20/05/16

ver passar, a minha avó Amélia e as minhas memórias preferidas

The Concierge's Dog, Paris, 1929, Andre K.


Apetecia-me passar a tarde todinha todinha sem fazer a ponta de um corno, a ver passar pessoas com suas roupas e seus animais e suas pessoas e assim.
Nas grandes cidades são raras as vezes em que vejo assim pessoas à janela, com ar descomprometido, relaxado, com ar de quem está ali porque lhe apetece estar ali e porque estar ali é muito melhor do que estar a jogar candy crush ou do que estar a ver as publicações de alguém para depois lhe ir moer a paciência ou qualquer outra coisa que envolva tecnologias, se bem que hoje qualquer coisa que se faça, regra geral, envolve tecnologias…


A minha avó paterna gostava muito de ficar à janela, a ver passar.
Quando assim ficava, o meu pai dizia que ela estava na “montra”.
A minha avó paterna cheirava a Madeiras do Oriente e usava sempre colares e eu gostava muito disso. Lembro-me de pensar que, quando fosse grande, gostaria de usar colares, como ela.
A minha avó paterna andava com os pés para fora e tinha caracóis pequeninos nos cabelos grisalhos e ainda hoje gosto de acreditar que, de certa forma, foram os caracóis dela que um dia passaram para os nossos cabelos, quando todos estávamos a dormir.
A minha avó paterna não ouvia lá muito bem de maneira que falava um nadinha alto demais. Mas em contrapartida tinha uma coleção admirável de livros e crónicas femininas e comia assim muito perto do prato, rente. Ainda hoje gosto de acreditar que essa mania que ela tinha passou para o meu pai, quando todos estávamos a dormir.
A minha avó paterna chamava-se Amélia. Era uma mulher de garra. Cozinhava como ninguém e gostava muito da família.
Parte do meu fascínio pelo universo feminino vem dela, da casa dela, na Rua do Arco. Do quarto ensolarado com as almofadas e a boneca de saia rodada, sentada na cama. Das mãos cruzadas no regaço ou os braços cruzados em cima do peito.
Do cheiro do pó-de-arroz e do cheiro das memórias desse tempo.
(Esse perfume ainda continua a ser o meu preferido.)

10 comentários:

© Piedade Araújo Sol disse...

um texto delicioso com uma foto muito bem escolhida.
bom final de semana.
beijos
:)

Miss Smile disse...

É tão bom quando temos encontro marcado com as nossas memórias... mesmo que à janela do tempo :)

Um beijinho, Laura, e um bom fim de semana

No Meu Quarto Andar Sem Cave disse...

:)

Tão bonito Laura. Os cheiros que nos fazem viajar :)

Gosto de observar, não de estar à janela, pois vivo num lugar super sossegado, mas de sentar e observar. Faço-o com frequência nas cidades que visito. É bom detectar e sentir diferenças :)

Beijinhos

Graça Pires disse...

Um texto com memórias é um texto quase sagrado porque se pode rever a geografia dos sonhos e as peregrinações do olhar...
Muito belo, Laura.
Beijos.

Graça Sampaio disse...

A minha avó materna era assim. Mas era espanhola e chamava-se Maria. E também se punha à janela. E também usava Madeiras do Oriente e creme Tokalon... E eu adorava-a!

O texto está delicioso e a foto é uma maravilha.

Gosto tanto de aqui vir!

Laura Ferreira disse...

Piedade, Obrigada :)
beijinho

Laura Ferreira disse...

Miss Smile, eu encontro-me tantas vezes com as minhas :)
preciso disso...

beijinho e boa semana

Laura Ferreira disse...

VZd4 também eu adoro sentar-me a observar.
preciso disso para a minha actividade artística.
preciso disso para a minha cabeça descansar :)

beijinho e boa semana

Laura Ferreira disse...

Graça Pires, muito bonito o que aqui deixaste.
obrigada pelas tuas palavras.

beijinho

Laura Ferreira disse...

Graça S,
também deves ter boas histórias sobre a tua avó :)

obrigada
beijinho e boa semana

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