30/09/13

She felt everything too deeply, it was like the world was too much for her.
 
Joyce Maynard, Labor Day

apetece-me arriscar



desenho-me

às vezes transporto-me para dentro de um desenho
(o desenho que me apetece)
e lá dentro permito-me ser
de risco fino ou traço anguloso
a preto e branco ou uma miríade de cores
e deixo que me apaguem e que me aumentem e me diminuam...

e deixo que me recortem e me etiquetem e me decalquem
e lá transformam-se-me os olhos em luz
e o corpo em barcos
e canto gaivotas e cuspo estrelas
e rodopio
e sento-me na lua
e perfumo-me com orvalho
enquanto canto uma cantiga de antigamente.

28/09/13

a mensagem mais estupidamente simples de todos os tempos:


a menina do meu olho direito
pelo menino do teu olho esquerdo.

de pés dados

um dia destes convido-te para dares uma voltinha comigo.
no calçadão de matosinhos,
de pés dados.

APRIL IN PARIS

Ela achava que em Paris é que devia ser.
Porque em Paris tudo é, de uma forma que não pode ser de outra maneira, como se todos os outros lugares se apagassem de repente, da memória, dos mapas, dos roteiros, das fotografias.
Não tinham muit...
a coisa, ele e ela.
Tinham uma casa muito pequena. Um carro muito pequeno. Um rendimento muito pequeno.
Andaram uns bons anos a por dinheiro de lado, todos os dias, todos os meses. Uma quantia pequena.
Até que conseguiram juntar uma quantia grande.
Decidiram partir.
Paris aguardava-os.
Quando lá fossem, deixariam de ser pequenos.
Quando lá fossem
Paris ficaria pequena, diante dos seus olhos grandes
das mãos deles, abertas e grandes
do coração deles, escancarado e grande.

Daquele amor em formato de fotografia.
(Que era grande.)
I like people who dream or talk to themselves interminably;
I like them, for they are double.
They are here and elsewhere."

Albert Camus

26/09/13


viagem

Um dia destes fazemos uma viagem à volta do mundo.
E o mundo serás tu.

25/09/13

45 anos

Que venham mais alguns. Não precisam de ser outros 45.
Apenas que tragam os que estes me trouxeram:
Pele morena no verão, pele de galinha com certas músicas
Cabelos brancos que vou pintando
Caracóis à farta, muitos, todos, e mais venham
Rugas que colecciono, no rosto, e que têm o nome de um jantar ou de umas férias, do riso que se riu
Ideias, palavras, jantares, livros
Desenhos, tatuagens,
Viagens de olhos fechados, só com as mãos
Viagens de mãos dadas, só com os olhos
Palcos com aplausos, folhas em branco com palavras minhas e tantas palavras….
Filmes que ficam na retina
Fotografias que me fizeram congelar
Amigos, aqueles amigos que nos fazem borboletas
Aqueles que já têm impresso um retrato a preto e branco no nosso coração
Gente, gente nas ruas para eu olhar e para me inspirar
Gente que me abane, me ensine e me arrebate
Gente que tire de mim aquilo que de melhor tenhoo
Mulheres, mulheres para quem eu possa escrever
E amor
Amor, para eu poder escrevê-lo até que se me acabem as palavras
E até ter esgotado todo o seu significado
Apertos de mão, abraços, beijos e andares em sintonia
O velho, o novo, o que se supõe e o que nunca virá
A capacidade para se viver, intensamente, o que se quer
A capacidade para dizer não, veemente, ao que não se quer.
 
Que venham mais alguns e entretanto que fiquem
Mas que fiquem por muito tempo
Aqueles que já têm um lugar cativo na minha vida
A minha Família que é maior de todas
Os meus amigos que são os melhores de todos
As minhas miúdas filhas gatas que são as gatas mais lindas de todas
E o peixe que era suposto ter morrido há 2 anos mas que também é o peixe mais bonito do universo.
E a minha casa. Que me guarda, me acolhe, me embala e me ama.
 
Que venham mais alguns. Não precisam de ser outros 45.
Que me façam apenas feliz. Como sou hoje.

22/09/13

há noites de verão na minha varanda

Ouves? Há vida, por aqui.
Há risos, máscaras, mãos, pés que respiram a mesma música.
Há encanto encantado,
há a minha varanda, esta noite.
Esta noite, na varanda de minha casa
cabem todos os sonhos do mundo.

