08/04/16

pés, coração, e uma vida cheia de decisões


phot. by Sally Mann
Olha para trás.
Para o passado recente; ainda vislumbra, nele, cambiantes de si.
O passado recente dela poderia bem ter sido o seu futuro. Mas não foi.
A uma dada altura, encontrou uma velha cancela, de madeira grossa, bruta.
À direita dela, uma extensão visível de um chão sem qualquer interesse: uma massa informe de terra, de cor aborrecida que não terminava, pelo menos até onde os olhos pudessem alcançar.
À esquerda, um trilho fresco, verdejante, com uma estrada plana, vaidosa e serpenteante, até ao mar.
“Ai o mar. Pensou ela. Adorava o mar. Corria para ele todos os dias. Precisava de o ver, de o cheirar. De perceber que, pelo menos, ele nunca acabaria.
Certo é que os seus dois pés rebeldes pararam, depois do movimento que se sucedeu ao instinto. Travaram a fundo. Então ela percebeu que, embora o seu coração tendesse naturalmente para a vereda que a levaria até ao mar, os seus dois pés queriam antes que ela trilhasse a direcção que, aparentemente, não tinha fim.
Foi o que aconteceu. Aventurou-se. Caminhou dias e dias. Cansou-se.
Chorou. Rejubilou. Esperneou. Rastejou. Cobriu lágrimas e despiu desgostos.
Achou que tinha de parar. Teve a certeza de que tinha de seguir.
E foi. E andou. E ainda anda. Ainda andará.
(Ainda ando).

Os pés escolheram bem.
Às vezes o coração aponta-nos o caminho mais fácil porque o nosso coração gosta muito de nós.

Conseguir equilíbrio entre pés e coração não é uma utopia.
Dá trabalho. Exige esforço constante.
Mas também nos faz dormir infinitamente melhor.

2 comentários:

Isabel Pires disse...

Laura, que bom poder agarrar aqui um fio que seja de esperança.
Um texto bom de ler em todos os sentidos.
Vale a pena vir aqui.
Bom fim-de-semana!
Beijo

Laura Ferreira disse...

Oh Isabel, obrigada.

Um grande beijinho (de boa semana)

Arquivo