04/12/15

sinos



Tenho assim uma coisa meia coisa, com sinos, desde miúda.
Sempre que ouço um sino penso em mortos.
Certa tarde, estava eu na aldeia, no verão. Fazia um calor abrasador.
Aquele calor que põe a tremer o nosso campo de visão e que põe as moscas meias taralhocas.
O sino da igreja tinha tocado nessa manhã.
Fui dar uma volta à rua, pela sombra.
Ao dobrar uma esquina dou de trombas com um funeral.
Um funeral calado, com muito calor, com meia de dúzia de pessoas, de preto, com ar assado.
À frente vinha o senhor dos funerais de bata branca e faixa roxa, com um sino na mão.
Vinham quase todos em câmara lenta: o senhor, as pessoas de preto, o carro funerário.
Todos, menos o sino. O sino era o que mexia mais.
Meteu-me tanta impressão aquela imagem que desatei a correr para trás, a bater com os calcanhares no rabo, o coração tresloucado.
Meti-me em casa e deixei passar a caravana triste.
Parecia que iam para o forno.
Continuei a ouvir o sino, até o seu som se diluir nos outros ruídos e no próprio calor.
Nessa noite sonhei com mortos risonhos, de corpos esguios a deixarem cair pele e olhos de bichos nunca vistos, a atazanar-me a alma, com sinos na mão.
Foi a partir desse dia que nunca mais gostei de sinos.

2 comentários:

No Meu Quarto Andar Sem Cave disse...

A tua história fez-me lembrar uma outra :) Numa terrinha no norte de Portugal, o sino sempre bateu as horas. Religiosamente. As horas e os mortos (que é diferente se o defunto é masculino ou feminino). Uma vez ficou lá, num hotel todo xpto, a estagiar a selecção francesa de futebol :) não conseguiam dormir e teve que o sino parar de tocar. :) Teriam eles tido uma história parecida com a tua? :)

Obrigada pelo elogio ao "meu quarto andar" :) sou eu, a passar uma fase difícil :)

Gosto daqui também, já gosto há imenso tempo :)

Laura Ferreira disse...

espero é que quando essa fase passar (e que passe depressa) não deixes de escrever :)

obrigada eu.

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