31/07/13

apetecia-me

apetecia-me um abraço com:
água quentinha do Algarve
areia morna da Falésia
uma piada do meu pai
e os braços cheios de tempo da minha mãe.

cor

Não é assim. É exatamente ao contrário.


A cor é um artifício. Como o batom vermelho.

Como o risco preto nos olhos e o óleo para caracóis mais que perfeitos, ainda mais perfeitos que o verbo.

Não é assim. É exatamente ao contrário.

Há dias em que, obrigatoriamente, tem de haver cor.

Ian Velichko

sim

é o que (ainda) guardo, teu,
mas entrelinhas das minhas palavras.

30/07/13

porquê?

porque é que a smooth fm passa 10 vezes por dia o rod stewart?
porque é que algumas pessoas que me circundam falam em temas tão interessantes como um bebé que nasceu, na alemanha, com 6 kg?
porque é que eu não nasci no Brasil e não fui vizinha da Elis e do Tom?

dia de cão

vou mandar um e-mail à minha cama a pedir-lhe que me venha buscar.

greve

as imagens do meu blog e da minha cabeça hoje estão em greve.

corpo a corpo


a minha razão anda em luta aberta com a minha emoção.
ontem tirámos olhos, fígados e insultámo-nos do piorio.
mas já sei quem ganhou.

29/07/13

teatro

O que é que eu gosto mesmo mesmo no teatro? É a permutabilidade do corpo, o engenho dos músculos, a linguagem desenhada da respiração. É a entrega mesmo quando o cansaço parece abafar o resto; é o descortinar de um som corporal que nunca tínhamos ouvido, é a lembrança que a memória das personagens vai deixando impressa em nós, a imensidão de vozes que temos cá dentro, os caminhares e os esgares, os tiques e a beleza silenciosa.

O que eu gosto mesmo mesmo no teatro é poder ser-nos em bocadinhos, lenta e intensamente; é sermo-nos com verdade e despudor. Sem ter que agradar. Sem medo que  julguem.

Porque no teatro somos aquilo que somos e tornamo-nos naquilo que nunca pensámos ser.



diamonds are forever.


não digas nada. nas fotografias nunca se fala.


28/07/13

para A.

Esta é uma carta de amor.
Esta é a carta de amor que te escrevo hoje, a carta possível. Com as pausas que conheces. Com o baixar de armas, com os suspiros e o brilho dos olhos. Com as reticências e os avanços. Os recuos.
Os arrependimentos e as promessas que não se cumpriram.
Esta é uma carta pequena, escrita hoje. Podia escrevê-la daqui a dez, vinte anos.
Esta carta deixa-me, aqui, na minha zona de conforto, e lança-se na noite, ao teu encontro. Quem sabe um dia a lês. Quem sabe ficará perdida no meio destes milhares de posts.
Mas esta carta, embora não pareça, é uma carta de amor.
É uma carta de amor para ti. Para os teus olhos, as tuas pestanas, as tuas mãos cruzadas, o teu dedo médio que tem aquela coisa na pele. Esta carta é para o teu sono inquieto, para o teu cabelo branco nas têmporas. Para o teu riso sonolento e a postura que endireitas, todos os dias da tua vida. É para o teu cansaço, a tua mente brilhante, a tua vivacidade, o teu riso e para aquela coisa maravilhosa que fazes. Aquela. Tu sabes.
Esta carta é minha. De quem te conhece talvez como ninguém te venha a conhecer. Esta carta é dos meus risos, das minhas inseguranças. Do meu amadurecimento, da minha vida, da minha história. Esta carta é dos nossos mergulhos, das barbatanas de mãos dadas, do cordeiro de leite. Esta carta é dos livros que me mostraste e dos tantos sonhos em que me levaste. Esta carta é para te dizer que estou e estarei grata. Sempre. Em todos os dias da minha vida.
Esta carta é escrita sem cuidado, sem jeito, sem preocupações.
Sobretudo sem esperança.
Mas, esta carta, é escrita com o meu Amor.

"you don't make a photograph just with a camera. you bring to the act of photography all the pictures you have seen, the books you have read, the music you have heard, the people you have loved."
(a.a.)
vinicius de moraes

família



hoje foi dia de família.
hoje foi dia de saudade, de coração pequeno.
hoje foi dia de abraços e amor.
hoje foi dia de família.
dos meus maiores amores.
(e hoje foi dia de sentir a tua falta.)

26/07/13

tu e eu

nos tempos em que o nosso tempo caminhava ao mesmo tempo

eu queria tornar-me à força uma mulher
enquanto tu me olhavas, com olhos de menino.

diamonds are forever

billy kidd

25/07/13

Estou pra isto. Prá escrita.

Estou pra isto. Prá escrita.
Tropeço numa ideia, estatelo-me numa palavra.

