da casa das Antas? Da cor do entardecer através dele? Da torta de morangos no dia seguinte? Do relógio da copa que hoje mora em casa da Ró? Do barulho dos matrecos na Feira? Do cheiro da nossa mãe?
Das coisas pequeninas que a nossa mãe nos ensinou a amar?

Que te digo, Lulu? Kiki… Que te digo?
Que quero ficar sempre perto de ti. Sentir o cheiro da tua pele e conhecê-lo entre milhões de cheiros. De sentir o arrepio da familiaridade. De adivinhar sombras nos teus olhos e partilhar sorrisos.

Lembras-te? Da risota antes de adormecer, nas Antas, nas camas de princesas.
E das conversas tão pouco princesas….

Quero dar-te a mão e quero pedir-ta.
Quero ajudar-te a subir estádios e ajudar-te a recuar, por vezes.
Quero que faças o mesmo comigo.
E quero, quero muito:
Fazer trocadilhos, beber minis em Caminha,
ter a minha pele morena ao ritmo do moreno da tua
ver coisas, muitas coisas, o mundo tem tanto, e os nossos olhos conseguem arrebatar tanto…

Lembras-te? Já demos tantos abraços na vida. Tão diferentes. Um dia escrevo-te uma história sobre os nossos abraços.

E quero, quero muito:
Contar Natais, manifestações, bifes, copos
compras, exposições
decisões, partilhas,
lágrimas, risos.
Quero estar sempre lá. Como um lar.
Quero estar sempre rente. Como um sinal da pele.

Lembras-te? Da nortada em Espinho, das estrelas no Algarve, do cheiro do Rio, dos barulhos no Alentejo, da respiração pequenina do Xico, bebé, no berço?... Gosto de colecionar ruídos contigo. Ruídos de vida.
A música da nossa história.

Como é que se escreve um texto, com nexo, para ti?

Misturo tudo. Tenho o coração a mil, o amor a ferver, a inquietude dos momentos em que se dizem coisas importantes.

E quero, quero muito:
Que a tua vida tenha sempre tudo o que conquistaste, por ti:
Musica, sol, honestidade, persistência, coerência
e pessoas, muitas pessoas, por perto;
as que te amam e que te merecem .
E paz. Aquela paz que conseguiste e que tem a cor do entardecer de Caminha, no Verão,
aquela paz despenteada, como as tuas sobrancelhas,
aquela paz congruente como o piano sólido do “Hide in your Shell”…

Eu serei uma dessas pessoas, que te seguirá aqui e seja onde for.
Seguir-te-ei até se acabarem os tempos.
Reconheço o teu cheiro, lembras-te?
E não posso, como poderia, viver sem um braço…

Gosto de romãs, manhãs, talismãs e irmãs.

11/03/13

A história de amor que não aconteceu

A mulher era séria demais e nunca se ria.
O homem era muito risonho, até demais; ria em situações despropositadas e inusitadas.
A mulher era sisuda e vestia preto e tinha cabelo muito sério e ar cinzento.
O homem era levezinho, vestia cores brandas e tinha cabelos longos e fortes e saudáveis e viçosos.
A mulher era azeda e não ia além de um adjetivo.
O homem era lamechas e doce e queridinho e usava palavras terminadas em “inhos” e “inhas”.
Talvez por serem assim tão diferentes nunca tenham reparado um no outro, mesmo que se tenham encontrado.
E talvez por estes dois motivos nunca se tenha escrito uma história de amor sobre eles.
É pena.
As histórias de amor deviam estar ao alcance de todos.
Mesmo daqueles que são mais diferentes.



a história mais curta do mundo

peço-lhe que fique, que se acomode, que deguste e que não me incomode.

soneto do amor.

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

josé régio
“Tu és feita da matéria dos livros.”


(ana teresa pereira)

phot. by ralph gibson

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