30/10/15

conversa com o meu cérebro


não falo contigo, hoje. não te ligo.
não quero que vás por aí e me leves. não quero falar do que falei ontem.
não falo contigo de coisas sérias, hoje.
só te ouço, se me fizeres rir.
só te ouço, se me deres uma receita para fazer bolo de iogurte depois de pronunciar uma consoante.
não falo contigo de coisas assim coisas, hoje. só falo contigo de coisas idiotas.
às vezes levas-me por estradas idiotas que descambam em destinos idiotas.
quem manda hoje sou eu.
hoje, tu, o meu cérebro, está determinantemente vetado a existir, sozinho.
ficas amarrado à minha vontade e às minhas ações.
deixo-te um livro de reclamações na mesinha da entrada, ao pé do manequim.
juntamente com o livro, fica um lápis. o lápis tem o bico pequeno.
o que significa, portanto, que tens de escrever pouco.
o que é que achavas? pfff....
já cá ando há 47 anos... acharias, porventura, que não sei dar-te a volta?
estudasses....
tenho dito.

escolho-me

Lily Donaldson by Billy Kidd for Numéro #148

hoje escolho-me. inteira. inequívoca.
sem reflexo, sem espelhos.
e, depois de me ter escolhido, dispo-me.
e, depois de me ter despido, mergulho-me.
e, depois de me ter mergulhado, deixo-me ficar no mais fundo quieto de mim
quero-me assim quieta, escolhida e profunda.

uma parte de mim hoje ainda está no ontem.


28/10/15

um sorvete de primavera

by Iris Schwarz

para que eu me possa rir por dentro.

de dois em quando gosto de ser três.


o meu País às vezes sufoca-me.

phot. by Romain Jacquet-Lagreze.

27/10/15

Bullying


Pois era, o João Pedro dava-me caneladas nas tíbias. Eu usava óculos e botas ortopédicas. Não consigo imaginar combinação mais estridente.
Para falar verdade, o João Pedro era só o veículo dos outros todos. Chamavam-me “feia”. E eu engolia, que remédio.
Um dia comecei a desenhar e a escrever. Desenhava mulheres bem vestidas e escrevia frases com poética inocente.
Rapidamente me tornei uma rapariga popular. Não por ser bonita, claro.
Mas porque tinha um caderno cheio de coisas esquisitas e as pessoas esquisitas têm sempre um não sei quê de artista e as pessoas que têm um ar não sei quê de artista são sempre pessoas especiais.
Uma dezena de anos mais tarde reencontrei o João Pedro. Eu já não usava óculos e muito menos botas ortopédicas. Ele achou-me gira. Iniciou um jogo de sedução tímido, porque na verdade o João Pedro até era tímido.
Confesso que deixei que isso acontecesse, quase até ao limite de um toque de lábios.
Foi quando lhe disse, “eu sou a Laura, aquela a quem tu chamavas feia e davas caneladas, lembras-te?”.
Como poderia ele lembrar-se? Ficou atarantado, vermelho, com as palavras atropeladas.
Desculpei-o nesse momento, depois de lhe dizer.
E depois de lhe dizer fiquei sem nada para lhe dizer.
Acho que estas coisas são mesmo assim.
Precisam de ser ditas para ser perdoadas.

mana, 58




andamos há muitos anos a viver histórias
a tocar textos a quatro mãos
a escrever música e memórias.

algumas das memórias mais bonitas da minha vida
têm o teu nome e a impressão do teu cheiro de mãe.

alguns dos caracóis do meu cabelo
falam a mesma linguagem do teu.

a estrada da minha vida é uma estrada paralela à tua
o jardim dos meus sonhos funde-se muitas vezes no teu
e há noites que ainda te ouço tossir no quarto ao lado
(depois de fumarmos um cigarro juntas, na arca da cozinha)
e ainda te sinto entrar de manhã, no meu quarto pequenino do canto,
a dizer-me "bom-dia".
ainda te ouço,
hei-de ouvir-te sempre, mesmo quando já nada houver para ouvir.
apenas porque fazes parte de mim.

parabéns mana, amiga, mãe, companheira de palco, de riso, lágrimas e vida.

26/10/15

hora de inverno

quando muda a hora há um qualquer inverno que também se instala em mim.
ainda que na rua se vertam cores dos néons e das lojas, ainda que o natal já se aproxime ao longe, ainda que a esperança fale a linguagem de uma primavera distante.
não gosto que a hora mude, não gosto de acordar com escuro e voltar a casa escura.
as minhas gatas também não gostam.
ficam, como eu, quietas.
se falassem, tenho a certeza que me diriam o mesmo.
se tivessem mãos, quando chegasse a casa teria decerto uma mala feita, para as 3, para rumarmos ao sol.

meio meio

tou assim naquele ponto em que me apetece dormir até ao verão
ou dar um murro na mesa e virar o jogo.


23/10/15

a maria da luz

e quando tens uma empregada nova que te arruma o mais pormenor do sitio mais profundo
não te parte santos nem pratos
passa a ferro e deixa a casa a cheirar bem
e ainda por cima te traz, no segundo dia, marmelada e geleia...
pensas assim
eu podia viver sem empregada, podia,
mas não era a mesma coisa.

as minhas gatas ainda andam, em relação à mesma, em averiguações.
ainda não decidiram se gostam dela.
são muito exigentes, as minhas gatas.
principalmente com o liquido que se usa para se limpar o chão e o tom da voz.

pedaços

há pedaços de coisas que se vão perdendo, pela vida.
cabe a cada um de nós juntar, se for caso disso, esses pedaços.
eu gosto de juntar pedaços de gente, histórias e momentos.
pedaços de férias, viagens, passeios, jantares.
pedaços da minha infância, de um bilhete da minha mãe, de um sorriso que me imprimiu uma ruga boa.
mas os pedaços que eu mais gosto de juntar
- e que aprendi a fazer -
são os meus pedaços.

22/10/15

bora?



bora meter-nos numa coisa qualquer
a nós e as bichas
e cd’s e pipocas do pingo doce
e livros e costelinhas e arroz embrulhado em jornal
e irmos por aí, Portugal fora, Portugal dentro
a cantar com os vidros abertos e os focinhos cheios de vento
a cantar em Português, de felizes,
a cantar em contratempo
enquanto nos passeamos no tempo
até o tempo acabar.

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