27/10/15

Bullying


Pois era, o João Pedro dava-me caneladas nas tíbias. Eu usava óculos e botas ortopédicas. Não consigo imaginar combinação mais estridente.
Para falar verdade, o João Pedro era só o veículo dos outros todos. Chamavam-me “feia”. E eu engolia, que remédio.
Um dia comecei a desenhar e a escrever. Desenhava mulheres bem vestidas e escrevia frases com poética inocente.
Rapidamente me tornei uma rapariga popular. Não por ser bonita, claro.
Mas porque tinha um caderno cheio de coisas esquisitas e as pessoas esquisitas têm sempre um não sei quê de artista e as pessoas que têm um ar não sei quê de artista são sempre pessoas especiais.
Uma dezena de anos mais tarde reencontrei o João Pedro. Eu já não usava óculos e muito menos botas ortopédicas. Ele achou-me gira. Iniciou um jogo de sedução tímido, porque na verdade o João Pedro até era tímido.
Confesso que deixei que isso acontecesse, quase até ao limite de um toque de lábios.
Foi quando lhe disse, “eu sou a Laura, aquela a quem tu chamavas feia e davas caneladas, lembras-te?”.
Como poderia ele lembrar-se? Ficou atarantado, vermelho, com as palavras atropeladas.
Desculpei-o nesse momento, depois de lhe dizer.
E depois de lhe dizer fiquei sem nada para lhe dizer.
Acho que estas coisas são mesmo assim.
Precisam de ser ditas para ser perdoadas.

6 comentários:

Graça Sampaio disse...

Ui, o que eu gostei deste texto! É que, apesar do nome estar na moda, o bullying sempre existiu! E o que se sofre com esse bullying psicológico!

Beijinho.

Laura Ferreira disse...

beijinho Graça :)

Luis Eme disse...

Tu és má!

:))

josépacheco disse...

E depois? O que aconteceu? O João Pedro esfumou-se, ou continuou a orbitar?

Laura Ferreira disse...

Achas Luís? :)

Laura Ferreira disse...

Esfumou-se, José :)

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