Arroto frases. Engasgo-me com vírgulas e reticencias.
Sou uma mulher feita de livros, lápis, histórias, parágrafos, metonímias, embaraços, amores volúveis, pleonasmos, sonetos cintadinhos, poemas esquizofrénicos.

Quando morrer enterrem-me com cadernos, moleskines, lápis, aguças, borrachas e sebentas.
Faxabor.

eu sou rapariga que fala

Às vezes falo com as meninas dos meus olhos. Com os miúdos do frango.
Também falo com as gatas; com a Nina enquanto me pinto, ao espelho, todas as manhãs e ela se coloca ao meu lado, todas as manhãs, a observar-me; com a Alice mais fugidiamente e quase uma conversa amuada porque quando eu quero falar-lhe ela vira-me as costas e quando ela quer falar-me eu não tenho tempo.
Também falo com os cordeiros da noite e com o skyline de Manhattan que cobre integralmente a parede do meu quarto em frente à cama.
Falo com as particulazinhas de pó e com os papeis pequenos e amarrotados.
Falo muito com o baton gloss e ainda mais com a minha travesseira.
Mas nos últimos dias tenho tido muitas saudades. De falar com a minha mãe. E contigo.

pés e sapatos

Tinha sapatos, sapatinhos, sapatitos, sapatões.
De cunha, de salto agulha, rasos.
Vintage, avant-garde, velhotes, por estrear.
De várias cores, com tirinhas, com fivelas, com elásticos.
Meios tolos, romanceados, de princesa, esquizoides.
Tinha sapatos. Muitos sapatos.
Mas o que lhe servia melhor era o pé. Dele.

Behind a Little House Project

By Manuel Cosentino, do projeto “Behind a Little House Project”;
fotografias tiradas no mesmo local, com espaçamento temporário em diferentes condições climatéricas.

primeiro combate

Sebastian Kim for Numéro Russia

Começou a escrever como quem fazia abdominais. Ou pesos para os tríceps.
Escrevia e suava. Suava e escrevia.
Quase diariamente, por sessenta longos exsudados minutos.
Até que ficou numa forma literária perfeita.
Pronta para o primeiro combate.

diamonds are forever

Philip Seymour Hoffman


dissolução e liquidação

phot. by Margaret Bourke-White

foi registada a dissolução do meu coração.
prazo para a liquidação: 2 anos a contar desta data.


24/07/13

o gato a menina e os sopranos

- eu gostava de ser gato.
- eu gostava de ser menina.
- pois mas não podes porque já és gato.
- e tu não podes porque já és menina.

(suspiro)

- então vamos fazer alguma coisa para nos distrair.
- pode ser.
- vamos ver a 1ª temporada dos Sopranos.
- bora lá.

e depois?

Ela era feita de antes até ao momento em que decidiu ser feita do agora.
E não é que o depois lhe começou a correr lindamente?

quase tudo tem um preço.

O que é que eu quero hoje?

1950s Vogue. Photography by John Rawlings.

Sol. Sal. Sonetos.
Verão. Música. Histórias.
Água. Abraços. Metáforas.
Azul. Pássaros. Imagens.
Amparos. Delicadezas. Sorrisos.
Serenidade. Mar. Pedrinhas.
Amor. Lábios. Lápis.
Leveza. Lua. Lampejos.
Família. Gatas. Peixe.
Amigos.
E agora digam-me, depois de ter tudo isto, o que é que eu posso querer mais?

23/07/13

reunião de condomínio ao rubro

quase ia dando estalo. entre mulheres, claro.
o estalo entre mulheres é bem mais divertido.
porque às tantas parecem galinhas, de asas inchadas, de voz esganiçada na garganta.
ontem foi assim. e isso junte-se o sotaque cerrado do norte.
foi lindo.

não, nem tudo é mau

o meu cérebro é um vasto campo bem estrumado.
à noite deito-me com uma ideia diminuta.
de manhã tenho um jardim florescido.

um cigarro e uma pausa

by Alfred Cheney Johnston

uma pausa para respirar.
e pensar que nas próximas três semanas não tenho:
pais, manas.
e pensar que nas próximas três semanas tenho:
muitos ensaios de teatro e pouco tempo para mim.

passei a noite a escorrer-me pela noite.

Anne Hathaway for Vogue

22/07/13

na última reunião de condomínio do meu prédio:

das 24 pessoas, 16 usavam chinelos de andar em casa.
2 estavam com ar de quem queriam matar todos os condóminos.
4 estavam com ar infeliz.
1 estava agressivo e saiu a meio; usava calções dos chineses.
5 tinham ido ao cabeleireiro.
3 levavam uma pasta cheia de papéis.
1 tirou notas e abanava o pé nervosamente.

fica sempre bem

ficar com um ar sério e compenetrado nas reuniões de condomínio em que se discutem orçamentos para obras nas áreas conjuntas.
logo, na reunião de condomínio, vou por o meu ar sério-compenetrado nº 142.

logo

para a reunião de condomínio,
vou levar no meio das atas e da papelada séria
uma folha de papel em branco
para anotar os livros que vou ler nas férias.

juro

cortava dois centímetros do meu cabelo para não ter que ir logo à reunião de condomínio.

o barulho do meu coração

Estava em pânico, desde sábado.