21/09/13

o outono

sim, vem aí o outono.
faltam 15 minutos.
sim, acabou o verão.
faltam 14 minutos.
mas que se lixe.
sou feliz.

yes i am a girl


18/09/13

tem dias.....


in your arms

phot. by Sanghyeok Bang
 
she would like to stay in his arms.
until
he has no arms.

para estar assim, só assim

phot. Alain Delon and Estella Blain at Cannes in 1958, photographed by Luc Fournol
 
podíamos fazer um piquenique ou outra coisa qualquer
outra coisa qualquer que desse para estar assim, só assim
a falar de coisas e loisas
a roer o tempo
a pensar em contratempo
e a mastigar as nuvens....

17/09/13

in my transformations

“I take pleasure in my transformations. I look quiet and consistent,
but few know how many women there are in me.”

Anaïs Nin

posso por o teu coração em estado de sítio?


as minhas duas meninas

as minhas duas meninas
(dos meus olhos)

vou curvar-me sobre o parapeito dos meus olhos
para ver passear, ondulantes e buliçosas,
as minhas duas meninas Lauras ...
dos meus olhos de menina
(Laura).


às apalpadelas

phot. by david seidner

ando às apalpadelas nos labirintos do meu cérebro.
um dia destes canso-me de vez
e vendo-o
e compro um T zero com kitchenette.

16/09/13

venice

This was Venice, the flattering and suspect beauty—this city, half fairy tale and half tourist trap, in whose insalubrious air the arts once rankly and voluptuously blossomed, where composers have been inspired to lulling tones of somniferous eroticism.

—  Thomas Mann, Death in Venice (1912)
 

"the nationals"

- Querido, compras-me um bilhetinho para os "The National", faxabor?
Pode ser 1ª plaeteia. Mas eu preferia cadeiras de orquestra.
Obrigadinha.

os sinais

assim como se unem pontos, virgulas, pessoas e números,
ela esperava que um dia, alguém supostamente especialpudesse perder tempo
a unir, com uma caneta, os sinais dos seus braços.
em sinal de qualquer coisa.
ou então ...
só porque sim.

15/09/13


e aos domingos

e aos domingos arrasto-me
com música
com elas
com livros
com aquilo que mais gosto.

flores

tenho flores, tenho:
nos entretantos, nos entrementes,
nas pálpebras e nas pestanas
na pele e nos músculos
nos suspiros e nas didascálias
nas unhas e nos tornozelos...

nos nós dos dedos e no nós que há de nós
na singularidade, no parapeito, no precipício.
hoje tenho flores em todos os cantos de mim.

i promise

 
Prometo solenemente
com uma mão no peito e os olhos embrenhados de fé:

dizer asneirolas só às segundas, quartas e sextas
sonhar acordada não mais do que duas horas seguidas...
nunca deixar de caminhar como se me sentisse num filme
rir de espanto
estremecer com coisas lindas
desfigurar-me com livros
vestir-me com o léxico das pessoas
beijar sílabas e fazer amor com conversas
esgazear-me com música
e pintar a manta e o sete.
Prometo, sim, oh se prometo
ser pessoa direitinha 30 por cento dos meus dias
e fazer, nos meus dias,
90 por cento de coisas incríveis.


 phot. Amant d’Amour, Paradis, 2009

domingar is always a good idea.



12/09/13

o beijo com sabor a mirtilo

"Ela não se surpreendeu quando ele a beijou, e os lábios dele tinham o sabor a mirtilos".

por Piedade Araújo Sol

Ela deu o mote, e eu continuei....

"Ou então seria ela que gostava tanto de mirtilos e havia desejado tanto os lábios dele.
Quando os lábios dele chegaram ela já não os esperava. O verão havia feito a sua despedida tímida.
A normalidade instalara-se na sua vida demasiado normal. E tudo avançava acanhadamente: o tempo, ela e a vida.
Ele chegou numa manhã de domingo.
De um domingo particularmente sombrio. A campainha soou numa só toada. E ela estremecer. Ela estremecia poucas vezes. Era uma mulher segura. Mas sim, o seu corpo parou. E os sinais de alarme, internos, que ela tão bem reconhecia, apareceram, jocosos e repentinos, atirando-a para um estado de alerta e perturbações iminente.
Abriu a porta com um vagar propositado. As palavras aos tropeções no coração, o coração embrulhado na barriga, o sangue doido a correr nas autoestradas das veias.
Ele estava lá, atrás da porta. E ela estava lá, diante dele. Os olhos dele conversaram muito tempo. As palavras formaram uma fila ordeira. O sangue sossegou.
Ele não disse nada. Ele não era de dizer muita coisa. Avançou um passo, enlaçou-a pela cintura e deu-lhe um beijo.
Um beijo com sabor a mirtilos.
Um beijo atrasado,
Mas um beijo que ela esperou a vida inteira."

