27/02/15

in(capacidade)

devia haver
em cada um de nós
a capacidade
de erradicar
algumas incapacidades
geradas por tanta gente incapaz.
 


helmut newton


as sextas e os sábados têm o melhor de mim.


26/02/15

25/02/15

que dois.

Jacqueline Bisset and Steve McQueen

gosto quando me abraças de palavras.


palavras

palavras há muitas.
mas as da minha mão
são as que gosto mais.

20/02/15

há dias e dias há

phot. by Dave Hendley

há dias em que abocanho memórias e regurgito cheiros  
à pele afloram pessoas, dias e brinquedos.

há dias em que cada bocado de mim
tem tantos bocadinhos daquilo que já fui.

sou, sem sombra de dúvidas

uma sombra daquilo que já fui.

tirar

continuo, diariamente
a tirar de mim
aquilo que tem mesmo de sair.

19/02/15

se vocês soubessem

as histórias que carrego às costas, todos os dias.

hoje estou ávida

por tudo aquilo que me faz bem.

hoje estou de costas voltadas

para tudo aquilo que não me faz bem.

18/02/15

Gabriel, o menino Feliz.



Era uma vez, uma cidade cinzenta e sombria e triste. Tão triste que a luz do sol quase se envergonhava de entrar e fugia, para não chorar.
Nessa cidade vivia Gabriel. Gabriel era um menino alegre e muito curioso, que gostava muito de passear pela cidade em busca de novas aventuras.
Porém, ao passear pela cidade, acabava por ficar também triste, como todos os seus habitantes. Naquela cidade não havia sorrisos, olhos brilhantes. Não havia calor entre as pessoas. As pessoas eram frias, como o tempo e como as calçadas tristes.
Um dia, de regresso a casa, vindo da Escola, Gabriel encontrou um velhinho sentado num banco de jardim. Tinha um olhar triste e vazio e segurava nas mãos uma caixa velha, triste, forrada a um tecido que se via perfeitamente que já havia sido, também, alegre.
Gabriel dirigiu-se a ele.
- Boa tarde. – Exclamou, com um sorriso.
O velhinho olhou para ele, como se estivesse a ver o diabo.
- O que foi? – Gabriel atirou, meio assustado.
- Tu estás a sorrir - Murmurou o velho um fio de voz.
- Sim… - Disse Gabriel e voltou a sorrir.
O velho respirou fundo e fechou os olhos. Os seus lábios moveram-se em silêncio. Quando voltou a abrir os olhos, tinha-os marejados de água.
- Estás triste? – Disse Gabriel sentando-se ao seu lado. – Nesta cidade toda a gente é triste. Eu devo ser a única pessoa que ri. Ando por aí a distribuir sorrisos, mas ninguém me liga…
O velho pousou a mão de pergaminho na mão jovem de Gabriel.
- Andava à tua procura…
- Andavas à minha procura? – Gabriel cada vez percebia menos.
- Há muitos anos atrás…  - O velho começou, com uma voz mais segura. – Um mágico malvado, que andava experimentar feitiçarias, lançou um terrível feitiço sobre esta cidade…
- Que feitiço foi esse? – Exclamou Gabriel de olhos arregalados de curiosidade.
- O feitiço foi roubar todos os sorrisos aos habitantes desta cidade…mergulhá-la numa tristeza profunda. Homens, pássaros, flores, estátuas, casas, rios. Tudo seria, a partir dali, triste.
O rapaz pensou durante um instante.
- Realmente é verdade. Tudo é triste nesta cidade.
- Mas todos os feitiços podem ser quebrados…
- Podem? – Gabriel estava a adorar a história.
- E o feiticeiro – prosseguiu – Afirmou que só uma pessoa verdadeiramente boa, com muita vontade de ajudar o próximo e fazer o bem, seria capaz de devolver, à cidade, a alegria.
Os dois olharam-se durante um instante.
- Tu és essa pessoa – Disse o velho. – Por isso te disse há pouco, que andava à tua procura.
- Mas como sabes que sou eu essa pessoa que procuras? – Indagou Gabriel.
- Porque reconheci, no teu sorriso, todo o bem que tens dentro do teu coração. E sei que a tua missão, nesta vida, é espalhá-lo…
Gabriel fechou os olhos e sentiu no peito uma coisa esquisita.
O velho estendeu-lhe a caixa. Gabriel recebeu-a a medo. Porém, quando lhe tocou, o tecido ficou resplandecente e as cores mais vivas.
- Essa caixa – Afirmou o velha. – Contém os sorrisos e a alegria desta cidade. Estão aí aprisionados desde aquele maldito dia. Se a conseguires abrir, a alegria e o riso espalhar-se-ão por todos, como se fossem ar. E os sorrisos que deres aos outros passarão a ser retribuídos… O sol passará a brilhar e as flores terão, finalmente, cor. E a água dos rios avançará contente, em direção ao mar.
Gabriel olhou a caixa que tinha nas mãos. Quanta responsabilidade sentia, de repente. E, ao mesmo tempo, que tamanha alegria.
Sem pensar, pousou a caixa no banco de jardim. Destravou o pequeno fecho, rodou a pequenina chave na fechadura ainda mais pequena. Uma brisa suave cantarolou. Uma flor adormecida ergueu uma sobrancelha. Um pássaro pousou ali perto.
Com as mãozinhas pequenas, Gabriel abriu a caixa.
Um sorriso iluminou-lhe o rosto.
O velho suspirou contente e os seus olhos riram, pela primeira vez, desde há muito tempo.
A palavra “triste” passou a fazer parte do passado daquela cidade.
E a “alegria” passou a escrever-se nas entrelinhas dos olhares, das árvores, das estrelas e dos corações.

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