O barulho do meu coração tornou-se insuportável.
Estava com medo de ficar surda com tanto rumor.
Era um rumor de muita coisa.
Mas, como acontece com todos os ruídos aos quais nos habituamos, deixei de o ouvir.
Estou mais descansada.

contagem decrescente para férias

juro que apontei os dias que faltam em pauzinhos no meu caderno
juro que vou riscar cada um deles.

fazia isto em miúda.
ainda hoje me farto de fazer coisas de miúda.

o caminho

o caminho para a eternidade
ou o que isso pudesse significar
estava tão somente
na ponta dos dedos dele
e na ponta do lápis dela.

anda, lauzinha

phot. by John Midgley

pois esta noite andei aos trambolhões
à procura da serenidade que me tem assistido nos últimos tempos.
encontrei-a passadas horas, debaixo da travesseira.
levou-me a dar uma voltinha de mão dada
passou-me a mão pelos cabelos
e disse-me com voz de gente que tem sempre razão:
- anda, lauzinha, anda comigo que eu acompanho-te.
e eu fui.

21/07/13

mãe?

mãe, tenho saudades tuas. mãe, tinha saudades dele.
matei-as. as saudades. tuas e dele.
e sabes o que ficou no meu coração?
um amor muito parecido.

19/07/13

laura no país das maravilhas.

tem tantas histórias a estante do meu coração.

3

hoje sou 3 lauras.
a de ontem, a de hoje e a de amanhã.

18/07/13

eu tenho dois amores

e não tenho mesmo a certeza de qual gosto mais.
do meu photomaton ou do meu http://lauraavelarferreira.tumblr.com/.

nem sei porque tenho 2.
mas eu gosto de números pares.
e eu sou dual.
e eu sou mais Laura num dia do que noutro.
e eu tenho sempre coisas a brotar de mim.
e eu sou tola por isso criei outro blog.
e eu quis partilhar isto.
e pronto.

quanto mais conheço pessoas mais gosto da natureza.

o menino a correr com os pés para fora

ontem ia de carro e vi um menino a correr com os pés para fora.
apeteceu-me logo escrever uma história da uma menina
que corria com os pés para dentro.
tenho que arranjar uma forma de gravar, no meu cérebro,
as histórias que escrevo mentalmente.
esta história, em particular, acabava muito bem.
porque eles casavam e coiso e depois tinham uma menina que se chamava Corália
e que corria com os pés direitinhos.

hoje acordei virada pró forrobodó

17/07/13

shut your mouth


E de repente faz-se silêncio. Um silêncio enorme, cheio e feliz.
E de repente, a boca dela transforma-se em papel.
E de repente, a língua dela é corretor; os dentes - lápis.
E em segundos, ela escreve um livro - só com um simples mastigar.
E em silêncio, ele diz-lhe, que aquele é o livro mais bonito que ela já escreveu.

as minhas duas Lauras

As minhas duas Lauras conversam muito.
Às vezes até demais.
Não se calam. Enquanto uma se enfurece a outra põe paninhos quentes.
Em compensação a que se zanga muito é mais racional que a outra, que põe água na fervura mas que se deixa cair, continua e atrapalhadamente porque só ouve a voz do coração.
As minhas duas Lauras são muito ligadas, muito íntimas,
mas às vezes querem fugir uma da outra, para bem longe.
E é ver-me ficar como uma tola no meio da ponte,
a olhar para um lado e para o outro, à espera, a decidir em lapsos irreais de tempo.
Como se de um lado estivesse o Bill Evans e do outro os Pearl Jam.
Como se. nestas condições, fosse possível tomar uma decisão.

mais forte

um bocadinho todos os dias
todos os dias um bocadinho mais
porque a força vem de dentro.

Matrons in mink by Kenneth Heilbron, 1950.

16/07/13

Escolho livros como quem escolhe roupa para sair.

Escolho livros como quem escolhe roupa para sair.
Há dias em que me ficam melhor romances porque acordo pequenina.
Dias há em que me sinto terrível e me assenta tão bem um policial.
Dias há em que, reflexiva, fico bela com um ensaio.
Outros ainda, escorrem-me ideias dos olhos e fico tonta com o que sinto e visto poemas e sonetos.
Escolho livros como quem escolhe roupa para sair.
E tenho uma coleção de ambos que nunca mais acaba.

rego-me

phot. by MIKE BAILEY-GATES

gosto muito do jardim
que cresce todos os dias
no meu corpo.

o sexo e a cidade


- mamã, tás na FNAC?

Compras-me a coleção TODA do "sexo e a cidade", faxabor?

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