Obrigada pelo desafio, Piedade.

11/09/13

A história mais devagar de sempre

Dizem que passou ali vários anos. Ele. Naquelas escadas.
À espera que a manhã se transformasse em tarde.
À espera de ter coragem para lhe falar. A ela. À mulher da saia rodada.
À espera que o vento se za...
ngasse mais.
Para que a saia dela subisse mais qualquer coisinha.
Para que a saia dela subisse o mais que pudesse subir.
(e todos os dias, manhãs, tarde
ele rezava para que fosse muito).

9/11


 Mudam os tempos.
Mudam os focos e as vontades.
Mudam as conjeturas e os contextos. As armas e as objeções.
Os discursos e os palcos....
Mudam os ecossistemas, os homens e as espécies.
Mudam os ventos, as marés, as arribas e as enseadas.
Mudam os hábitos as moedas as religiões e as taxas de juro.
Mudam os transportes, os telefones, as migrações e as pandemias.
Muda a sexualidade e a descriminação.
Muda o clima e a música e a arte e o índice de natalidade.
Mas há coisas que não mudam.
E que não se apagam.
E que ficam marcadas, na humanidade,
em forma de protesto silencioso, mágoa e incredulidade.

 

10/09/13

a maior saudade que tenho de ti



é a saudade que tenho de nós.

um dia destes

salto.
e quando saltar vai ser o maior salto da minha vida.
prometo cair firme e hirta.
como uma laura heroína.
como uma laura como deve ser.
um dia destes, sim.
 
 
 

photo

 
apetecia-me ter uma Polaroid no olho direito.
apetecia-me ter uma Lumix no olho esquerdo.
e sair, depois, para a rua
a disparar olhares em tom de fotografia.

“Two souls are sometimes created together and in love before they’re born.”

F. Scott Fitzgerald


“Love breaks my bones and I laugh.” Charles Bukowski

09/09/13

parece-me bem que

a nina da avenida brasil queria ter alguma coisa a ver com a minha lisbeth salander.
pois é. não conheço ninguém que goste tanto dela como eu.

o mar nos meus cabelos

podia haver mãos de areia
e dedos de ondas.
apetecia-me ter o mar nos meus cabelos.

a história de amor mais pequena do mundo

escreveu a história de amor mais pequena do mundo.
tão mas tão pequena.
tão ridiculamente pequena.
mas tão ridiculamente feliz

memórias

vou escrever numa folha A4:
um beijo na face e uma mão no ombro
um “king” ou uma “canasta”
um copo de pé alto com vinho tinto
ouvir o “school” muito muito alto
o cheiro do “maitresse”
o cheiro a pastéis de massa tenra de antigamente

e depois pego nisto tudo
e arquivo na minha pasta
das memórias mais que perfeitas.

06/09/13

I Was A Male War Bride (1949) directed by Howard Hawks.

a mulher especial

tinha seios de primavera, cabelos de verão
hálito morno de sabor a terra;
andava com a delicadeza de uma aragem
e falava muito com as mãos
(como se as mãos dela fossem trigo a namorar com o vento);
tinham, os olhos dela, o brilho da água a pratear a água;
e a voz fazia lembrar, ora uma aurora, ora um poente.
talvez por estas coisas todas
- esta multiplicidade de coisas singulares e universais -
ela era de alguns (poucos)
era muito de si própria
e
ao mesmo tempo
não era
(porque não podia)
ser de ninguém.


05/09/13

deixo-te ir

Sim, prometo.


Deixar-te ir.

Mas só quando lermos todos os livros das nossas estantes.

E só quando virmos todos os filmes das nossas vidas.

E só quando tivermos rido tudo o que houver para rir.

E só quando se acabarem as nossas palavras.

Aí sim, podes ir. Em paz.

 

BB

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