31/05/13

coisas e vento

phot. by Kourosh Adim

Diz-me o vento
coisas alvas,
coisas de olhos
coisas e coisas
muitas coisas.

Diz-me o vento
que depois da tempestade
vem a esperança.

diz-me que música vês nos meus ollhos.

a mulher que brincava às mães


Não tinha filhos. Andava pelos cinquenta.
Guardava na memória do corpo, nos esconsos do cérebro
(além de outras milhentas coisas)
as bonecas da infância:
as que embalara e batizara com nomes próprios, apelidos, alcunhas e nomes riquinhos;
aquelas com quem falara como mãe a sério;
e aquelas a quem tratara febres, gastroenterites e entorses no pé.
Volta e meia precisava de se sentir mãe.

E deitava-as na cama, em carreirinha
e brincava com elas
e falava-lhes da primavera e do mar e da família e dos livros que lia.
Nesses dias adormecia mais acompanhada.
Nesses dias adormecia mais feliz.

a mulher que não era bem qualquer coisa

dizem que tinha uma pele que não era bem pele
e um cabelo que não era bem cabelo
um corpo que se afastava desse conceito tão normal.
a mulher era antes uma associação de coisas
era muitas, ao mesmo tempo:
era pele de quadro a óleo a lembrar Rafael,
era cor de personagem de história dos irmãos Grimm
era corpo de luz de cinema e pose teatral.
a mulher que não era bem humana mas antes uma associação de coisas
tinha um rosto que ninguém viu
tinha um nome que ninguém chamou.
mas sobre ela escreveram-se muitas histórias.

desnudando-me...

30/05/13

cinema 3

"for me, cinema is not a slice of life,
but a piece of cake."

alfred h.

cinema 2

"photography is truth
cinema is truth
twenty-four times per second"

Jean-Luc G.

cinema 1

"cinema is the most beautiful fraud in the world".

Jean-Luc G.

todos os caminhos vão dar aqui.

29/05/13

conversas

falavam com as mãos.
e por isso nunca se zangavam.
porque nas mãos não existem pontos de exclamação.
ou pontos finais.

flores again

gostava de ter uma flor a fazer de olhos
e pétalas a fazer de pestanas.

e que o meu choro fosse uma eterna primavera.

cada um faz o que pode. e a mais não é obrigado.

phot. by Jurgen Klauke

flores

gostava de ter um caminho de flores.

28/05/13

Dorian Leigh photographed by Milton Greene in 1950

os amantes improváveis


a menina que vivia no livro
apaixonou-se pelo rapaz que vivia no quadro.
não chegaram a ter uma história de amor
porque ela era feita de papel
e ele era feito de tinta.

invejo

 by Txema Yeste

invejo olhos que nunca se borratam
porque não choram.

invejo

invejo os pequenitos porque podem (quase) tudo.
pelo menos borrifar-se para a máquina da roupa, a comida no frigorífico,
e a conta da Zon.

27/05/13

o filme mais curto sobre sede e cenas assim

Um dia desligaram-lhe a torneira da ternura e da emoção.
Como nos filmes ela mudou de plano.
Como nos filmes encontrou uma amiga que a ajudou a limpar a casa e lhe passava para a mão lenços de papel.
Como nos filmes emagreceu e ficou ainda melhor.
Entretanto o filme acabou, como todos os filmes.
Pouco tempo depois ela morreu de sede.

who's gonna match me?

há uma cantiga em surdina
há brincos de princesa no jardim
há carreiras de familia de formigas unidas, igual à minha.
há uma porta que range com o som de antigamente
há uma voz que ri o que já não pode ser gargalhado.

há doce de abóbora
há cheiro de líquido de limpar pratas
há supertramp a tocar
há o carro do pai a estacionar na garagem
há barulho de agulhas a bater; a avó tricota na janela, ao sol.

há uma cadela de pelo encaracolado que nos ama a cada dia que passa
há irmãos que riem, leves
há uma mãe com voz e coração macios
há um pai com voz forte e segura
há canções dos tachos e dos pratos e da água na cozinha
há primas estendidas na nossa vida
que partilham somam e seguem (sempre connosco)
há livros nas estantes, flores nos canteiros,
piadas nas palavras e esperança nos olhos.
há um tempo que escorre felicidade
e se evapora em momentos felizes.

há tanta coisa que já não há.

e há: a minha memória, que nunca deixará.
de haver.

sim

bonjour..

já que não pode ser no sítio habitual...
que seja, pelo menos, aqui.

24/05/13

protege-te, do que não te faz bem.

phot. by Desiree Dolron

cinema, existe onde cada um de nós quiser

que

Que o breve
seja de um longo pensar

Que o longo
seja de um curto sentir

Que tudo seja leve
de tal forma
que o tempo nunca leve.

(alice ruíz)



22/05/13

sleep tight

com borboletas na barriga
nas paredes do meu quarto
e na parede do meu coração.

be - don't try to become.

(osho)

Michael Papendieck

pode-se?

mudar a banda sonora de uma vida?

21/05/13

diálogos impossíveis

- apaga a luz.
- apaga tu.
- mas ela está ao pé de ti.
- mas se fores tu a apagar tens que passar por cima de mim.
 
(risos)
 
- gosto de ti.
- muito.

Rytmus

   Josef Tichý, 1970


mimos

dá-me mimos pequenos com tinta ou com ar
com música ou imagens
deitadinho no sofá ou a conduzir no meio do trânsito.

dá-me mimos lapidados, com perfume, como sonetos elegantes
dá-me mimos com dedos nos cabelos ou nas páginas dos livros.

dá-me mimos cinematográficos
ou mandados em bilhetinhos de contas do super mercado.
dá-me mimos de repente e acorda-me com mimos.

dá-me mimos no Primavera Sound
e no Príncipe Real.

Dá-me mimos camuflados, empolgados,
enamorados e estouvados.

mas por favor.

nunca deixes de mos dar.

solitude

estar sozinha comigo é estar tão bem acompanhada.

é da confusão

que se faz a união.

20/05/13

motel

rir é o melhor remédio

a pele

phot. klaus kampert

A pele vive
e pulsa
a pele gosta

(maria teresa horta)

18/05/13

que o Teatro esteja sempre connosco

obrigada Júnior,
obrigada a nós.
troia, Hécuba, Taltíbio.
obrigada pés cansados
corações doridos
obrigada.
suor, esforço, fogo, ardência.
desenhos, vida, perda, morte.
desafio, voz, uníssono, mantra.
obrigada horas, minutos e segundos,
cabelos, pés e respiração.
que o Teatro esteja sempre connosco.
 
"ele está no meio de nós".
 

17/05/13

agora sim

começo a escorregar para qualquer coisa.
que já sei o quê.

Keichii Tahara

Corps, 1985

that's it.

Natalie Wood photographed by Ralph Crane for Life Magazine, 1956

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