12/11/15

sodôna maria josé, a minha professora primária


A minha professora primária chamava-se Maria José e tinha um daqueles FIAT redondinhoss., cor de café com leite, mas com pouco café.
Também tinha um cabelo, louro, apertado num penteado redondo, armado com muita laca.
A minha professora primária usava roupas interessantes e sapatos altos. Tinha unhas bicudas e mãos fortes. As mãos da minha professora primária batiam-nos bastante. Apertavam e entortavam-nos as orelhas. A voz, de vez em quando, esganiçava-se num murmúrio que subia, parecendo uma montanha russa.
A minha professora primária chamava-nos quase sempre pelos nossos dois nomes, o que provavelmente significava que estava muitas vezes zangada.
Mas, a par de tudo isto, a minha professora primária cheirava muito bem.
Ela sentava-se numa secretaria de madeira antiga que tinha, do lado direito, uma portinhola que estava sempre fechada à chave. Dentro dessa porta morava o objeto da minha cobiça: sebentas, novinhas em folha.
Eu era louca por elas e achava, na altura, que elas também eram loucas por mim.
A minha professora primária não me devia achar grande coisa porque me chamava sempre ao quadro, na altura de resolver os problemas de matemática. E eu ficava ali a suar de pavor, a entortar o pé direito, metido dentro de uma bota ortopédica. E ela, a falar finhinho, “Laura Marisa, quanto são sete vezes nove?”.
Um dia fiquei de castigo no intervalo. Não me lembro se foi por ter errado na tabuada ou se foi por ter escrito, mais uma vez, um bilhete a dizer “amo-te” ao rapaz mais giro da turma. É que a palavra amo-te, na altura da minha escola primária, era, para a minha professora, uma palavra proibida. Talvez porque ela nunca tivesse conhecido o verdadeiro significado dela.
Como estava na sala sozinha, abeirei-me da portinhola. As sebentas crepitavam, lá dentro. O meu coração saltava-me do peito. Abri a porta, sabendo que estava a fazer uma coisa errada. Mas as sebentas, o cheiro delas e as folhas branquinhas, eram mais fortes que tudo o resto.
Peguei quase em todas, achando que a D. Maria José não ia dar conta. Escondi-as, mais tarde, em casa, num reduto destinado à arte.
Obviamente que a minha professora primária mandou chamar a minha mãe para conversar e depois a minha mãe mandou-me chamar a mim para conversar.
As sebentas foram devolvidas quase na sua totalidade. Exceto uma, na qual já tinha começado a escrever o meu primeiro romance.
A minha professora primária marcou-me por ser má, distante e fria. Nunca me deu um beijo, nunca me afagou o cabelo e nunca me mostrou alguma espécie de brilho, nos seus olhos.
A minha professora primária passou-me completamente ao lado.
Mas o cheiro dela ficou na minha memória para sempre.

(contribuição para um projeto de doutoramento.)

5 comentários:

Graça Pires disse...

Também não tenho boas recordações da minha professora primária. Também adoro sebentas...
Adorei o texto.
Beijo, Laura.

Manel Mau-Tempo disse...

reencontrei a minha professora primária quase 30 anos depois, ela é muito baixa e mais simpática do que era na altura :D

Laura Ferreira disse...

beijo Graça :)

Manel, bom fds :)

Luis Eme disse...

Tive uma excelente professora primária (estupidamente não me recordo do seu nome, pouco vulgar, era açoreana).

Estimulou a minha imaginação e a facilidade de contar histórias.

Laura Ferreira disse...

que sorte, Luis...
eu estimulei a minha à custa da indiferença dela :)

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