30/11/15

Yasunari Awazu


27/11/15

bora lá?

deixem-se mas é de merdas e aproveitem a vida.
namoriquem-se, apardalem-se
e substituam, alguns verbos, por ações.

26/11/15

natal a meio gás

vou-me vestindo de natal, daqui até ao dia 24.
começo para árvore.
segue-se o espírito.
vem o frio, as luzes, o trânsito.
vem o cheiro a natais antigos que albergavam toda a gente.

à mesa da minha consoada, todos os anos, continuam a sentar-se todos.
mesmo aqueles que já não estão.

24/11/15

mãe, deixas-me sair da linha, só hoje?

borrifar-me para o IMI.
não ir buscar aos correios uma carta registada.
não fazer jantar.
não trabalhar de tarde.
não chegar a horas onde devo chegar a horas.
desafiar o sim.
assim tão só simplesmente não.
não.
e não.
e outra vez não.

a postos. para qualquer coisa.

phot. by klaus kampert

20/11/15

dos lápis e das minhas pequenas coisas

quando compro um lápis tenho de o usar até ao fim.
como se das minhas mãos saísse vida própria.
como se das minhas mãos saísse voz, rectidão e presença.
gosto mais de certos lápis que de certas pessoas.
não gosto de lápis vermelhos. tenho um lápis de trabalho aqui no trabalho.
tenho um lápis para as poetices.
tenho um lápis para cada estado de alma.
tenho nos lápis amigos e confidentes.
e tenho, em casa, uma mesa, onde se guardam lápis de coleção.
não imagino a minha vida sem lápis.
não é que isto tenha grande interesse, mas também já pensei a quem vou deixar os meus lápis quando desaparecer.

este fim-de-semana apetece-me partir a louça toda.

Nimura Daisuke , Lovers 

19/11/15

star wars

ontem ao ver o trail do star wars arrepiei-me.
acho que a minha geração tem uma espécie de solidariedade mimalha com este filme.
a música faz-me recuar a tempos mais que felizes.
a memória é tão boa, em certos momentos.
a saudade também.

paredes (ou não)

já andei com a mania de fazer um blog com retratos de coisas escritas em paredes.
gosto de paredes com coisas escritas.

gosto de pensar que há uma história por trás de cada escrito de cada parede.
uma mão que, num impulso (ou não) imprimiu, de forma indelével (ou não), qualquer coisa.
serão por isso as paredes, bocados de gentes e histórias e impulsos.
ou não.

enpanco

às vezes enpanco em coisas estúpidas.
e fico com cara de estúpida a olhar para elas.
e depois sinto-me estúpida.

e depois apetece-me escrever isto - que sinto estúpida -
para ver se consigo deixar de o ser.

17/11/15

às 24h lá naquele sítio

no lado direito da minha cama
que te pertence por direito.

como o lado esquerdo do meu peito.

Diane Arbus - Lady bartender at home with a souvenir dog, New Orleans, 1964


16/11/15

e agora como vai ser?

onde é que o mundo vai parar?
onde é que o ódio vai parar?
quando é que o ódio vai parar?
as gerações jovens, de hoje, não têm sonhos ou utopias.
eu ainda as tive. graças a uma série de coisas, graças aos meus pais, graças à vida.
não sei como é viver uma vida sem sonhos.
ainda bem que os tive.
quanto mais não seja para ensinar aos outros, como se sonha.

Christian Coigny 

13/11/15

este fim-de-semana também vou estar à tua espera.


lisbeth salandar

e na mesinha da minha cabeceira ainda está o 4º volume da saga de Lisbeth Salandar.
tenho medo de lhe pegar porque tenho medo de não gostar.
já lhe mexi, cheirei, afaguei. mais nada.
tenho de ganhar alguma coragem para iniciar a leitura.
quando o comprei abri-o, numa página à sorte e li uma passagem.
não cheguei a qualquer conclusão.

há pessoas que deviam ser proibidas de desaparecer.

