Eu tive uma mãe que não me ensinou a cozinhar ou a passar camisas de homem, a ferro. Não me ensinou a limpar pratas ou a fazer pastelinhos de massa tenra.
Mas eu tive uma mãe que me ensinou:
A falar com meiguice, com os animais, e a esperar deles um retorno quase humano.
A compreender as histórias de encantar para além dos livros.
A acreditar que os cabelos compridos das princesas podem ser os nossos cabelos, se nós quisermos.
Ensinou-me a coçar os olhos, e fazia-o, com o seu queixo, com tanta suavidade, nos meus olhos fechados.
Ensinou-me a preservar a minha pele. Ensinou-me a importância do cabelo e da elegância.
Ensinou-me a ouvir, ouvindo-a.
Ensinou-me o significado das palavras “mimo” e “doce”.
Ensinou-me a falar baixinho e ensinou-me uma oração para espantar a trovoada.
Ensinou-me a gostar de cinema quando nem sabia ler.
Ensinou-me a amar coisas, como bonecas, momentos e cheiros.
Ensinou-me a gostar de música clássica.
Ensinou-me coisas muito miúdas, que ninguém seria capaz de ensinar.
Recordo uma delas, com este carinho todo: a primeira viagem para o Brasil com os meus manos. Ela veio ter comigo com um pequeno saco plástico fechado. E fê-lo porque sabia que eu era a única que o levaria. “Tens rolhas, lá dentro. Pode-vos fazer falta para lavar a roupa”. Eu tive vontade de rir, achei que aquela era só mais uma bizarrice da minha mãe. Mas levei.
E o engraçado é que passados dias, estávamos nós os quatro filhos, no Brasil, a usar as rolhas, para lavar alguma roupa no nosso quarto de hotel...aquelas rolhas que aquela minha mãe me deu, com aquele cuidado especial de quem pensa nas vírgulas...
A minha mãe ainda hoje me ensina coisas pequenas e delicadas como tirar uma nódoa a uma peça boa, de roupa.
A minha mãe ensinou-me a ser a pessoa que sou hoje.
A minha mãe ensinou-me a gostar de coisas pequenas, a agradecer o que tenho, todos os dias.
Ensinou-me a rezar sem peso e sem obrigatoriedade. Ensinou-me a recordar quem já não está, sem tristeza.
Ensinou-me a conhecer as pessoas da família, que não conheci. De tal forma que seria capaz de falar delas a alguém.
Ensinou-me a fazer ovos escalfados.
Ensinou-me, sobretudo, a amar.
A minha mãe tem, quando lá vou, uma pinça para as minhas sobrancelhas, um recorte disto ou daquilo. Tem o meu jantar preferido e o meu pão preferido. Tem um detalhe para me mostrar e uma dúvida para partilhar.
Tem o amor estampado no rosto. Tem o amor a envelhecer-lhe a pele e a tingir-lhe o cabelo.
Tem o amor no corpo magro e nos dedos tortos.
Tem o amor na beleza que ainda conserva. Nos olhos cinzentos cheios de vida e nos dentes brancos, abertos num sorriso.
Tem o amor no abraço que me estende e na voz que me dedica.
E tem, o meu amor, todos os dias da vida dela, com a intensidade com que me ensinou a amar.
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13 comentários:
Laura, intenso e comovente. Tão bom, miúda.
E vocês são tão bonitas!
Parabéns, com beijos, às duas.
Amor de mãe é o melhor que há.
Parabéns!
:)
Que dimensão! Que bonito! Que bonitas!
(o sitio das pequenas coisas!?)
Parabéns e um abraço.
onde o ensinar e o aprender são um só.
que bonito, Laura. Parabéns às duas.
beijo
Obrigada Isabel, pelas tuas palavras.
um grande beijinho
S, é mesmo.
muito obrigada.
beijinho
Impontual, muito obrigada :)
Ana, obrigada.
beijinho grande
Lindas as duas! É tão bom mas tão bom ver o envelhecimento dos nossos pais :) sente-se o coração cheio :)
Parabéns à tua mãe e à ti ;)
Beijos a dobrar :)
é muito bom sim...
obrigada VZd4 :) beijinhos grandes
As mães são artesãs de afeto, de um amor que nos abraça por inteiro. E os que se amam tornam-se cúmplices para a vida.
Que texto tão bonito, querida Laura.
Beijinhos para as duas :)
que lindas também as tuas, querida Miss Smile.
beijinho grande
um beijo no coração
:)
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