07/06/16

espera


Há dez anos que se repete… a cada sábado; todos os sábados, todos os meses, todos os anos:
a mesma mesa, junto à varanda voltada para o oceano;
o mesmo piano, a chorar um noturno de Chopin;
o mesmo vento a afagar-me os cabelos, o mesmo vinho doce a despentear-me a razão;
e… um sorriso que se vem esbatendo:
com a espera, com o vento,
com o vinho, com a erosão.
Há dez anos que te espero.
“Que, serenamente, desespero.”
O meu corpo modificou-se. A cor do meu cabelo também.
As mãos têm mais sinais; às vezes entretenho-me a unir, com uma caneta, os sinais das minhas mãos.
Os miúdos da casa cresceram e já se foram. Até a moda mudou.
Continuo à espera que o mar te traga.
“O mesmo mar que te levou.”
Há quem diga que morreste e há quem diga que, pura e simplesmente,
foste embora e não tiveste de coragem de dizer adeus.
“Há quem não diga nada porque tem pena de mim.”
Custa-me acreditar que me tenhas deixado, sozinha, a envelhecer.
Como num monólogo, um debate surdo, uma canção sem tom.
“Não deixaste, pois não?
Costumavas dizer que há tanto mundo para ver a quatro-olhos.”
Visto este vestido, todos os sábados. Gostavas do toque dele…
“Faz-me cócegas nas mãos”, dizias, embriagado de carinho e de mar.
Já tive de o ajustar ao corpo uma dúzia de vezes - descosendo a bainha, para o alargar.
“Já tentei descoser-me, de ti, todas essas vezes.”
Não tem muito mais tecido, a bainha deste vestido.
“Decidi que deixarei de me sentar à tua espera, quando não puder alargá-lo mais.”
O amor sofre. O amor tarda. O amor hesita.
Gostavas que eu me sentasse nesta varanda quando voltavas, todos os dias, do mar.
“Exatamente assim, com este vestido, o cabelo a acariciar as costas,
as faces rosadas, o coração morno.”
Acenavas-me, de longe, e a tua mão ficava suspensa, como num retrato.
Quando chegavas a mim, trazias os olhos negros de desejo.
“Pareces um quadro do Edward Hopper” – dizias- e sentavas-te. Debaixo da mesa, davas-me o pé. Ficávamos ali perdidos nos olhos um do outro até o entardecer desmaiar na noite.
Há dias em que fixo o olhar no oceano e sou capaz de jurar que é o teu barco que avisto.
“Se, quando voltares, este vestido não me servir, o que é que visto para ti?”

12 comentários:

Tristan Reveur disse...

E responde: vestes nada

:)

Isabel Pires disse...

Vais encontrar a resposta.

Laura, gostei tanto, tanto... Não sei que dizer... Muito para pensar.
Beijo

Miss Smile disse...

A espera traz sempre o inesperado...
Muito bonito, Laura.

Um beijinho :)

Castiel disse...

Mas que lindo, Laura. E triste.

Tocou-me de tal forma que tive vontade de chorar a dor dela...

Deixo-te um beijo. :)

ana disse...

vestes-te de pele.

Laura Ferreira disse...

TR, há respostas que o tempo encarrega de dar :)

Laura Ferreira disse...

Isabel, obrigada.
escrevi este texto a ouvir Chopin :)

um beijinho

Laura Ferreira disse...

Miss Smile, a espera nem sempre desespera :)

um beijinho

Laura Ferreira disse...

Castiel, não quero que chores!

deixo-te este beijo com um sorriso

Laura Ferreira disse...

Ana, parece que ela não teve de alargar o vestido :)

Fragmentos Repartidos disse...

Muito bom texto. É da tua autoria?

Laura Ferreira disse...

é sim, FR. :)

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