12/11/15

sodôna maria josé, a minha professora primária


A minha professora primária chamava-se Maria José e tinha um daqueles FIAT redondinhoss., cor de café com leite, mas com pouco café.
Também tinha um cabelo, louro, apertado num penteado redondo, armado com muita laca.
A minha professora primária usava roupas interessantes e sapatos altos. Tinha unhas bicudas e mãos fortes. As mãos da minha professora primária batiam-nos bastante. Apertavam e entortavam-nos as orelhas. A voz, de vez em quando, esganiçava-se num murmúrio que subia, parecendo uma montanha russa.
A minha professora primária chamava-nos quase sempre pelos nossos dois nomes, o que provavelmente significava que estava muitas vezes zangada.
Mas, a par de tudo isto, a minha professora primária cheirava muito bem.
Ela sentava-se numa secretaria de madeira antiga que tinha, do lado direito, uma portinhola que estava sempre fechada à chave. Dentro dessa porta morava o objeto da minha cobiça: sebentas, novinhas em folha.
Eu era louca por elas e achava, na altura, que elas também eram loucas por mim.
A minha professora primária não me devia achar grande coisa porque me chamava sempre ao quadro, na altura de resolver os problemas de matemática. E eu ficava ali a suar de pavor, a entortar o pé direito, metido dentro de uma bota ortopédica. E ela, a falar finhinho, “Laura Marisa, quanto são sete vezes nove?”.
Um dia fiquei de castigo no intervalo. Não me lembro se foi por ter errado na tabuada ou se foi por ter escrito, mais uma vez, um bilhete a dizer “amo-te” ao rapaz mais giro da turma. É que a palavra amo-te, na altura da minha escola primária, era, para a minha professora, uma palavra proibida. Talvez porque ela nunca tivesse conhecido o verdadeiro significado dela.
Como estava na sala sozinha, abeirei-me da portinhola. As sebentas crepitavam, lá dentro. O meu coração saltava-me do peito. Abri a porta, sabendo que estava a fazer uma coisa errada. Mas as sebentas, o cheiro delas e as folhas branquinhas, eram mais fortes que tudo o resto.
Peguei quase em todas, achando que a D. Maria José não ia dar conta. Escondi-as, mais tarde, em casa, num reduto destinado à arte.
Obviamente que a minha professora primária mandou chamar a minha mãe para conversar e depois a minha mãe mandou-me chamar a mim para conversar.
As sebentas foram devolvidas quase na sua totalidade. Exceto uma, na qual já tinha começado a escrever o meu primeiro romance.
A minha professora primária marcou-me por ser má, distante e fria. Nunca me deu um beijo, nunca me afagou o cabelo e nunca me mostrou alguma espécie de brilho, nos seus olhos.
A minha professora primária passou-me completamente ao lado.
Mas o cheiro dela ficou na minha memória para sempre.

(contribuição para um projeto de doutoramento.)

11/11/15

o que queres ser quando fores grande, laura?




Eu gostava muito que me fizessem perguntas, quando era criança.
Quando era criança, uma vez perguntaram-me o que é que eu queria ser quando fosse grande.
E eu respondi.
Hospedeira, escritora e esquisita.

10/11/15

e se? e se? e se?

e se eu começasse a contar os "e se" que atravessam, todos os dias, a minha mente?
e se as cadeiras voassem?
e se os governos fossem justos?
e se ficássemos mais magros com um piscar de olhos?
e se fôssemos capazes de nos tele-transportar para o verão?
e se os animais fossem eternos?
e se a velhice se vestisse de justiça, amor e serenidade?
e se os cabelos não ficassem fracos?
e se o nosso planeta fosse respeitado?
e se os pais ficassem sempre conosco?
e se o amor das nossas vidas caminhasse sempre ao nosso lado?
e se ser feliz fosse obrigatório?
e se as escolas falassem e os professores fossem felizes?
e se a educação e a cultura fosse um bem de 1ª necessidade?
e se a desonestidade e a ambição fossem banidas, com um apito?
e se aos corruptos nascesse um nariz e aos mentirosos crescessem as orelhas?
e se eu não fosse lírica e utópica?

podia não ser, podia.
mas não era a mesma coisa...




quem sabe passamos a ver as coisas por um ângulo diferente.


06/11/15

iac....



arrepio-me, de mau, com:
alturas, aranhas grandes,
sangue a espichar na “guerra dos tronos”
melgas-tipo-avionete
giz a riscar a ardósia com ar de mau
intrigas, trovoada,
lombrigas e demais familória dos intestinos e afins

que me faltem os que amo
que me faltem as minhas gatas
que me falte a rita lee

mas, arrepio-me mais ainda
com um arrepiamento ainda mais escancarado

com o poder
sonso, sinistro e sorrateiro 
de certas pessoas.

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