30/04/15

família

Com a família somos sempre pequenos ainda que já sejamos grandes.
Há sempre a memória de uma brincadeira, de um diminutivo, 
de uma palavra errada que se dizia em bebé.
Com a família acontece, por vezes, uma catarse de deliciosa estupidez, 
como se de repente voltássemos à era dos bibes e das coisas idiotas e genuínas.
Com a família desfolha-se, quase sempre, o álbum de retratos retratados em boas (e tantas) memórias. 
Canta-se o inaudível e as mãos parecem sempre dadas ainda que estejam longe.
Com a família fala-se uma linguagem única, típica e universal.
A linguagem dos bolos Cristina, dos carrinhos de choque na feira, das roulottes cheias de tralha no campismo, do Cebulório e da jogatina, a altas horas.
Os cabelos parecem ter o mesmo cair e as vozes têm uma toada similar.
As vogais abrem-se da mesma forma 
e as expressões partilham-se quase ao mesmo tempo.
Com a família tem-se uma relação a tempo inteiro e um casamento para a vida.
Com a família somos sempre nós.
O coletivo, o individual, os caracóis, os dedos entrelaçados, 
os corações a falar a mesma língua.
Com a (minha) família é assim. E que bom que é.
 


tu vais. mas o teu amor fica a namorar com o meu.

by Egon Schiele

29/04/15

tenho andado à batatada com a minha consciência mais rebelde.

Nadja Auermann by Ellen von Unwerth (1992)

Maria Blaisse, Foam Costumes for Dance


a (minha) paz

Kara Neko by Eric T. White

A paz está (quase) sempre ali ao virar da esquina.
Mas escapa-se, a malvada. Engana-nos. Finta-nos.
A paz entra e sai num corrupio de catraia.
Quando entra, temos de a convidar a ficar.
Servir-lhe um chá com scones.
Presenteá-la com olhos francos, palavras verdadeiras
e com aquilo que realmente somos.
(Porque a paz conhece-nos desde criança.)
Sentá-la, confortavelmente, afagar-lhe os cabelos.
Se assim o fizermos, e se ela ficar,
vai tornar-se, com certeza, na nossa mais (preciosa) amiga.

27/04/15

met-ade

pois é
a minha outra metade
hoje ficou em casa
a ler "os sapatos italianos", do Henning Mankell
e a fazer uma camisolinha com malha da "ovelha negra".

nem sei

nem sei se sim ou se sopas.
as segundas dão-me uma dormência geral.
às segundas apetece-me sempre fazer qualquer coisa
digna de ser feita no fim-de-semana.

David Montgomery _ Vogue UK, June 1967.


24/04/15

Lydia Hearst photographed by Ben Hassett


livros



há livros que me tocam como se fossem mãos.
há livros que guardo no enxoval dos sentidos.
há livros que torno parte integrante da pele.
há frases de livros que abocanho com fome e revelo na sede.
há palavras nos livros que imprimi na memória.
há livros assim
para todas as Lauras de mim.

15/04/15

as minhas mulheres

não tenho tempo e palavras
para escrever todas as histórias de mulheres
que guardo das minhas mulheres e das suas histórias.

13/04/15

quatro

Faziam quase tudo juntas.
Embrulhos. Bolos de arroz. Saiotes e cortinas para os quartos.
Riam alternadamente e caminhavam em contratempo.
Discutiam em coro e liam por turnos.
Ensaiavam piano a quatro mãos e dormiam todas para o lado direito.
Os coração batiam afinadinhos e pulsavam com a mesma poesia e os mesmos filmes.
Até os dedos se enrodilhavam na mesma irritação quando viam aranhas.
Faziam quase tudo juntas.
Até quando não tinham nada para fazer.

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