08/07/16

a minha Música


A Música deve ser uma mulher madura, que ora se veste de casacos quentes ora se passeia, nua, numa noite de junho.
A Música deve nascer uns dias antes de nós para preparar a nossa existência musical: para acautelar prateleiras, caixas e caixinhas.
Depois ao longo da vida segue-nos, rasteira e curiosa, atenta às notas do nosso corpo, à métrica dos cabelos, à infinita composição do género, feitio e defeitos.
E vai guardando em prateleiras, dentro de caixas e caixinhas, as músicas da nossa vida colocando-lhes um rótulo pomposo e bem discriminado:
Música para dias em que a vontade de fazer nenhum é enorme;
Música para chorar um bocadinho e limpar a alma;
Música para preparar os papéis do IRS;
Música para limpar a casa num instantinho;
Música para beber um copo de vinho tinto e ficar com olhos de cinema;
Música para dar um beijo apaixonado e ficar lá, nesse beijo, aí uns vinte minutos.
A minha Música está sempre a destapar caixas e caixinhas, a atirar-me melodias à cara.
A par dos meus tantos passos convoca, assim que acorda, uma verdadeira sinfonia que se estende ao longo do dia.
Mas se há dias em que a Música abranda e se limita a escoltar-me sem grande alvoroço
outros há em que acorda com o diabo no corpo
e passa o dia a vergastar-me com memórias, rostos, momentos e sentidos.

Hoje aconteceu assim. A minha Música atirou-me às trombas uma melodia cheia de coisas. Tantas coisas que algumas até já perderam dela.
Uma há, porém, que ainda recordo.
É junho. Está quente. Ouço o tiquetaque preguiçoso do relógio de parede do corredor que dá para a cozinha, onde a avó partiu a cabeça algumas vezes.

Ouço a Ié na cozinha com o rádio a berrar.
Ouço o fungar-tique-do-nariz da avó, sentada ao sol, na sala, a fazer um crochet que mais parece um labirinto;
Ouço as madeiras da casa a estalar. A cadela a ressonar.
Ouço os saltos da minha mãe no andar de cima e o som de gavetas;

É junho. Está quente.
Daqui a pouco o meu pai vai entrar. Se calhar traz um disco novo.
Daqui a pouco os meus irmãos e primas vão entrar. Se calhar trazem discos novos.
Vamos juntar-nos todos, na sala, a ouvir música.
Na nossa casa há sempre muitos discos e muita música.
Se calhar é por isso que somos todos tão felizes.

8 comentários:

Manel Mau-Tempo disse...

as tuas palavras foram música para os meus ouvidos... porque elas desencantaram outras músicas, outros tempos, também sentados numa sala, apenas a ouvir :) gostei pra lá de tanto

(precisava de sugestões de música para limpar rapidinho)

Laura Ferreira disse...

obrigada M-MT :)

olha um bill evans calha bem com este calor :)

O Profeta disse...

“O que quer que ames ama-te”
Com o teu amor
Acendeste-me a luz da alma
Vivo, amo, porque a morte é o ato de regressar

Tenho um sol inteiro
Um castelo altaneiro
A saudade do amor primeiro
Tenho tanto, nada, rosa, sal fogo

Doce beijo


luisa disse...

Tenho tido as minhas caixinhas de música muito fechadas. Ao ler este post lembrei-me, entre outras, da "minha música" em som bem alto, de janelas abertas, para limpar e arrumar a casa. :))

Laura Ferreira disse...

obrigada pelo poema, Profeta

Laura Ferreira disse...

Mas isso é bom, Luísa. Tens de as abrir de vez em quando.
olha, eu gostava de saber que músicas lá guardas...

Marta Vinhais disse...

A música abre a horizonte e leva-nos numa viagem imensa...
Espero que me perdoe ter "entrado" sem convite... Gostei muito de ler.
Até já
Beijos e abraços
Marta

Laura Ferreira disse...

Marta, é muito bem vinda :)

um beijinho e até já

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