08/06/16

no médico

uma filha adolescente. a cara cheia de borbulhas. a mãe de um lado. o pai do outro.
o pai mexe no telemóvel. a mãe torce a alça da carteira no regaço. a filha retorce-se na cadeira.
eu jogo um jogo de palavras enquanto espero pela minha vez.
a sapatilha da rapariga das borbulhas chama-me a atenção. as vozes baixas dos três aguçam-me a curiosidade. apuro a audição; o meu dedo médio começa a mover-se mais devagar.
parte do meu cérebro detém-se ali, na conversa deles.
falam da viagem da miúda das borbulhas. a Paris. a rapariga das borbulhas vai com as amigas a Paris. levanto os olhos para aferir a idade dela. não terá mais de 14 anos.
-mal chegues liga logo. - diz a mãe de cabelo engraçado.
- apanhem um táxi, é mais seguro. - diz o pai de pele bronzeada.
a rapariga de cabeça entontecida pela puberdade e por uma visão de alguns dias longe dos pais, fala de museus, fala do hotel, fala da mala, fala da roupa. fala entre risinhos e suspiros.
recuo até aos meus 14 anos de idade. ainda brincava com algumas bonecas, às escondidas. já não era aquela coisa das mães e das irmãs. fingia, antes, que era a cabeleireira delas. a estilista. a médica.
embora o meu corpo já tivesse dito adeus à infância a minha cabeça continuava presa a certas brincadeiras.
fui rapariga/moça já tarde, sim. eram outros tempos. não havia viagens a Paris com as amigas.
não havia telefones, tablets, sapatilhas giras e compras no ebay.
mas, em contrapartida, havia brincadeiras criativas e fins-de-tarde aproveitados até à última gota de sol.

17 comentários:

Mar Arável disse...

Ainda não privatizaram o sol

eusouassim disse...

Eu também brincava com os meus bonecos "fora da idade". Cheguei a ser apanhado e a ter que dar explicações. Não tinha essa hipótese do cabeleireiro :-)
Eles não crescem mais depressa, acho que saltam etapas.

Beijos

Fragmentos Repartidos disse...

Pois...realmente existe uma grande diferença entre a infância e adolescência de hoje em dia quando comparada com a no nosso tempo (estou entre os 30 e os 40). Também me lembro de ainda brincar com "carrinhos" por volta dos 12 anos e pensar que já não o devia fazer porque já não era para a minha idade, mas ainda gostava de o fazer.

Talvez daqui a alguns anos ainda haja mais diferenças do que hoje em dia...só o tempo dirá.

Maria Eu disse...

A Paris com as amigas???? Jasus!
Aos catorze? Huuummmmm... Confesso que já nutria uma paixão platónica por um rapaz que só via da janela. Paris? Paris só via nos livros, principalmente no manual de Francês.

Beijos, Laura :)

Tétisq disse...

Os adolescentes andam muito precoces mas só para algumas coisas.

Majo Dutra disse...

~~~
Compreende-se o alvoroço da menina...

Ainda não é para todos...

Ótimo fim de semana.
~~~~~~~~~~~~~~~

Manel Mau-Tempo disse...

havia tempo naquele tempo...

Laura Ferreira disse...

Mar, ainda bem que não..

Laura Ferreira disse...

Eusouassim, é essa também a minha opinião. que saltam etapas...

Laura Ferreira disse...

FR, devia haver tempo para tudo. até para se crescer lentamente. :)

Laura Ferreira disse...

Pois, Maria. Eram mesmo outros tempos...

Laura Ferreira disse...

Tétisq deviam ser precoces na boa educação, por exemplo...

Laura Ferreira disse...

Boa semana, Majo...

Laura Ferreira disse...

M M-T naquele tempo o tempo é que era tempo!

ana disse...

o tempo era mais demorado, chegava para tudo...

Laura Ferreira disse...

pois era, Ana, era um tempo vagaroso...

Carla disse...

Nessa idade, brincava com bonecas.
Paris? Nem para Coimbra, quanto mais...

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