30/09/15

Helmut Newton


ando a precisar

de me vestir de coisas novas.

29/09/15

dos lápis


Agora ando com a mania de escrever coisas de trabalho a azul e coisas de mim a preto.
A lápis é que nada. Ando meia amuada com os lápis.
Às vezes arrepiam-me a arranhar o papel.
Às vezes roo-os e depois fico irritada porque já não parecem novos.
Às vezes deixo-os cair e temo que se magoem.
Tenho uma relação difícil com alguns lápis.
Com outros não lhes ligo pevide.
Não tenho nenhum especial porque ainda não encontrei algum especial.
Quando isso acontecer colocá-lo-ei, em lugar de destaque, no museu dos lápis lá de casa.

Kate Moss by Mert Alas & Marcus Piggott in “Kate Confidentielle” for Vogue Paris, October 2015


quarto com vista.

autor desconhecido.

28/09/15

jornais

quanto mais leio os nossos jornais
mais gosto de cozido à Portuguesa.

27/09/15

televisão com carne guisada e batatinhas com alecrim.

Quando era criança, a televisão era um acessório. Como um gancho de cabelo, uma flor que se põe à lapela, um par de sapatos que se calçam ao domingo.
Os jantares de antigamente eram servidos com iguarias e, acima de tudo, uma conversa bem temperada e servida na melhor travessa.
Continuo, quarenta e sete anos depois, a lutar por refeições “à moda antiga”. Com a televisão desligada. Com conversas sérias ou comezinhas. Com detalhes partilhados e risota a várias vozes.
Lembro-me ...bem, de uma mesa cheia de gente. Com o calor dos assados e o calor que advém dos laços familiares. Do tempo que ficávamos, depois do repasto, a retroceder dias e a degustar histórias.
Os tempos mudaram. As pessoas também. Mas há coisas, que para mim, continuam a ser eternas.
(a televisão desligada, à hora das refeições, é uma delas).

hei-de trazer, todo o ano, a primavera no corpo

ainda que estejamos a entrar na estação mais fria.

24/09/15

vinte e cinco de setembro de dois mil e quinze, quarenta e sete.


Lembro-me, no tempo do ontem, de ver o meu pai na casa dos 40 e pensar “que adulto que ele é”. E eu, pequenita, a chegar-lhe a meio, invejosa de tanta adultice, de tanta maturidade.
Fui crescendo de encontro aos 40.
E hoje, que me encontro na casa deles, posso dizer que é a casa onde mais fui feliz e onde encontrei tanta coisa.
A casa dos meus 40 tem quintal, papel de parede antigo, paredes com retratos cheios de histórias e gentes e letras pequeninas com Português bonito. Tem cheiro a família e a doce-de-abóbora e o chão é firme e bem encerado. Tem pássaros nas árvores, com muitos irmãos. Tem brisa de mar e um gira-discos onde tocam vinis com arranhado de tanto uso. Tem gatos e cães e até tem brincos-de-princesa. Tem cortinas que esvoaçam ao fim da tarde e se recolhem todas as manhãs. Tem cadeiras, cadeirinhas, cadeirões e até tem um banco de cozinha com um buraco no meio. Tem toalhas de plástico com flores garridas e uma cafeteira com café sempre acabado de fazer. Tem um relógio de cuco, um tapete de uma qualquer feira e brinquedos antigos. Tem bonecas contentes, de bochechas rosa, alinhadas e vem vestidinhas. Tem uma bicicleta, um triciclo, uma rede e raquetes de badminton.
A casa dos meus 40 não é grande, mas também não é pequena. Cabe lá tudo: filmes, livros, pessoas, animais, memórias e projetos futuros.
A casa dos meus 40 gosta de se arranjar para receber e para sair. Gosta do íntimo, do recatado, do subtil, do antigo.
A casa dos meus 40 é minha, da minha família, da família que construí, da família que sonhei desde pequenita.
A casa dos meus 40 faz, amanhã, 47 anos.
Que venham outros tantos. Anos e gentes e pontes e tudo.
A minha casa ainda tem muitas paredes para guardar memórias.
E arranja-se sempre um banquinho para receber mais um…

23/09/15

e porque é que



E porque é que eu não posso continuar a fazer todas as perguntas mesmo sendo perguntas ingénuas e estúpidas?
E porque é que eu não posso continuar a gatinhar em vez de andar?
E porque é que eu não posso manter a ingenuidade e a verdade intrínsecas às crianças?
E porque é que eu não posso bolsar quando alguém me irrita ou quando vejo injustiças?
E porque é que eu não posso adormecer um sono sem restrições provindas deste modo de vida imbecil que é a vida adulta?
E porque é que eu não posso afundar a cabeça no cabelo e no cheiro da minha mãe quando não fazem o que eu quero ou o que eu acho que devem fazer?
E porque é que eu não posso rir escancaradamente e comer e dormir e não fazer mais nada durante uns dias?
E porque é que eu não posso?
Porque é que eu não posso isto tudo?
Porque é que a idade adulta é cheia de…
“Não posso?”

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