13/01/16

eram tempos em que o verão era uma estação quente em memórias.



deixava que a velha avó de cara de pó de arroz se abandonasse à sesta habitual e escapava-se para o ultimo andar da casa, rangendo os degraus debaixo dos pés, subindo as escadas com o cheiro a antigo.
e sentava-se perto da pequena estante onde se alinhavam, apertadinhas, as dezenas de exemplares de “crónicas femininas” que a avó colecionava desde sempre.
e com a perturbação habitual da curiosidade fora de tempo abria cada uma delas como se abrisse uma boca que quisesse beijar às escondidas. e sorvia, das páginas, as mulheres redondas, as roupas inatingíveis, as fotonovelas picantezinhas, os conselhos femininos sobre temas que para si eram ainda desconhecidos.
terá sido essa curiosidade gelada, a impressão de perigo instalada ao fundo da barriga, terão sido os seus 7 anos precoces e cheios de questões, terá sido esse o universo que definitivamente a arrebatara desde então para que, durante o resto da sua vida, as mulheres passassem a exercer sobre ela um fascínio sem igual.
terá sido por isso tudo e por muito mais que ela, por volta dessa idade, terá começado a ser aquilo que sempre quis ser: mulher.

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